quinta-feira, 5 de setembro de 2013

DE VOLTA AO PASSADO VII – ANTIGOS BLOCOS CARNAVALESCOS – ÚLTIMA PARTE


Finalmente chegamos ao último artigo sobre os antigos blocos carnavalescos. Como dissemos na crônica anterior, esses blocos deixaram de animar as ruas e avenidas de nossa capital, após o acidente ocorrido com o bloco “Puxa Saco” no ano de 1984, que ficou conhecido como “A Tragédia do Baldo”. Entretanto, os blocos que saiam à moda antiga com alegoria, orquestra e puxados com trator, deixaram de existir já em meados dos anos 70. Os que permaneceram diferiam dos tradicionais, pois não se utilizava o sistema de alegorias, deslocavam-se a pé e o número de componentes era bem maior. Guardadas as devidas proporções, assemelhavam-se em muito aos blocos que hoje desfilam por ocasião do insistente Carnatal.  

                               CARNATAL - Imagem internet

Os antigos blocos carnavalescos tiveram o mesmo destino que as nossas saudosas “serenatas” - musicas cantadas no sereno -, costume boêmio que herdamos no sangue lusitano, dentre outras coisas vindas da Península Ibérica. Quando em 1972 parti para São Paulo Capital, onde assumiria o meu primeiro emprego no Banco do Brasil, a prática das serenatas em nossa turma ainda era comum. Reuníamos nos bares de então para os ensaios e lá pela madrugada iniciávamos as serenatas, de preferência na casa da namorada de alguém da turma. 

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Naquela época o percurso era feito a pé, o que limitava nossa atuação e os bares escolhidos para os ensaios ficavam estrategicamente próximos das casas a serem visitadas. Posteriormente vieram os carros, geralmente ganhos por um de nós, como prêmio por ter obtido aprovação no concurso do vestibular, melhorando, assim, o alcance e o número de casas visitadas.


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Quando do meu primeiro retorno a Natal em 1974, poucos eram os que se aventuravam nessa prática, pois a evolução musical dos ritmos e estilos, já empurrava o jeito melodioso e poético das musicas cantadas em serenatas para a marginalidade. Além do mais esse tipo de música e seus intérpretes eram taxados de piegas. Diziam-se bregas, cafonas etc.
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Entretanto, não era o que acontecia em Conservatória, distrito de Valença no estado do Rio de Janeiro. Em 1975, ainda morando do Rio, tive a oportunidade de passar um fim de semana prolongado nessa encantadora cidade. No primeiro dia, ao cair da tarde quando as luzes tênues pendentes dos postes de madeira começavam a iluminar a velha cidade, fiquei arrebatado com o som que vinha das ruas. A princípio distante, depois aos poucos começou a se aproximar da casa onde estávamos hospedados. Em dado momento, surgiu no início da rua um grupo de pessoas, na maioria formado por casais que caminhava cantado ao som de violões plangentes, tangidos magistralmente por músicos, que acompanhado de suas namoradas, esposas e amigos peregrinavam pelas centenárias ruas estreitas da cidade enchendo o ar e o coração dos ouvintes de uma melodia tão bela, que naquele instante nos pareceu hinos celestiais.

                                      Imagem Internet

No outro dia, andando pela cidade, pudemos observar que em cada casa daquela rua e de outras também, havia uma placa afixada na parede com a data da serenata e o nome do compositor da canção executada. Fiquei impressionado e maravilhado com aquela tradição, que se mantém até os dias de hoje.

                                        Imagem Internet

Quando retornamos para Natal, em 1976, perguntei aos amigos se ainda aconteciam as nossas serenatas.Tive como resposta frases de reprovação: tá doido? Isso é coisa de brega! Conformei-me e silenciei quanto a minha experiência na cidade de Conservatória. Não valia à pena dizer o que tinha visto e sentido. Para eles não fazia a menor diferença, afinal minha cidade havia crescido e com ela a mentalidade cosmopolita daqueles amigos.
        
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Mas, de volta aos antigos blocos carnavalescos, em 2010 um grupo de amigos, remanescentes dos blocos  Lorde’s e Apaches, movidos pelo saudosismo, resolveram literalmente “botar o bloco na rua”. Fizeram algumas reuniões, ao modo como fazíamos naqueles “anos dourados” e foram à luta: contrataram orquestra, conseguiram o trator e as caçambas. 
APACHES - 2010

O desenho e a pintura da alegoria ficou, como sempre, a cargo do artista plástico Levi Bulhões. Teve como primeira formação os seguintes foliões, que na quase totalidade eram acompanhados por suas esposas: Beto Coronado, os irmãos Claudinho e Sezio Ribeiro Dantas, Minervino, Levi Buhões, Marcos Monte, Julio Andrade, Mauricio Tarcino, Iog Pacheco, Alfredo, Jaime Paiva, Sergio Amarelinho, Rafael Maux, João Cláudio (Joê) e José Bezerra (Ximbica).

                                            APACHES  2011

No sábado de carnaval daquele ano, retornava as ruas de Natal “OS APACHES” com admiração e saudosismo dos mais velhos que tiveram o privilegio de conhecer ou mesmo de participar dos antigos blocos carnavalescos.
APACHES - 2013

         A partir de 2011, continuam saindo mesmo sem alegoria, entretanto, não dispensam a orquestra que no ano passado foi composta por dez animados músicos. Vestidos com fantasia simples onde se destaca o nome do bloco na camisa, reúnem-se, inicialmente na casa de Beto Coronado. De lá, partem para os bares da vida de preferência no circuito da praia de Ponta Negra, compartilhando alegria, tocando a tradicional e boa musica carnavalesca composta de frevos e machinhas e, naturalmente, como bons saudosistas, evocando os tempos que não voltam mais.  


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