sábado, 21 de março de 2015

A FEIRA LIVRE


Pedro Simões Neto


Domingo era dia de folia. Ou não. Poderia ser no Sábado. Eram as usinas que decidiam se seria a Sexta-feira ou o Sábado o dia do pagamento. Em decorrência de tal decisão, a feira só poderia ocorrer no dia subseqüente ao do pagamento, no Sábado ou no Domingo. E era na feira onde começava a folia, numa das inúmeras “bancas” ao ar livre, na “quadra” do mercado, ou nos “locais”, dentro do prédio público. O freguês tomava uma e outras e voltava feliz para casa, sem pensar na segunda-feira seguinte.

O prédio do mercado público da cidade foi construído pelo coronel Onofre José Soares, pai do “major” Onofre Soares Junior, que obtivera concessão do então governo provincial para explorá-lo durante vinte anos. Foi inaugurado em 1881 com manifestações de desagrado por parte do povo, rezam as crônicas, tendo em vista uma postura municipal haver determinado a mudança da feira que tradicionalmente se realizava na rua Grande, para as dependências do novo prédio. Mesmo sob o protesto, a feira, então, passou a ser realizada inicialmente dentro do prédio e depois, em torno dele.
A feira era, e ainda é, uma instituição sócio-econômica da maior importância, sobremodo nos anos cinquenta.

Todas as ruas convergem para o “quadro” do mercado e de lá saem para o interior, num incessante ir e vir de caminhões, cavalos, burros, carroças e bicicletas. O mercado público é como uma gigantesca centopéia que oferece os seus membros a uma comunidade de formigas.
O mercado é também uma central de informações, das mais triviais – quem chegou e quem partiu ou os últimos boatos da cidade – até as mais importantes, como o resultado do jogo do bicho, o preço da tonelada de cana e as cotações de feijão, do milho, da mandioca e da farinha.
As feiras realizavam-se aos sábados, mas todos os dias os feirantes permanentes – pequenos comerciantes que não tinham um “ponto” para negociar – armavam as suas barracas estimulando a freguesia com pregões cantados ou versejados.

Do burburinho dos feirantes, destacavam-se dois setores do comércio: os vendedores de ‘mangaio’ e os curandeiros com seus remédios milagrosos, aliás, extensões do mesmo ramo de negócios. Os ‘mangaieiros’ trabalhavam com ervas, raízes e pedras, cada produto com a sua indicação terapêutica peculiar, alguns com diversificadas panacéia. A maioria dos curandeiros era composta por charlatões. Aqui e ali, muito esporadicamente, identificava-se um produto com cura atestada pela tradição, diferentemente dos mangaieiros, referenciados pelos hábitos da população pobre e por remotíssima tradição oral. Os curandeiros trabalhavam com componentes fantásticos, taticamente escolhidos para criar ilusões nos adquirentes: óleo de boto, para aumentar a virilidade; barbatana de cação, para dar força e valentia; gordura de ‘peba’ para fechar o corpo contra as ‘mulestas’. Até o caldo da ‘xamexuga’ já foi oferecido para impaludismo, por aí se veja... 

Dentro do mercado ficavam os ‘locais’. Eram boxes mantidos por inúmeras gerações da mesma família, que mantinham fiéis à venda de determinados produtos, comercializados apenas no mercado: artigos de couro, cipó, palha, flandres e certo tipo de miudezas. E também as comidas prediletas dos feirantes: caldo de cana, bolo preto, da moça, de macaxeira, de batata e de mandioca; prato-feito de almoço com carne de sol, feijão e farinha de mandioca, com direito a umas colheradas de paçoca e a um pouquinho de torresmo; café da manhã farto; xícara grande de café-com-leite, cuscuz com ovos, macaxeira, queijo do sertão, tapioca e pão com manteiga. 

A relação dos produtos vendidos encheria muitas folhas de papel almaço. Chapéu de couro, rebenque, botinas e alpercatas de couro cru, sela e arreios, cangalhas, peneiras, raladores de coco, coadores, cuscuzeiros, chaleiras, candeeiros e lamparinas, penicos, bruxas de pano, mochilas, chapéus e esteiras de palha trançada, cachimbo, fumo de corda e fumo caipira para cigarros, esculturas de barro (boi, vaqueiro, cavalo, farinhada, forró, casamento, cantoria...) quadros emoldurados com figuras de santos, espingardas de soca, facões e peixeiras, bainhas, redes de dormir e de pescar, malas de madeira (maletas e malotas), caçuás de cipó, espelhinhos redondos e ovais, pavios para os candeeiros, canivetes de ‘gilete’, livrinhos de cordel, cintos e cinturões, copos e xícaras de alumínio, brinquedos toscos de madeira, destacando-se o boneco pulador e o “João redondo”. Que ninguém possa esquecer dos barulhentos rói-róis. 

A praça do mercado era o centro comercial da cidade, fato que não incomodava nem preocupava os renitentes proprietários de casas residenciais. Os mesmos permitiam a utilização dos quintais como guardadouros de animais e de gêneros. Punham grandes jarras de barro nos alpendres como depósito d´água para serventia da sede dos feirantes. A hospitalidade aos interioranos era praxe na cidade, mas não havia promiscuidade. Cada família ou região contava com casas determinadas. 

Aquelas cujos proprietários tinham fazendas nas regiões dos hóspedes, ou suas empregadas tinham ligações familiares, ou eram agregados políticos ou afilhados. Esses apresentavam outros, que iam se incorporando à hospedaria. A obrigação dos hospedeiros era a de oferecer sombra, água e depósito. Um desses proprietários tinha um caminhão de três boléias, denominado ‘misto’, exatamente porque transportava passageiros e cargas, que tinha a concessão da linha que margeava a ribeira do vale.

O quadro do mercado era uma só festa de confraternização, alegria e muita conversa arrastada dos homens e a animada boataria das mulheres, que nem parecia que tinham se encontrado no dia anterior. Era uma profusão de cores, sons e cheiros. Muita gente descalça, ou calçando chinelas e alpercatas. Raros de botinas, mais raros ainda de sapatos. Muita gente de chapéu de palha, inclusive algumas mulheres. Poucos de chapéus de couro. Mais raros, ainda, de chapéus de massa. Calças caqui com camisas de algodãozinho e vestidos de chita. Cheiro estonteante e suor, cachaça, água de cheiro, banha nas carapinhas, colorau, dendê, peixe de sal preso, esterco e urina de animais, sarapatel, buchada e torresmo, couro cru, goiaba, manga e tempero verde.

A feira era uma festa, mesmo que não fosse, mesmo que não quisesse, mesmo que não pudesse. Os cantadores atraíam o público fervoroso, aboletados em tamboretes, apoiados nas mesas dos bares, com os violões a tiracolo. Os vendedores de cordel amplificavam os versos dos autores em engenhosos cones de folha de flandres colados à boca. A banha de porco, além da natural serventia para os assados triviais e as frituras, era anunciada também para esticar o cabelo e ser usada como lubrificante pelos noivos.
Os políticos andavam prá lá e prá cá, exibindo-se para o eleitorado do interior. Ora pagavam uma ‘chamada’ de cana para um grupo, ora presenteavam as mulheres e os velhos com ‘santinhos’ de padre Cícero e Frei Damião. Dependendo, davam panos e água de cheiro às matriarcas. Quanto maior a família, mais valioso o presente. Se estivesse pertinho das eleições punham uma chapinha com o nome dos candidatos dentro do embrulho do presente.

A hora de voltar era a hora de voltar, marcada pelo excesso de cachaça, pelo cansaço, por algum mal acontecido ou pelo prenúncio da escuridão. Então, era hora de selar e arrear os cavalos, tirar o sapato apertado, ou embarcar nos carros de boi e carroças, ou nas carrocerias dos caminhões e voltar ao assunto para mais uma semana.

Na feira ainda ficariam os desempregados e os mendigos, catadores de restos de alimentos ou que barganhavam os refugos dos vendedores. Um deles recolhia os restos do chão, quando pechinchava as miuçalhas dos feirantes, para fazer o “caldo da ressaca”, também chamado “caldo da caridade”, uma mistura de verduras, ossos e “péia” de carnes que levantava até defunto.


terça-feira, 17 de março de 2015

O GENERAL JOÃO VARELA


O General de Brigada João da Fonseca Varela, nasceu em Ceará-Mirim, em 2 de dezembro de 1850 e morreu em Natal, aos 81 anos completos, no mesmo mês do nascimento, dia 12, em 1931.
Herói da Guerra do Paraguai, último comandante da Fortaleza dos Reis Magos, Chefe de Polícia (equivalente a Secretário de Segurança) e abolicionista, foi promovido a general por ato do Presidente Epitácio Pessoa. Recebeu inúmeras distinções, entre elas a Medalha de Bravura Militar, as Medalhas das Imperiais Ordens de Cristo e da Rosa e a da Campanha do Paraguai.

Homem de muita bravura, civismo (alistou-se para a campanha do Paraguai quando tinha apenas 16 anos) e integridade moral, é motivo de orgulho para a sua cidade de nascimento e para o próprio Rio Grande do Norte e um estímulo para os seus descendentes e conterrâneos.
Nenhuma voz é mais credenciada do que a de Câmara Cascudo que a ele dedicou uma de suas Acta Diurna, publicada em 2 de julho de 1943(*):

“O Presidente Epitácio Pessoa pelo Decreto 3.958, de 24 de dezembro de 1919, conferiu aos oficiais veteranos da Campanha do Paraguai as honras de General de Brigada.
Por isso João da Fonseca Varela era o General Varela.
Recordo-o com saudade. Ato, forte, claro, a longa barba branca descendo para um busto de atleta, parecia um daqueles boers do Transval, soldados natos e comandantes desde o batizado.

Cercava-o um halo de veneração irresistível. A onda nacionalista, deflagrada por Olavo Bilac, encontrava no velho Varela um centro de atração para o nosso entusiasmo.
Em todas as festas militares ou civis onde houvesse multidão, estava presente o veterano do Paraguai, possante, sereno, fardado, o peito coberto de condecorações.

Quando as bandas executavam o hino nacional em continência à bandeira ele tirava o boné da cabeça e ficava hirto. Não fazia continência à bandeira da República porque não era a sua, a de Caxias, Osório, Porto Alegre e Pelotas, seus ídolos.
Disciplinado, saudava apenas a bandeira de sua Pátria.
Republicano na Monarquia, era monarquista na república. Monarquista platônico, respeitador das leis, lembrando sempre o imperador.
Nascera num aniversário de D. Pedro II, 2 de dezembro de 1850. Com dezesseis anos, fugindo de casa, alistou-se voluntário para a guerra contra o ditador Francisco Solano Lopez, o tiranillo do Paraguai, a 9 de março de 1865.

Seguiu no 28º Batalhão até S. Borja, onde este se dissolveu, comandado pelo norte-rio-grandense José da Costa Vilar. Incorporou-se ao 36º de Voluntários da Pátria. Alferes, passou para o 36º e depois para o 48º Batalhão e foi extinto depois de Avaí.
Varela ficou adido ao 2º batalhão de Infantaria e posteriormente ao 18º.
Bateu-se em Avaí, em Curuzu, em Curupaiti, na ponte de Itororó, em Humaitá, na batalha-modelo de Lomas Valentinas.
(...)
Feita a paz voltou a Natal e regressou ao Exército, sendo alferes efetivo.
(...)
No Rio Grande do Norte teve várias comissões, todas militares. Comandou a Fortaleza dos Reis Magos, em 1888. Ingressou no Corpo Policial da Província, sendo capitão e o seu comandante. Enfrentou, em diligências ásperas, os cangaceiros no interior norte-rio-grandense e paraibano.”

O notável Mestre de todos os norte-rio-grandenses ainda relata que o general vira Caxias, Osório, Porto Alegre, Pelotas e Fernando Machado, seus heróis, nos acampamentos e nos campos de batalha, cada qual com a sua característica, todos, entretanto, bravos guerreiros.
Diz ainda o grande historiador potiguar que, dias antes de morrer, erguendo-se com muita dificuldade, o velho general fardou-se e foi à Praça Pedro II (hoje João Tibúrcio), onde erguia-se o busto do imperador e, diante do busto, perfilou-se, bateu uma continência e voltou para casa, para morrer.
(*) – Cascudo, Luís da Câmara – “O livro das velhas figuras” – IHGRGN. 1976 (págs. 84/86)

quinta-feira, 12 de março de 2015

CONVITE - UBE

 


UNIÃO BRASILEIRA DE ESCRITORERS – UBE/RN , o  INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO RIO GRANDE DO NORTE - IHGRN e a ACADEMIA NORTE-RIO-GRANDENSE DE LETRAS-ANL convidam Vossa Excelência/Vossa Senhoria para Sessão Solene  de entrega de Diploma de Sócio Efetivo aos novos associados da UBE-RN. Após o evento haverá um sarau no Largo Desembargador Vicente de Lemos, oportunidade em que será comemorado o DIA DA POESIA. Traga seu poema preferido para recitá-lo.

A data foi criada em homenagem a CASTRO ALVES, poeta brasileiro nascido em 14 de março de 1847, que ficou conhecido como o poeta dos escravos por ter lutado arduamente pela abolição da escravatura no Brasil.

Tomarão posse na União Brasileira de Escritores- UBE/RN os confrades e as confreiras a seguir relacionados na classe dos Sócios Efetivos:

Aline Gurgel

Carlos Rostand de França Medeiros

Cícero Martins de Macedo Filho

Diulinda Garcia de Medeiros Silva

Dione Maria Caldas Xavier

Eulália Duarte Barros

Geraldo Ribeiro Tavares

Ion de Andrade

José Ivam Pinheiro

José Evangelista Lopes

Liacir dos Santos Lucena

Luiz Gonzaga Cortez Gomes de Melo

Maria Audenôra das Neves Silva Martins

Moacir de Lucena

Odúlio Botelho Medeiros

Luciano Lucimar de Oliveira

Rinaldo Claudino de Barros

Thiago Gonzaga dos Santos


quarta-feira, 11 de março de 2015

A PRODUÇÃO AÇUCAREIRA NO VALE DO CEARÁ-MIRIM


LAÉCIO FERNANDES MORAIS in Ceará-Mirim, Tradição, Engenho e Arte – 2005/SEBRAE, UFRN e Prefeitura Municipal de Ceará-Mirim.

A ocupação das terras brasileiras se deu com a implantação simultânea da cultura canavieira. A organização da atividade açucareira, em seus traços gerais, tinha como elemento central o engenho, composto pela fábrica, com maquinário para retirar o caldo da cana e utensílios para produzir o açúcar, e pela grande propriedade para composição dos canaviais. Tal empreendimento foi estruturado com base no trabalho escravo, sob comando do senhor de engenho.
No Rio Grande do Norte, o cultivo da cana de açúcar teve início no século XVII. Em Ceará-Mirim, a indústria açucareira foi organizada em meados do século XIX, quando, em 1843, Antonio Bento Viana instalou o Engenho Carnaubal, que funcionou com a primeira moenda horizontal ao longo do vale.

A produção açucareira no município tomou impulso a partir de 1894 e manteve-se próspera até 1920, período em que ali foram instalados mais de cinquenta engenhos. Na época Ceará-Mirim se destacava como principal produtor de açúcar no Rio Grande do Norte, sendo responsável por 60% da produção. Nessa fase, houve a iniciativa de se aperfeiçoar o processo produtivo no município, quando, em 22 de agosto de 1912, o então governador Alberto Maranhão assinou um contrato com Julius Von Sohsten, negociante estabelecido em Pernambuco, para instalação da primeira Usina Central.

Seu objetivo era centralizar e modernizar a produção açucareira, adequando-a às novas exigências do mercado internacional, incentivando uma mentalidade de caráter empresarial. O projeto “Usina Central” não foi realizado. No vale do Ceará-Mirim, a partir da década de 1920, foram implantadas três usinas de pequeno porte: a Guanabara, de propriedade de Antonio Basílio Dantas Ribeiro, a São Francisco, organizada no antigo engenho que pertenceu a Manuel Varela do Nascimento – Barão de Ceará-Mirim – e Ilha Bela, dos herdeiros de José Felix Varela.

Como consequência desse processo, a imagem político-social do senhor de engenho foi ofuscada pela figura do usineiro dinâmico, político e catalisador de influências. Diante da nova estrutura produtiva, muitos senhores, que não dispunham de recursos suficientes para modernizar suas unidades de produção, passaram à simples condição de fornecedores de cana-de-açúcar. A agroindústria se consolidava, alterando o cenário local. Muitos engenhos do município ficaram de “fogo morto”, pois muitos descendentes das tradicionais famílias ceará-mirinenses passaram a seguir carreira nos quadros do funcionalismo público.

A industrialização da atividade açucareira configurou uma nova realidade na produção, que atualmente é realizada pela Companhia Açucareira Vale do Ceará-Mirim, novo nome da antiga Usina São Francisco, dirigida por Geraldo José da Câmara Ferreira de Melo. Dos vários engenhos existentes no vale, apenas o Mucuripe, de propriedade de Ruy Pereira Júnior, continua em funcionamento. Sua estrutura, que era organizada para produzir o açúcar mascavo, tem hoje seu maquinário adaptado para a fabricação apenas de mel e rapadura.*

*Deve se levar em consideração que as informações contidas neste último parágrafo, são de 2005, ou seja, há 10 anos atrás, quando o livro foi publicado. Hoje a realidade é outra.

terça-feira, 10 de março de 2015

ESTÓRIAS, LENDAS E TRADIÇÕES DE CEARÁ-MIRIM

PUBLICADO NO BLOG DA ACLA - ACADEMIA CEARAMIRINENSE DE LETRAS E ARTES





Antônio Sérgio Medeiros da Silveira


Entre todos os povos, as lendas formam a tradição viva do pensamento primitivo. Constituem a base dos contos populares, são transmitidas oralmente e conservadas pelo costume. Elas crescem com os conhecimentos diários e se incorporam à vida cotidiana.
Em Ceará-Mirim, esse patrimônio de tradições é fruto de inúmeras estórias cultuadas por gerações e gerações. Refletem o desenvolvimento sócio-econômico e cultural de seu povo e se vinculam ao florescer da atividade agro-açucareira no vale. São relatos contados nas dependências dos velhos engenhos. Com o passar do tempo, foram sendo adoçados e se transformando noutros, misturando-se a elementos que expressam a formação étnica de seu povo.

Narram os antigos que em um dos engenhos se cometiam perversidades tais que causavam repulsa até mesmo aos outros proprietários do vale. Eram episódios que manchavam de vergonha, tamanha a sua crueldade, mesmo numa época em que era comum a aplicação de castigos físicos aos escravos. Tais castigos, para alguns, se assemelhavam ao próprio inferno vivenciado na terra.

Dizem que num túmulo do cemitério velho de Ceará-Mirim vive uma gigantesca serpente, que seria a personificação da antiga senhora desse engenho. Trata-se da lenda da mulher que virou serpente. Falecida repentinamente, como forma de tocar o coração do seu esposo e a pedido dos deuses, seu corpo teria se transformado numa grande serpente que devia ser contida. Seu túmulo foi concretado e acorrentado devido às grandes rachaduras ali surgidas.
Para os dogmas cristãos, essa transformação traduz a incessante luta entre o Bem e o Mal. Nos livros do Gênesis e de Isaías o Mal é textualmente chamado de Serpentem Tortuosum. Ele age em forma de serpente, representando as forças subterrâneas, misteriosas e identificadas como sendo o espírito das trevas. Por outro lado, essa manifestação reproduz o pecado original com todas as suas desastrosas conseqüências: o Tentador, a Tentação, a Queda e o Castigo, como se refere a Bíblia: Callidis Simum Omnium Animatium.

O senhor desse engenho exigia de seus escravos cega obediência e eles faziam de tudo para servi-lo. Segundo Madalena Antunes, no seu livro de memórias, Oiteiro, “quem tinha negro ruim, vendia ao dono daquele engenho ou, quando muito, uma simples ameaça era o suficiente para o infeliz, amedrontado, logo melhorar a conduta”.
Conta-se, ainda, que até os animais reclamavam dos abusos ali praticados. Das estórias narradas, uma se faz presente no cotidiano popular: “o boi que teria falado”. Num certo dia, como noutro qualquer naquele engenho, cansado da lida, um boi teria exclamado: “Não é possível que nem na sexta-feira santa se descanse nessa propriedade”.

Também faz parte do imaginário popular de Ceará-Mirim a estória da baleia que estaria dormindo num gigantesco berço posto em baixo do altar-mor da matriz. Conta-se que, após uma salutar disputa entre Santa Águeda e Nossa Senhora da Conceição, pela escolha da Padroeira da Cidade, Santa Águeda, derrotada, teria invocado a Deus que aprisionasse aquele animal, libertando-o somente quando as águas do Rio Ceará-Mirim banhassem a calçada da Matriz.

A lenda da Cabaça é outra narração que faz parte da imaginação popular, sendo alimentada pela existência de um grande rio subterrâneo que corta a cidade de ponta a ponta. Segundo os moradores do município, ao se mergulhar um porongo no Rio do Mudo, na Jacoca, ele é levado pelas águas, surgindo no Olheiro Pedro II, próximo à estação ferroviária da cidade. Conta-se que esse rio é a fonte principal a alimentar os olhos d'água do município.


terça-feira, 3 de março de 2015

SOLAR DOS ANTUNES



Artigo do Acadêmico JOSÉ DE ANCHIETA CAVALCANTI (Cadeira número 11), publicado em O GALO – Jornal Cultural, em agosto de 2002.

Ei-lo magnífico, imponente e majestoso, encravado na Praça do Mercado de Ceará-Mirim, abrigando a sede da Prefeitura Municipal.
Construído no auge do ciclo da cana-de-açúcar, seu aspecto retrata um dos períodos mais prósperos da região, quando predominavam os senhores de engenho, dirigindo os destinos do município.

No Solar dos Antunes residiu, parte de sua infância e adolescência, a sinhá-moça que toda Ceará-Mirim conheceu: dona Maria Madalena Antunes Pereira, a qual no seu livro “Oiteiro”, edições Pongetti, teve oportunidade de assim referenciá-lo: 

“O sobrado! Templo que recolheu a velhice e os últimos dias daqueles que me deram o ser. Como esquecê-lo?
De suas amplas janelas contemplei por muitos anos, o esmeraldino brilho dos canaviais e aspirei trazido pelo vento o aroma do fumo das chaminés distantes, círios brancos dispersos na toalha verde do vale, quais turíbulos espargindo por toda parte o incenso do trabalho.

O sobrado exaltado, anos depois, pelos lampejos mentais de Umberto Peregrino, que o frequentou muito jovem, assim como Galdino Lima, marciano Freire, Olavo Montenegro, Raimundo Antunes, João Neto, Alberto Carrilho, Pedro Varela, Nilo Pereira, Aprígio Câmara, Letício de Queiroz e muitos outros, é, hoje, apenas querida mansão vazia e silenciosa sem as antigas reuniões brilhantes e familiares dos seus salões festivos.

Moças e rapazes de duas gerações casaram e envelheceram, dispersando-se o alado bando de pardais alegres, hoje saudosos e tristonhos...
O sobrado! Símbolo de uma modesta grandeza que passou”.

Tive duas tias que por algum ali residiram: Luiza e Anita Cavalcanti e, quando eu as visitava, subia por suas longas e pesadas sacadas, descortinando da ampla sala de jantar a enorme visão do vale rosa-verde que enfeita a silhueta da casa-grande do Guaporé adormecida em seu silêncio centenário. Que cenário maravilhoso!

Houve uma época em que o “Solar dos Antunes”, por concessão de seus herdeiros, serviu para a realização de bailes carnavalescos, recebendo o nome de sobrado Bahia.
Ali se apresentaram os famosos blocos compostos por jovens da melhor sociedade ceará-mirinense que formaram os blocos das “Bahianas”, dirigido por moças da família Gesteira, e as “Havaianas”, comandadas por Cremilda Varela, que em verdadeiro duelo coreográfico desafiaram-se nos salões do velho solar.


Quem for a Ceará-Mirim, não pode deixar de visitá-lo, pois é uma das maiores relíquias do período da aristocracia rural ainda existente.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

O CAFÉ E "SEU" CLETO BRANDÃO –



O centro de irradiação das opiniões da cidade concentrava-se no CAFÉ DE CLETO, local onde a “rapaziada” dos vinte aos oitenta anos, jogava sinuca e bilhar, fazia uma fezinha no Pif-Paf, no pôquer ou na sueca e entre uma coisa e outra, sentava-se na calçada para apreciar o movimento da cidade.
O “café” estava estrategicamente plantado na esquina de uma encruzilhada
 formada pelas ruas Pedro Correia (hoje Heráclio Vilar) e São José (hoje Manoel Varela). Para se ir às usinas – as maiores empregadoras da cidade – à estação, ao posto de saúde, ao cinema, ao dentista, ao “Centro Esportivo e Cultural”, à prefeitura ou à igreja, tinha-se que passar em frente ao estabelecimento.
Logo, quem se desse ao “cansativo” trabalho de ficar sentado numa das cadeiras Gerdau na calçada do café, apenas mantendo os olhos abertos, sabia de toda movimentação da cidade. E o que não ficasse muito claro era objeto de uma interpretação científica, em que os relatores dos fatos, valendo-se do método indutivo-dedutivo disseminado pelos filmes de Charlie Chan, o detetive chinês, chegavam logo a uma conclusão satisfatória.
Na verdade, ali se formavam os precursores dos “paparazzi” (que ao invés das máquinas registravam as cenas com os próprios olhos de retinas fotográficas), dos colunistas de fofocas e dos analistas de informações. Mais uma vez o mundo se inclinava ante Ceará-Mirim, pioneira nas artes malicias & maquinações engendradas pela inteligência para socorrer a necessidade. 
O Café de Cleto era ao mesmo tempo o “Grande Ponto”, o Natal Clube, e o “Diário de Natal” de Ceará-Mirim. Dali partiam as notícias que no dia seguinte fariam a delícia da cidade. As análises políticas, os comentários econômicos sobre as moedas correntes da cidade – a cana, o açúcar e a rapadura; os palpites para o jogo do bicho e as cotações da bolsa de cereais, do gado de corte e do cavalo.
O notável estabelecimento era dividido, hipoteticamente, em três departamentos: o sinuca, o bilhar com o serviço de bar sem bebidas alcoólicas, localizado na dependência principal do prédio; a casa de jogo de baralho, em pequena construção anexa ao prédio principal; o posto de observação com a central de informações funcionava na calçada e tinha o maior número de colaboradores.
A direção geral era aparentemente exercida por Cleto Formiga Brandão, um homem boníssimo que, exatamente pela bondade, não dirigia nada, exceto a parte econômica. O complexo sistema de jogo e comunicação tinha vida própria e nada de regras. Cada um se exercia e fazia a sua parte. “Seu” Cleto, pela autoridade moral, sendo uma figura humana estimada por todos, fazia de conta que mandava e orientava.
De fato, pela sua credibilidade ele era apenas uma espécie de fiador, de avalista. A posição de tolerância que a cidade adotava em certos, digamos, exageros, se dava em consideração a “seu” Cleto, que tinha a meninada sob sua proteção, mais pela fidelidade e constância ao seu negócio, que pela concordância à prática da informação. E por achar que a produção de notícias não prejudicava a ninguém, era uma brincadeira inofensiva. 
Com a visão crítica e amadurecida que tenho hoje, elejo o estabelecimento como um dos mais pitorescos centros de tradição do município, comparável, por exemplo, à estação, ao mercado público, ao “centro” – clube social – e seus congêneres, o Náutico e o Ipiranga, ao “Olheiro”...
Por entender assim, registro e resgato a memória dos que fizeram do Café um lugar de tanta descontração e por que não dizer, de bom humor e alegria, nomeando-os. Os participantes do jogo de baralho (década de cinqüenta): Ari e Murilo Pacheco, Dr. Arino Barreto, coronel Manoel Pinto, João Neto, Vicente Barbosa (pai do ilustre Edgar Barbosa), Waldemar de Sá, Antonio Basílio Ribeiro Dantas, Abel Pereira, Manoel Sobral, Almir Varela, Djalma Correia, Benildes Cavalcanti, entre outros.
O dono do Café, CLETO BRANDÃO, um baiano que bebeu da água do lugar e nunca mais saiu de lá. Inteligente, autodidata pós graduado na escola da vida, conhecia como poucos os ofícios da agricultura e da pecuária. Fora formado para observar a retidão do caráter, a honestidade como regra de vida, não apenas um adorno para as aparências. Era um homem espirituoso e uma companhia agradável. Ninguém o via triste ou queixoso. 
Um homem devotado à sua família, sua verdadeira paixão. Num plano inferior, mas também outra razão de alegria, era a sua fazenda, denominada São José mas conhecida como “Comum”, adquirida do cunhado Epitácio Andrade.
Pai de sete filhos, Lucinha (falecida), Gilberto, Heloísa, Zé, Gracinha, Licinha e Tota, marido de Margarida, filho de um dos mais famosos médicos e boêmios da cidade, o baiano-mor Oscar de Castilho Brandão e da sergipana Isaura Formiga, que vieram com a família aquele paraíso. 
Tenho estreita ligação com a família. Gilberto foi meu colega de internato no colégio Marista. Heloisa é minha colega, competente profissional de direito e amiga de infância. O casal Gracinha e Célio foram meus padrinhos de casamento Licinha, artista plástica reconhecida nacionalmente. Lucinha, a mais velha, fazia parte de outra geração e se casou muito nova, não tivemos um relacionamento mais estreito
Povo bom, trabalhador, gente honesta, confiável e inteligente.
Joguei sinuca com Zé Brandão, que era um craque e Tota, ainda menino, já era uma revelação.
“Seu” Cleto era muito estimado porque tratava a todos como se fosse parte de sua família, principalmente os que trabalhavam para ele. Não era do tipo freqüentador de festas, mas do tipo trabalho-casa-trabalho. Exaltado no seu amor por Ceará-Mirim, criticava duramente aqueles que “fugiam” da cidade e iam residir em outros lugares.
Um dia, Deus o convocou para missões mais importantes. 
Com ele se foi um estilo e um modelo. Seu Cleto é daquelas criaturas produzidas numa forja bem antiga, utilizada para formar homens do seu tempo cuja credibilidade dependia de um atributo que hoje não faz mais nenhuma diferença, mas naquela época era indispensável: O CARÁTER.
Só um portador dessa credencial poderia merecer tanta consideração dos seus conterrâneos adotivos, ao ponto de fazê-los absolver os pecadilhos da rapaziada que vivia sob sua proteção.
Se não deixou um patrimônio material compensador, os seus familiares se tornaram herdeiros de uma fortuna hoje pouco encontradiça: O legado de um homem de bem. 

PEDRO SIMÕES (Pedrinho de doutor Percílio, que tem saudosa memória)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

CASA GRANDE DO GUAPORÉ



Artigo do Acadêmico JOSÉ DE ANCHIETA CAVALCANTI (Cadeira número 11), publicado em “O GALO – Jornal Cultural”, de outubro de 2002 e que levamos até vocês, na íntegra.
Encravada em uma protuberância de um terreno que se elevava em frente à encosta de um monte onde se situa a cidade de Ceará-Mirim em uma distância aproximada de dois quilômetros ergue-se ainda majestosa a Casa Grande do Guaporé diante de um imenso mundo verde entrecortado do límpido “rio azul” e acercada de árvores realmente colossais repleta de vasta folhagem, dando ao ambiente clima verdadeiramente paradisíaco.
O fidalgo Dr. Vicente Inácio Pereira era seu proprietário e, ali, realizaram-se acontecimentos da mais alta importância para a sociedade de Ceará-Mirim.
A Casa Grande do Guaporé, possuidora de amplas salas e corredores, prestava-se, maravilhosamente, para tertúlias e saraus, os quais com certa constância eram ali realizados.
Minha falecida sogra Maria Nazaré Antunes Furtado em conversas familiares falou-me várias vezes de tertúlias ali realizadas, assim como dos saraus com a participação da exímia pianista Dona Augusta Pereira, cujas valsas inesquecíveis interpretadas ao piano enchiam o ambiente das mais ternas melodias.
Que passado glorioso o do velho “Guaporé”!
Além das tertúlias familiares onde eram analisados os mais modernos textos da literatura da época houve um acontecimento da maior importância para aquela casa de engenho que foi a recepção feita a D. José, bispo com sede em Recife, mas que supervisionava as paróquias da Paraíba e do Rio Grande do Norte.
A Casa do Guaporé recebeu com as mais honrosas pompas aquele prelado, quando de sua visita a cidade de Ceará-Mirim, promovendo um lauto almoço para a comitiva visitante chefiada pelo sr. Bispo D. José. Ao almoço estiveram presentes a Exma. Sra. Baronesa de Ceará-Mirim e a Exma. Sra. Dona Isabel, esposa do Dr. Vicente Inácio Pereira e filha da Baronesa.
Comissão de senhoras de fina sociedade local recepcionou o príncipe da Igreja com chuva de pétalas de rosas em meio à beleza do jardim florido sob o espocar de fogos de artifício e ao som da banda de música municipal.
Como que a espreitar toda aquela movimentação, dois galgos de louça branca, quais sentinelas, espreitavam tudo em silêncio.
A Casa Grande do Guaporé viveu, realmente, seus momentos de glória e de fausto, em um período glorioso onde predominou a aristocracia rural.
Porém toda glória tem seu fim e, esse fim vai muito bem retratado nessa frade de Dona Maria Madalena Antunes Pereira:
“Anos depois, entrei pela primeira vez na casa do Guaporé.
Nada mais existia do fausto antigo.
As flores do jardim murcharam como os que lá habitaram.
Apenas os galgos ainda conservavam na fisionomia a ilusão de estar guardando uma riqueza que passou...”.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

EM DEFESA DOS ANIMAIS - PEDRO SIMÕES NETO


"Estou ao lado dos que lutam pela defesa dos animais e da natureza.
Mas, como sempre faço, pauto a minha atuação pelo equilíbrio, sem exageros, nem fanatismos. Meu pai me dizia que o equilíbrio estava no meio e o que ofendia a saúde física e mental era o abuso, nunca o uso.
Amo os animais, especialmente os cachorros, os pássaros, as lagartixas (não tenho explicação para esta última afeição) e os vegetais, em particular as flores. Até onde posso intervir, não permito nenhum saque à natureza. Respeito as rocambolescas investidas do Green Peace em favor das baleias e contra a matança dos animais em geral, das Ongs que recolhem animais abandonados, cuidam das espécies em extinção e montam casas de recuperação para tratar dos bichos feridos. Dedico sincera admiração por aqueles que chegam às lágrimas diante de cenários dramáticos de extinção em massa de algumas espécies e dos que põem em risco a própria vida na defesa desses ideais.
Até concordo com a destinação das reservas ambientais nas áreas potencialmente dedicadas à agricultura e, especialmente, à agricultura de subsistência, embora acredite que o planeta é o habitat do ser humano e que, à parte o exagero ou o abuso, só cumprirá essa função na medida em que é sua serventia.
Afinal, em última análise, não é somente a consciência preservacionista ou o instinto de sobrevivência que nos impele à militância ecológica, é o compromisso que temos com os nossos descendentes de instituir o legado de um mundo defeso do caos.
Mas, creio, no recôndito da minha consciência, que a espécie mais ameaçada é a humana. Porque, desgraçadamente, somos antropófagos. No topo da cadeia alimentar, entretanto, somos dizimados pelos semelhantes. Entredevoramo-nos. Por isso, questiono-me porque não salvamos a espécie sujeita à nossa própria sanha? Precisa de alguma justificativa moral mais vigorosa que a prevenção ao extermínio patrocinado por nós mesmos?
Então? Por que não recolhemos as crianças abandonadas, atiradas nas ruas à própria sorte, porque não alimentamos os que vão morrer de fome porque estão abaixo da linha da pobreza, cuidamos dos que vão a óbito porque não têm assistência médica ou vivem ao relento, sem um teto para morar, os desempregados que morrem de vergonha pela dignidade que lhes foi negada...será que é mais difícil lutar pelos semelhantes?
É possível que haja certa dificuldade em ampará-los, porque, diferentemente dos animais, os seres dessa espécie pensam, reagem, emitem valores às vezes não condizentes com os nossos, ou porque são independentes e valem-se do seu próprio arbítrio. Ao invés, os animais são tão submissos na sua irracionalidade, tão devotados a nós pela sua fidelidade incondicional, tão subservientes aos nossos humores... Já houve quem me mandasse um PPS amostrando as vantagens de se adotar um cãozinho ao invés de decidir-se pelo casamento, exatamente pela máxima sujeição do animal em contraposição à rebeldia das mulheres.
Devemos dotar-nos de uma consciência humanística, e não somente a ecológica. Aprendendo a conhecer, respeitar e conviver com as diferenças existentes entre nós. Exercitar a tolerância e um sincero sentimento de fraternidade. Não temer ficar em “off” em relação aos modismos. É..., porque há quem pense que o humanismo é coisa do passado, é criação ideal dos pensadores medievais, coisa da igreja do Betinho e do Boff, remodelada do Jacques Maritain... uma doença do “esquerdismo” que teima em sobreviver ao maremoto neo-liberal.
Vamos resistir a essas (perdoem-me a expressão) idiossincrasias porque a proposta humanística é boa e tem tudo a ver com a febre salvacionista do planeta defendida pelos ambientalistas.
Comecemos pela adoção de uma nova vertente na temática dos direitos humanos - o estatuto psicossocial das vítimas, a consideração de uma vitimologia, tal como fazemos com os animais, dando precedência às vítimas em confronto com os seus predadores. Por que estar sempre atento à defesa dos direitos dos agressores, sem qualquer consideração aos direitos das vítimas?
Sejam quais forem os transgressores - bandidos, policiais, maridos que agridem as esposas, pais que maltratam e matam os filhos - eles escolheram o seu lado no contexto sócio-humanitário, exatamente à margem da sociedade, e por isso são propriamente denominados marginais. Reconhecê-los como sujeitos de direitos é uma coisa, outra é elegê-los como se fossem eles os agredidos, negligenciando ou subalternizando as verdadeiras vítimas.
Mantendo o foco e guardando as proporções, confundir os extremos seria o mesmo que premiar aquele que executa um animal de estimação, ou o submete a maus tratos, ou o abandona.
(Bem a propósito, só para esclarecer, evitando que se cometa equívocos, o dicionário eletrônico Houaiss, no verbete “vítima”, define-a como sendo: “pessoa ferida, violentada, torturada, assassinada ou executada por outra”, ou, “pessoa que é sujeita a opressão, maus-tratos, arbitrariedades”.)
Perdoem-me os sociólogos, antropólogos, cientistas sociais e economistas, mas cansei-me da tese que nos coloca permanentemente em estado de culpa - aquela que denuncia a sociedade como responsável pela gênese das transgressões. Seria então a injustiça social a criadora dos Frankensteins. Mas, meu Deus do céu, onde há justiça social neste planeta, e se houver um simulacro desse modelo, digam-me se nesse paraíso a criminalidade é inexistente?
Cansei-me também daquela desculpa amarela, que nos é conveniente, segundo a qual cabe aos governos cuidar dos necessitados. Bullshit. Nós somos o governo. Nós somos responsáveis pela tessitura humana semelhante à nossa. Então, façamos a nossa parte, como os defensores da ecologia que não aguardam e não requisitam os governos.
O ser humano é predador por natureza. Foi o processo civilizatório que reprimiu esse instinto, a partir do despertar de um procedimento racional. Mas, dentro de nós mesmos, habita um animal que, feito certas doenças, mantém-se em estado latente, aguardando um momento para se manifestar.
Vamos agir com os humanos como o fazemos em relação aos animais. Avançando, afoitos, contra os predadores, agindo sem preconceitos.
Alguém já discriminou um animal por sua cor – branca, preta, amarela, parda? Por ser macho ou fêmea?
Observe-se que a legislação ambiental é mais severa com os detratores do meio-ambiente que a ordenação criminal com os homicidas, seqüestradores, estupradores, pedófilos e traficantes de drogas.
Essa constatação trouxe-me à memória um episódio ocorrido em pleno Estado Novo. Quando Luiz Carlos Prestes amargava as mais cruéis torturas, confinado a um dos porões da ditadura, o advogado Sobral Pinto, sem alternativas para a defesa do seu cliente, por verificar que os seus pedidos de habeas corpus de nada adiantavam, com a suspensão do Estado de Direito, em desespero, decidiu invocar a Lei de Proteção aos Animais para preservar a incolumidade física do seu maltratado constituinte.
Vamos “adotar” as crianças sem lar, famintas, desamparadas, dedicadas aprendizes da escola do vício e do crime; apoiar o assistencialismo, sim! Por que deixar de dar um pedaço de pão, um copo d´água ou a ajuda financeira para a compra de um remédio aos esmoleres que tanto se curvam à humilhação da mendicância para sobreviverem? Será que aqueles que são implacáveis com os pedintes, chamando-os de vagabundos ou lhes acenando, por pura provocação um serviço doméstico que não tem a intenção de oferecer, fazem o mesmo com os animais abandonados, negam comida e socorro aos gatinhos e cachorros desgarrados, aos peixinhos do aquário?
Que tese “desenvolvimentista” pode prosperar às custas da inanição, e muitas vezes da morte dos necessitados que buscam um socorro imediato para a sua emergência? E, se a morte é anunciada, como a do personagem de Garcia Márquez, por inevitável fatalidade, argumento usado como desculpa útil para os que entendem a inutilidade do apoio, então que ao menos seja adiada. Um dia a mais fará muita diferença para quem não quer morrer.
Recorro sempre a um episódio relatado por Helena, mulher do notável pensador humanista e escritor grego (Cretense) Nikos Kazantzakis, que, em fase terminal de uma leucemia agressiva e impiedosa, teria dito que gostaria de se postar diante de uma imponente catedral para poder esmolar dos transeuntes e fiéis, um minuto de suas vidas, para que tivesse tempo suficiente para concluir a sua obra.
Pedro Simões (Professor de Direito aposentado. Advogado. Escritor. Cristão e Humanista, principalmente)"


Esta foto é da sua cadela Dara, uma akita que morreu no mesmo dia em que ele partiu, a 01/02/2013.

sábado, 27 de dezembro de 2014

NEM LAMPIÃO


Publicado em O JORNAL DE HOJE na coluna Cena Urbana - Jornalista Vicente Serejo




   O que seria mais estapafúrdio para o bravo povo mossoroense se lá chegasse um governador e, de repente, profanasse a catedral de S. Luzia, implodisse o monumento de bronze a Dix-Sept Rosado, degolasse a estátua de Dorian Jorge Freire, ferisse a memória de Jaime Hipólito, duas de suas maiores inteligências, e desrespeitasse o túmulo de Vingt Rosado, no chão sagrado da sua Escola Superior de Agricultura que construiu com as próprias mãos? Certamente, e com razão, seria morto e esconjurado.

            Pois é como se fosse assim, uma estupidez sem limite e intolerável, a decisão da governadora de Mossoró ao fechar a Escola Estadual Manoel Dantas, ali na esquina da Rua Alberto Maranhão com a Av. Prudente de Morais. Pior: a escola foi despejada com aviso ilegal e desrespeitoso que de forma acintosa, ontem de manhã, deu o prazo de cinco dias para ser instalada uma repartição policial numa aula de horror, afinal só um governo celerado tem a coragem de fechar uma escola sem justificativas. 

            A governadora de Mossoró não conhece a nossa história. Não sabe que aquele terreno um dia foi doado para ser a Escola Manoel Dantas, um dos maiores nomes da histórica política e intelectual do Rio Grande do Norte, profeta da cidade, um dos patronos da Academia Norte-Riograndense de Letras e do Instituto Histórico, nome de rua, pioneiro no estudo da história do Rio Grande do Norte e seus municípios, um homem além do seu tempo a registrar a vida e a evolução urbana da sua cidade Natal.

            O governo de Mossoró primeiro tentou vender o Juvenal Lamartine, como se fosse dono do seu destino e de um patrimônio público. Depois, achou pouco, e decidiu que podia vender o Aero Clube e seu chão histórico. Agora, ao apagar dos últimos dias para encerrar o mandato, escolhe um triste fim despejando a Escola Manoel Dantas, depois de abandoná-la por quatro anos. E tudo diante do silêncio das instituições culturais e seus antolhos, apesar de todos os avisos e alertas, inclusive desta coluna.

            E o que diz o famigerado aviso? Simplesmente que a diretora da Escola, sem citar nome, deve seguir ‘os trâmites a fim de garantir a desocupação’ do prédio onde funciona a Escola Estadual Manoel Dantas, localizada nesta capital. E continua: ‘A data agendada é 15 de dezembro’. E ainda acrescenta no seu acinte que deve ser ‘providenciado’ a lista contendo todos os seus equipamentos. E mais uma vez sem citar quem decidiu e quem ordena o abuso, pede as chaves para entregá-las ‘aos cessionários’.

O mais estranho vem agora: quem assina não é a governadora Rosalba Ciarlini ou a secretária da educação, professora Betânia Ramalho. Nem mesmo a chefe de gabinete, Yraguacy Araújo Almeida de Souza. É Maria José Azevedo Abrantes, a quem foi destinada a terrível missão de por sua assinatura no aviso fúnebre que fecha uma escola e desrespeita a memória do grande Manoel Dantas. Nunca um governo foi tão desastroso com nossa história. Quem teria coragem de tanta estupidez? Nem Lampião.


sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.


         O ano de 2014 está por ser encerrando. Para nós que compomos a diretoria do Instituto Histórico e Geográfico do RN, consideramos que esse foi um ano bastante profícuo em virtude da realização de inúmeras obras que foram projetadas para este exercício.

         Infelizmente, não conseguimos realizar todos os serviços e aquisições que pretendíamos, simplesmente porque os recursos que estavam destinados para nossa Instituição, através de emendas parlamentares estadual e federal, apenas 20% do montante, ou seja, R$ 200.000,00 (duzentos mil reais) foram efetivamente liberados em duas parcelas de R$ 100.000,00 (cem mil reais).

         Com pouco dinheiro para realizar tantos sonhos, fomos obrigados a eleger prioridades. Arregaçamos as mangas e partirmos para a luta. Iniciamos com a mudança do piso do auditório que havia afundado e estava com vários de seus ladrilhos danificados em virtude do desnivelamento, como também de inúmeras camadas de cola utilizadas quando das substituições do carpete, material impróprio para o local, mas que disfarçava e escondia a situação precária do piso. O mesmo fato ocorreu com hall de entrada, como também em outras duas salas do imóvel onde foi utilizado paviflex, um revestimento sintético,  para cobrir os ladrilhos danificados.
         Tanto no hall de entrada, como no Salão Nobre, foi colocado um piso de madeira que alterna peças de ipê e amarelo cetim, numa paginação de excelente bom gosto, idealizado pela arquiteta Alenuska Lucena. Parte do piso do referido Salão, composto por ladrilhos hidráulicos Palatinik (não original), ali colocados por volta dos anos 50, está exposto em um quadro de 1,50x1,0 metros, na parede do Instituto com acesso pelo Largo Vicente de Lemos. Quanto ao hall de entrada, a exposição dos ladrilhos ali existentes foram assentados no centro do hall numa área de 1,60x1,60, usando-se a mesma paginação e o mesmo tipo de madeira.

         No Salão Nobre colocamos cortinas novas em três paredes e recuperamos os móveis existentes, birôs, púlpito, consolos, estantes e seis cadeiras que compunham a mesa diretora, algumas delas já fazendo parte de material sem serventia, e sem qualquer condições de uso. Quanto às seis cadeiras já referidas, a recuperação foi elaborada por profissional de comprovada competência, inclusive, fazendo devolver às centenárias cadeiras, o mesmo material com que havia sido confeccionado, ou seja, assento e encosto de couro animal.


        Adquirimos 80 poltronas acolchoadas e escamoteadas, próprias para auditório, sendo 10 para canhotos e cinco para obesos, de acordo com a legislação vigente.

        No prédio principal recuperamos o telhado e o sistema de drenagem de água de chuvas que vinha causando infiltrações. Recuperamos, também, o sistema elétrico, hidráulico e hidrossanitário. Refizemos todo o lavabo com mudança do piso, revestimento das paredes, mudança das peças sanitárias, ferragens iluminação e porta. Pintura total do prédio principal inclusive portas, janelas e grades externas. Recuperação de inúmeras janelas e portais danificados pela ação dos cupins. Colocação de três conjuntos de portas duplas de vidros com molas automáticas para dar condição de climatização ao auditório, salas de pesquisas, e hall de entrada. Instalação de dois aparelhos de ar condicionado com capacidade de 60 e 50 mil BTUs respectivamente, estes doados pelo SEBRAE, na pessoa do seu presidente José Ferreira de Melo, e adquirimos mais outro aparelho splint que foi instalado na antiga sala da presidência, que sofreu reforma para ser utilizada por estagiários, inicialmente para a catalogação do acervo e posterior digitalização.

         Adquirimos e instalamos dois sistemas de segurança com 11 câmaras, sendo sete no prédio principal e quatro no prédio anexo (Memorial Oriano de Almeida), local de trabalho da Diretoria, com monitoramento à distância, e mais 25 sensores de presença, distribuídos nos dois prédios e no Largo Vicente de Lemos.

        Instalamos um sistema de irrigação automatizado para os jardins localizados no referido Largo. Tanto os jardins como a iluminação natalina foram elaborados pela Prefeitura Municipal do Natal, através da SENSUR, por solicitação ao secretário Ranieri Barbosa, inegavelmente um grande parceiro, sempre se mostrando sensível às nossas reivindicações.
  
       Com a SEMOB, através de sua titular, Dra. Elequicina Santos, a demarcação de espaço em frente ao prédio principal, para embarque e desembarque de pessoas que visitantes e pesquisam o acervo do IHGRN, evitando-se, assim, acidentes indesejáveis.

Recentemente ocorreu o coroamento do nosso esforço quando no último dia 10 de dezembro, os jardins do Largo Vicente de Lemos, em bonita noite de festa, recebeu autoridades e amigos do confrade e secretário geral do IHGRN, escritor Carlos Roberto de Miranda Gomes, que autografou centenas de livros de sua autoria denominado “O MENINO DO POEMA DE CONCRETO”. Este livro foi escrito em homenagem ao seu irmão mais velho, o consagrado arquiteto e urbanista Moacyr Gomes da Costa, consolidando, assim, a utilização do espaço totalmente recuperado, sendo considerado pelos presentes como um dos melhores e mais bonitos da cidade para eventos dessa natureza.

         A liberação do restante das verbas que foram destinadas no valor de R$ 230.000,00 (duzentos e trinta mil reais), dependiam, apenas, de autorização governamental, o que não ocorreu. Aliás, isso é rotineiro, quando está em evidência a valorização da cultura, fato que é comum aos governantes em todos os níveis administrativos, com raríssimas exceções.
         Esses recursos serviriam, ainda, para a construção de outro lavabo destinado a pessoas do sexo feminino, já que a legislação vigente exige que em prédios públicos sejam dotados de lavabos para ambos os sexos. Além disso, havia necessidade da recuperação do piso de duas salas atualmente cobertas com paviflex, como também da aquisição de diversos materiais necessários ao bom funcionamento da Instituição.

         O acervo, razão maior da existência do IHGRN, continua em péssimo estado de conservação. Grande parte do material, de inestimável valor histórico, pela falta de manutenção e de acondicionamento, já está em fase de degradação, e alguns, infelizmente irrecuperáveis. Até o momento não foi possível organizar de forma adequada o referido acervo. A digitalização, única maneira de salvar o que ainda é possível, juntamente com a recuperação e restauração de documento e obras, alguns raras, carece de recursos. Não poderemos pensar em digitalização do acervo, sem a aquisição de no mínimo três scannres. O nosso projeto de emenda parlamentar federal estipulada no valor de R$ 550.000,00 (quinhentos e cinquenta mil reais) contempla os referidos scanners, ao custo total de R$ 300.000,00 (trezentos mil reais). O restante se destinaria à aquisição de estantes deslizantes, próprias para acondicionar, com dignidade, o valioso acervo, pois na Instituição há carência de espaço. Atualmente, a maior parte do acervo se encontra entulhado em estantes inadequadas ou em cima de cadeiras velhas encostadas nas paredes. 

         Até quando os poderes constituídos e a sociedade vai permitir que a “Casa da Memória” continue com seu acervo nessa vergonhosa situação de penúria? Já provamos que podemos e sabemos administrar essa secular Instituição. O valor que conseguimos liberar para realizar todas as obras aqui descritas, parcos duzentos mil reais, foram arrancados quase a fórceps e de forma fatiada.


        Por fim, registramos nossos agradecimentos a todos aqueles que de maneira desprendida e altaneira, nos ajudaram com doações de equipamentos e, principalmente, com palavras de incentivo. Aos derrotistas e aos que se escondem atrás de denúncias anônimas, aos oportunistas que julgam sem conhecimento de causa e aos que apostam no insucesso, também agradecemos, pois, essas atitudes mesquinhas impulsionaram a Diretoria a cumprir a nobre missão, de forma prazerosa e voluntária.