quinta-feira, 21 de maio de 2015

MITOLOGIA DO VALE DE CEARÁ-MIRIM: A ESTÓRIA DA BOTIJA NO ENGENHO SÃO PEDRO TIMBÓ


No nordeste (dizem...), os holandeses, jesuítas ou ricos fazendeiros, deixavam escondidas verdadeiras riquezas, que ficavam enterradas no chão, em paredes de taperas, em mourões de porteiras ou nas proximidades de grandes árvores, até que um dia, através de sonho, mostrava-se a um escolhido, o local exato onde estava aquele tesouro. No sonho era informado como se comportar para a retirada da “Botija. Sempre à noite e sem acompanhantes. Quem não cumprisse as determinações, não receberia o tesouro. E, com a fortuna nas mãos, a pessoa deveria se mudar para um lugar distante, caso contrário, não desfrutaria da riquezas.
O Ceará-Mirim também teve as suas “botijas”. Muito se ouviu falar das riquezas obtidas por esse meio, embora tudo estivesse no campo do “boato”. Hoje, finalmente, a Acadêmica Ceiça Cruz apresenta um desses casos, por ela vivenciado. 

MITOLOGIA DO VALE DE CEARÁ-MIRIM: 
A ESTÓRIA DA BOTIJA NO ENGENHO SÃO PEDRO TIMBÓ

Maria da Conceição Cruz Spineli, ocupante da Cadeira 19 da ACLA

Em Dicionário do Folclore Brasileiro, pág. 681, Câmara Cascudo afirma que tesouro significa “dinheiro enterrado, o mesmo que botija para o sertão do Nordeste, ouro em moedas, barras de ouro ou de prata, deixadas pelo holandês ou escondidos pelos ricos, no milenar e universal costume de evitar o furto ou o ladrão de casa, de quem ninguém evita”.
Ainda no mesmo verbete, Câmara Cascudo diz que “os tesouros dados pelas almas do outro mundo dependiam de condições, missas, orações, satisfação de dívidas e obediência a um certo número de regras indispensáveis, trabalhar de noite, ir sozinho, em silêncio, identificar o tesouro pelos sinais sucessivamente deparados [...]. O tesouro é encontrado unicamente por quem o recebeu em sonhos [...]. Se faltar alguma disposição, erro no processo extrativo, o tesouro transformar-se-á em carvão.”

Lá pelo Timbó também encontramos estórias de tesouros enterrados, de minas, botijas. O assunto era para adultos, mas as crianças curiosas escutavam. Falava-se em sussurros as coisas do além, do sobrenatural, de almas penadas querendo livrar-se do fardo da mina enterrada de que nada lhes servia no outro mundo. Geralmente o pedido da alma penada vinha sob a forma de sonho. 

No Engenho Timbó, um homem e uma mulher tiveram um sonho idêntico, na mesma noite, e logo cedo os dois confabulavam a experiência e se arvoraram na empreitada. A mulher me contou, anos depois, detalhes do sonho: que era um homem alvo e bonito, vestido com rica indumentária (inclusive me falava de abotoaduras douradas em sua roupa e nas botas), cortês e educado, e que lhe indicava a existência de um tesouro enterrado debaixo da tamarineira que ficava no meio do curral dos burros, no Timbó de Dentro. O homem do sonho era bem didático, riscando o chão com um graveto, para explicar-lhe com muita clareza o local exato onde enterrara o tesouro. 
Ela deveria sair de casa ainda escuro da madrugada, ele insistia que fosse cedo, antes do sol nascer. Que fossem só ela e o senhor que tivera o mesmo sonho, que fizessem orações no percurso e durante toda a operação, que levassem água benta e não portassem objetos cortantes, pontiagudos ou armas de fogo. No sonho, ele ficava de cócoras, mexia na terra com as mãos dizendo que a terra onde estava enterrado o tesouro era bem fofinha, que ela não teria dificuldades em encontrá-lo, que o sinal era uma bola de ouro que estaria amarrada a uma corrente, também de ouro, fechando a tranca de um caixão comprido.
Durante o sonho, enquanto conversava com o senhor bem trajado, aparecia uma mulher, maltrapilha, os poucos cabelos ralos desalinhados pelo vento. Ela parecia estar suspensa do chão. A figura acanhada não falava, só olhava com olhar vago e mortiço o senhor que dava detalhes de como proceder para a retirada da mina. Dessa figura, a mulher que me contou o sonho tinha medo, muito medo.
Depois de muito conversarem, resolveram sair em busca do local onde estava a mina. De cara, contrariaram quase todas as regras impostas pela alma penada doadora do tesouro. Saíram com o sol alto, levaram um grupo grande de pessoas com pá, enxada, até gente com arma de fogo na cintura. Eu acho que eles tinham medo de saírem ainda escuro e só os dois.
Começaram a retirada do tesouro, o homem mandava os trabalhadores cavarem com a enxada e a pá, e a mulher pedia que só usassem as mãos como lhe ensinara o doador da mina, no sonho; assim o fizeram. Na busca, começaram a ver a bola de ouro, o sinal anunciado no sonho, quando surgiu um enorme cachorro com os olhos de fogo e um dos trabalhadores que cavava o chão gritou: “ô cachorro da mulesta!”; o cachorro saiu em disparada e o local em que já aparecera a bola de ouro virou um imenso formigueiro.
A frustração da mal sucedida empreitada ainda persiste após muitas décadas. Conta-se que poucos dias após o ocorrido, um trabalhador com serviço alugado em tempo da safra da cana, e que se hospedava na casa grande do Zumba, no Timbó de Dentro, havia tirado essa mina nas caladas da noite. Esse homem desapareceu do engenho misteriosamente. No local onde estava enterrada a botija, só um grande buraco.


quarta-feira, 20 de maio de 2015

BARTOLOMEU CORREIA DE MELO




                 BARTOLOMEU CORREIA DE MELO 


Intelectual de primeira grandeza, foi um dos integrantes da equipe que idealizou a criação da ACLA. Depois, com o agravamento da sua saúde, desistiu de integrar a Academia, sob o pretexto de que “estava mais para Patrono do que para Acadêmico”, e a pilhéria, tristemente, tornou-se realidade. É o patrono da Cadeira número 25, ocupada pelo Acadêmico Ormuz Barbalho Simon
etti.
Bartolomeu Correia de Melo era cearamirinense por adoção. Amava tanto a terra dos canaviais, onde passou a melhor parte de sua infância, que a ela dedicou a sua literatura. Começou a escrever já maduro – com mais de cinquenta anos. Durante todo esse tempo, amadureceu a sua prosa e o vinho, doce que nem o mel de engenho, da devoção à sua cidade. 

Escreveu dois livros de contos, Tempo de Estórias e Lugar de Estórias em que o cenário é uma recriação do Ceará-Mirim de sua juventude, tornado imemorial pelas características universais e pela temática, atual ainda hoje. E os personagens são os tipos que povoaram aquela época, ora rebatizados e temperados com uma pitada deliciosa de ficção, onde o humor, as pequenas-grandes tragédias dos homens e mulheres do povo e os seus hábitos, são exibidos com invejável maestria. 

Além de uma prosa aliciadora, dessas que deixam saudade quando termina e que nos socorre da solidão, ele criou uma linguagem recolhida da fala do seu povo. Uma espécie de dialeto que os cearamirinenses e todos os que viveram à margem dos canaviais e dos engenhos de açúcar, entendem. Bartolomeu é criativo e original, tanto na tessitura das suas estórias, quanto no poder comunicativo da sua linguagem.

O escritor de “Tempo de Estórias” pode ser lembrado como um dos reinventores da “Escola de Ceará-Mirim” que, contemporaneamente apresenta expressões literárias como Franklin Jorge, Inácio Magalhães de Senna e Pedro Simões, entre outros, responsáveis pela recorrente busca de sua terra e pela criação de uma linguagem inserida neste contexto memorial.
O livro "Musa Cafusa" foi publicado após a sua morte.

TEOREMA
Passa da conta. A nossa tabuada
resulta um teorema esquisito:
"Eu mais você somados somos um,
pois, eu menos você, não resta nada,
num vazio de adeus quase irrestrito."
Nós anulados, sem fator comum,
somos inequação desesperada,
binômio sem afago nem afeto.
Pelo " princípio do pudor nenhum",
gemendo imprecisões, recalculamos
a tangente raiz do nosso grito;
teimando soluções, multiplicamos
razões pra dividir nosso infinito...
E assim, a divergir, nos igualamos,
nesse amor inexato, mas bonito.


sexta-feira, 15 de maio de 2015

ISAUTINA DO OUTRO LADO DO CAMINHO

Hoje é o dia do ASSISTENTE SOCIAL e, por esse motivo, a ACLA reverencia esta categoria, na homenagem que faz a "dona Isautina", que prestou belos serviços ao nosso município.

 A foto que ilustra o artigo é um óleo sobre tela da nossa artista Maria Alice Brandao



Trecho do artigo encontrado no livro "A Intriga do Bem", de Pedro Simões Neto, pags. 141/150. Natal 2010.

Estou novamente diante de uma folha virgem, que me pede para ser violada. Mas a libido escrevinhadora está reprimida pela emoção, um sentimento arrebatador, transcendente, traduzido numa palavra que é somente nossa, duplamente nossa, os de língua brasílica e os que a experimentam em solidão: saudade. (...)

entei inúmeras vezes transpor para o papel um relato sobre a ausência de Isautina, a minha sogra, amiga solidária e sempre presente, mas não pude. Não sabia por onde começar, nem como refrear essa caudalosa torrente de lembranças e de afetos que nos leva para muito distante da margem de onde melhor poderíamos apreciar os horizontes a que nos propomos desvendar.
Mastigava as fibras, os nervos e os músculos cozidos no sal e no fel do sofrimento, para transferi-los amaciados para os que a consolavam.
Via-a chorar apenas duas vezes e nunca mais desejei vê-la assim. Era uma explosão de dor comprimida, uma expressão magoada de desespero antigo sempre recorrente. Um grito gemido, se é que me entendem. Como o silvo de uma chaleira de água fervente, resultante de uma pressão muito poderosa reprimida sob controle. (...)

É evidente que deve ter chorado muitas vezes sozinha, quando podia dar vazão, sem constrangimento, à sua tristeza que vinha de muito longe, coisa muito antiga e peregrina.
De alegria, lembro-me que chorou quando a filha casou-se comigo. E quando vieram os netos. (...)

A alegria era o seu chão. Mercadejava sempre que podia numa feira de trocas, em que a tristeza era moeda corrente para a compra do riso fácil e do desfrute da bem-aventurança da alegria. Feliz não era, mas fazia força para arrancar de dentro de si as raízes da tristeza anciã e andeja, como já foi dito.
Gostava de serestas puxadas a cerveja. Amava a vida. Era generosa e conselheira. Tomava a si os problemas dos amigos e também dos quase amigos e, mesmo sem ter sido convocada, distribuía conselhos e “carões”. Não tinha papas na língua. Na hora de dizer verdades não poupava ninguém, nem mesmo os superiores nem as autoridades em geral. Era uma dessas paraibanas do brejo, retas, transparentes, diretas, solícitas, mas arrelientas, que dão um pão para não entrar numa briga, mas, se provocadas, não saem nem com a oferta de uma padaria.
Respeitava as pessoas e se fazia respeitar por elas. Principalmente pelos homens – que eles não se metessem a besta que ela lhes punha no lugar. Era mulher valente, de pelo na venta. Havia sido Delegada da Mulher e daí em diante, responsável pela coordenação do Juizado da Infância e da adolescência da comarca de Ceará-Mirim. (...)

Nesse trabalho, sempre contou com o apoio decidido da Juíza responsável pela vara especializada e pelos delegados da cidade.
Era um ser humano transitório, como as flores que só desabrocham em épocas determinadas. Nossa sorte é que ela era mais de uma dezena de espécies e por isso estava sempre florescendo. (...)
A menina cresceu num lar tranquilo, com pai adotivo severo, estudou no Colégio das Neves e no Atheneu. E concluído o curso secundário foi levada pelo “padrinho” a alfabetizar os recrutas do então 16º Regimento de Infantaria, na Salgado Filho, onde o pai adotiva servia. (...)
Casou-se com o ordenança, que dera baixa do quartel e agora era caminhoneiro, e foi viver em Mossoró. O marido tinha um espírito aventureiro, não conseguia esquentar lugar. Foi comerciante, dono de frigorífico, motorista particular e assentou-se mesmo havia começado, como caminhoneiro, piloto de sua própria liberdade.

Os filhos foram nascendo: um, dois, três, quatro bocas para alimentar. (...) Decidiu que iria para a Universidade. E foi. Graduou-se em Serviço Social e passou num concurso do estado, para lotar-se em Ceará-Mirim. (...)
Impôs-se pelo trabalho, dedicação e competência. Recebeu seguidas promoções e preitos de reconhecimento profissional.
O coração era o seu órgão de choque, a caixa de ressonância dos seus embates com as desventuras que o mundo lhe impunha. Os filhos a censuravam por não cuidar-se e era mesmo que nada. O trabalho era sempre mais importante – embora fosse refúgio para não perder o juízo com tantos desencontros. Achava-se forte e portanto capaz de “tirar de letra” qualquer dificuldade. Deus a proveria, a sua fé a manteria sempre protegida.

Certa madrugada sentiu fortes dores no coração e foi levada ao hospital Dr. Percílio. O médico que a atendeu, em face da gravidade do seu estado, recomendou-lhe que viesse a Natal. Providenciou uma ambulância e a conduzimos ao Hospital Antonio Prudente, único autorizado pelo seu plano de saúde, Hapvida. (...)

O clínico que a atendeu, fez a recomendação de encaminhamento à UTI e a possibilidade de intervenção cirúrgica. (...) Em seguida, que a recomendação do clinico não poderia ser atendida, porque não havia provisão no seu contrato. E havia. Mesmo que não houvesse, a lei determinava o atendimento em caráter compulsório, em situações semelhantes, porque ela corria risco de vida. (...) Finalmente, desesperados, requisitamos uma UTI móvel da SAMU e, depois de procedimentos burocráticos, a dita ambulância e a respectiva equipe chegaram ela foi transportada ao Hospital do Coração, onde foi conveniente e competentemente tratada, submetendo-se a duas cirurgias que, no entanto, dado ao agravamento do seu estado de saúde em razão da demora na tomada de providências, veio de falecer. Morreu por negligência e omissão criminosa. 

Entre a indignação, a raiva e o sentimento de perda, prevaleceu a saudade, o sentimento de havermos sofrido a amputação de parte de nós, uma mutilação que nos deformou e cuja marca não pode ser enxertada. Uma cicatriz indelével, uma fratura exposta que nos denuncia sempre a origem: a falta do sorriso brejeiro de Isautina, do seu andar arrastado de quem padece de “esporões” nos pés, a voz roufenha pelo vício do cigarro, os vestidos de estamparias alegres, a maquiagem caprichosa, as suas mãos de fada no preparo das refeições triviais e extraordinárias, os seus resmungos cavilosos e os “carões” desconcertantes, mas tolerados.

Ficou-me uma última imagem, de uma foto tirada no São Pedro de 2008, dois meses antes de sua morte. Ela encarou a máquina com um sorriso meio debochado, cheio de brejeirice, que acentuou a falha nos dentes frontais mais expostos – uma marca pessoal. Trajava um vestido de florzinhas roceiras, bem a propósito da festa, e uma flor vermelha (uma papoula?) presa nos cabelos. A maquiagem lembrava a pintura das roceiras de antigamente.

Quando conclui a fotografia, disse-lhe que estava parecendo uma donzela do pastoril. Ela olhou-me, zombeteira e provocadora, dizendo o seu bordão preferido:
- Você gosta de mexer, não é? Macaco não olha pro rabo... (...)



quinta-feira, 7 de maio de 2015

ACERCA DA TERRA DOS MEUS


Discurso de posse na Academia Cearamirinense de Letras e Artes Pedro Simões Neto - ACLA, pronunciado em 05 de maio de 2015, na Estação das Artes, Ceará-Mirim/RN, por GUSTAVO LEITE SOBRAL, ocupante da Cadeira 20, Patrono Francisco de Sales Meira e Sá



Machado de Assis, doce de coco; Pedro II, doce de figo; Rui Barbosa, doce de batata; Raquel de Queiroz, cocada; Graciliano Ramos, doce de laranja cristalizado; e Guimarães Rosa, doce de laranja da terra, e com uma ressalva, caseiro – eis a lista de preferência dos doces, levantada por Gilberto Freyre, que declara em Açúcar , o açúcar preferência nacional. É ainda Gilberto Freyre quem aponta que, vinda da ilha da Madeira, começa a tão antiga história da cana-de-açúcar no Brasil. Cascudo anota que no Rio Grande do Norte tudo partiu de Porto Mirim e Muriú, chegando primeiro ao vale do rio Ceará-Mirim a criação de gado e a notícia que ali se poderia fazer engenhos de açúcar. “Foi na embocadura do Baquipe, ou rio Pequeno (depois Ceará-Mirim), escreve Gilberto Osório, que os filhos de João de Barros [donatário da Capitania Hereditária do Rio Grande], vindos do Maranhão após a morte do parceiro do pai, Aires da Cunha [também donatário da mesma capitania], encontraram os franceses mancomunados com a indiada no comércio clandestino de pau-brasil. Isso aconteceu ai por 1535 ou 1536: antes, portanto de fundar-se a cidade do Natal” .

Mas não se fizeram os engenhos. O rio Ceará-Mirim, irregular, não chegava a constituir correnteza necessária para mover os engenhos d´água. E assim dormiu o vale até 1845, quando implantam a primeira moenda movida à força animal, e nasceu então o primeiro engenho. Desperta a briosa vila do Ceará-Mirim, e começa a história de seus engenhos, seus bueiros e seus senhores. Vale em que, escreve Nilo Pereira, “surgiu com o ciclo da cana de açúcar a família única dos senhores de engenho – única pelos sentimentos, pela afeição à terra, pela grandeza do trabalho, pelas raízes morais e emocionais” . Um mundo. E neste mundo cabe, como nos versos do poeta Paulo de Tarso Correia Melo ,
Neste mundo cabe
passado, futuro
e fantasia
sonho, memória
e profecia
neste mundo
cabe a vida e a morte
o ser, o devir
e o poderia

Foi quando chegou o tempo. E aquele homem de barba branca previu em sonho, que morto seria conduzido pelos trabalhadores do seu engenho, e de outra maneira não teria sido. O cortejo seguiu pelo vale até o cemitério de Ceará-Mirim, onde está sepultado. Olhos azuis, leitor de A Republica, membro do partido popular, filho de um português imigrante. Terno, bengala, mancava de uma perna e possuía um cavalo baixeiro em que ainda montava. O trole reservava para longas viagens. Uma delas foi para comprar as ferragens de seu engenho. Já a mulher, era filha do bacharel Manoel Hemetério Raposo de Melo, homem importante, sisudo, dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, cujas filhas casaram-se com os senhores de engenho do vale do Ceará-Mirim. No vale viviam estes bisavôs e toda esta família.

A primeira mulher, então falecida, a irmã dela veio ajudar aquele homem a criar os filhos órfãos, e se casaram, formaram e educaram toda uma família, incontáveis gerações. Chamava-se João Xavier, o Joca, o bisavô; e Maria Umbelina, a Iaiá, a bisavó, e viviam no engenho Espirito Santo e Laranjeiras, de sua propriedade. Casa grande, plana, comprida, ao engenho se irmanava. O engenho era a fábrica de se produzir açúcar, os torrões transportados em lombo de animal até Igapó e ali de canoa pelo Potengi até os armazéns da Ribeira Em Natal. Aquele engenho era movido a besta na almajarra, nele conduziam a lida, tirador de cana, cambiteiro, mestre do açúcar, os trabalhadores do engenho. A cana plantada no solo de massapê, fértil, rico, fecundo, que bebia no rio Ceará-Mirim.
Engenho em um único edifício abrigava todas as funções para o fabricação do açúcar, moenda, caldeira, casa de purgar e lá no alto o bueiro. Ainda havia a pastagem dos animais, o sítio de fruteiras, as mais diversas, e um roçado. A manga bacuri de Laranjeiras era o sabor inesquecível daquele tempo e luzia feito gemas nos caçuas de cipô, escreveu sinhazinha Magdalena Antunes , ainda menina vendo a feira. O caldo que escorria da moenda seguia para o paiol e do paiol para os tachos aquecidos pelo fogo da fornalha onde começava o cozimento e as chamas subiam o bueiro e ganhavam todo o vale. Formava-se o mel de engenho que seguia para bater e depois para a casa de purgar onde era despejado nas formas, assim o melaço terminava de cristalizar e virava o mais doce açúcar. E assim viviam.

A mesa de refeições tinha para mais de vinte metros, numa cabeceira seu Joca, noutra dona Iaiá, o banho tomavam no banheiro novo de alvenaria que fizeram lá por trás da balança, no rio Azul, onde nadavam e picavam piabas. Alvoroço foi quando mataram uma jararaca. À noite, acendiam os candeeiros. Serafina, Adelaide e Isabel aprumaram discos no gramofone, bastava dar a corda para funcionar, e todos dançaram. Manoel tocava sanfona, Paulo fazia retratos e foi estudar medicina no Recife. Paulo ao mudar-se para faculdade da Bahia, deixou firme o noivado com a prima Abigail do Recife. Casaram-se, subiram a Serra do Martins e depois vieram parar em Ceará-Mirim. Avós meus, neles nasceram em mim o Ceará-Mirim que existia, e os bisavôs tomaram sentido e vida nos retratos, e a família, e o bueiro fumegando, e os tios Joaquim, João, José e os outros, e os primos. Francisco, um tio-avô, morava em Minas Gerais, e escrevia ao pai, Joca:

Papai, 
Há muitos meses que não tenho notícias diretas suas, apenas o Paulo, ultimamente, me tem escrito, falando-me a seu respeito. Não sei se V.Mcê recebeu uns livros que mandei escritos por mim quando estava no Rio. Tenho muito que contar e estou agora em Alto do Rio Doce, que tem melhor clima e o povo goza de muita saúde. V.Mcê deve ter conhecido a Serra do Martins. Pois nem o frio de lá no inverno se compara com o calor de cá. Quando me lembro que o povo ai morre de sede enquanto a água aqui cascateia por todos os lados das montanhas mineiras, movendo engenhos de cana, moinhos de triturar milho e usinas de luz e força elétrica, tenho a impressão que Deus esqueceu do Nordeste. Como vai V.Mcê? Todos ai vão bem? O Manuel já casou? Paulo comunicou-me do noivado dele ficando eu satisfeito porque a moça é nossa prima do Recife, em 1925, era a mais bonita da capital. Não sei se algum dia voltarei ai. Dalila está sofrendo de uma aneurisma no coração, proibida de qualquer viagem por terra ou por mar. Além disso, os meus interesses aqui não me deixariam ir a não ser a passeio. Espero em Deus que a minha sorte se forme de uma vez e que eu possa algum dia ser útil ao nosso país e àqueles que precisam de mim. Recomende-me a Iaiá e aos de casa. Abençoe-nos a todos, Francisco, Alto do Rio Doce, 4-5-1932.

Assim o álbum de família começou a ser recolhido na composição inacabada da genealogia da família que terminei por não terminar. Tudo começou a se escrever para contar a história desses bisavós e avós, todos. Nascia em mim o Ceara-Mirim que existia no caminho de passagem pelos engenhos, nas conversas sobre as coisas antigas com os tios-avôs José, João, das lembranças de menina de Lourdinha, nas risadas do mestre Tião Oleiro que contava, nos poemas de Adelle Sobral de Oliveira, na história da mordida da raposa, no acidente que houve certa vez na caldeira, no traço de luz em óleo nas telas de Thomé Filgueira. O Ceará-Mirim estava em todo o lugar, e tudo tocou a se transformar em história, no rastro de todo este acervo de memória que se contará no livro que há de nascer um dia.

OBRAS CONSULTADAS

FREYRE, Gilberto. Açúcar: uma sociologia do doce, com receitas de bolos e doces do Nordeste do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1997
FREYRE, Gilberto. Açúcar: uma sociologia do doce, com receitas de bolos e doces do Nordeste do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1997
CASCUDO, Luis da Câmara. História do Rio Grande do Norte. Ministério da Educação e Cultura, s/d
ANDRADE, Gilberto Osório. Os rios do açúcar do Nordeste Oriental: o rio Ceará-Mirim. Ministério da Educação e Cultura. Publicações do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais. Imprensa Oficial, Recife, 1957, p.30
PEREIRA, Nilo. Apud ANTUNES, Magdalena. Oiteiro: memórias de uma sinhá-moça. 2ed. Natal: A.S. Editores, 2003,p.248-249
CORREIA, Paulo de Tarso. Sabença. In: CORREIA, Paulo de Tarso. Talhe Rupestre: poesia reunida e inéditos. Organização, introdução e notas Carlos Newton Júnior. Natal/RN: Edufrn, 2008, p.360
ANTUNES, Magdalena. Oiteiro: memórias de uma sinhá-moça. 2ed. Natal: A.S. Editores, 2003,p.201


quarta-feira, 6 de maio de 2015

ACADEMIA DERAMIRINENSE DE LETRAS E ARTES - PEDRO SIMÕES NETO





Em sessão solene, realizada ontem, esta Academia deu posse a 3 novos acadêmicos. A cerimônia, bastante concorrida, realizou-se na Estação Cultural Prefeito Roberto Pereira Varela e diplomou 3 novos imortais,que fizeram as suas apresentações através de belos discursos, posteriormente publicados nesta página. .
GERINALDO MOURA DA SILVA é bacharel em História, com pós-graduação em História da Cultura e especialização em Educação Ambiental. Tem vasta experiência como professor, diretor escolar e como organizador de eventos culturais. É notoriamente uma pessoa ligada à cultura cearamirinense e um estudioso das tradições do vale verde.
GUSTAVO LEITE SOBRAL é advogado, jornalista e mestre em estudos da mídia. Autor de vários livros e com co-participação em vários outros. Em diversos trabalhos sempre demonstra suas origens cearamirinenses, suas ligações telúricas e afetivas com esta terra. É uma revelação em meio ao universo de jovens intelectuais norte-riograndenses, com vasta produção intelectual.
JOSÉ EDUARDO VILAR CUNHA é físico, engenheiro-civil, jornalista e bacharel em direito, com especialização, mestrado e doutorado na área de engenharia. É poliglota, professor universitário e escritor com vários livros publicados. Tem origem familiar no Ceará-Mirim, terra a que se sente ligado afetivamente. É defensor de um denso Curriculum acadêmico.


terça-feira, 5 de maio de 2015

A Academia Cearamirinense de Letras e Artes "Pedro Simões Neto" - ACLA convida todos os cearamirinenses, em especial os seus amigos, aqui neste Facebook, para a cerimônia de Posse dos novos Acadêmicos, que ocorrerá hoje, às 19:00 horas, na Estação Cultural Prefeito Roberto Pereira Varela.


sexta-feira, 24 de abril de 2015

O CRIATIVO FIDALGO


Tomei emprestado o título desta crônica ao espanhol Miguel de Cervantes, em seu precioso livro Don Quixote de La Mancha, primeira edição de 1605: El ingenioso hidalgo Dom Quijote de La Mancha. Creio poder estabelecer algumas similaridades nesse processo metafísico de romancear a história humana, entre Pedro Simões Neto e Cervantes em sua maneira de escrever sempre girando em torno da crítica, da emoção, da natureza, do passado, do presente, do ideal e o real na sociedade contemporânea.

A existência do entrelaçamento de ficção e realidade contidos em seus livros, tinge de tons, sons, gorjeios, cantos e muita criatividade nos diálogos existentes entre humanos e bichos, no que muito fortalece a intrínseca simbiose entre esses seres vivos criados por um Ser unigênito. Pensantes, esses personagens travestem-se de minuciosas habilidades que dão ao leitor a magia, a graça e a conceptualização de um curioso mundo paralelo, sincrético, espiritual, todavia conflituoso, polêmico, competitivo, atemporal.

Embora tenha lido outros livros de Pedro Simões Neto, faço destaque especial “A Quinta dos Pirilampos”; a leitura traduz de maneira lúdica, a convivência harmoniosa em um mundo de seres imaginários que estabelecem um triálogo entre vários atores: pessoas, bichos, espíritos, vermes, insetos, pássaros, advinhas. Nesse aspecto, há em seus escritos uma mescla genuína da teologia que explica Deus em sua divina supremacia quando cita a criatura e o criador, no que recorre também à razão como a reflexão do conhecimento.

Hoje dia 14 de abril de 2015, nosso criativo fidalgo e conterrâneo Pedrinho de Dr. Percílio como ele gostava de ser chamado, completaria 71 anos. As lembranças que temos e guardamos dele são as mais idealistas e pertinentes quando referidas a Ceará-Mirim sua terra amada onde passou a maior parte de sua vida com sua família e amigos. Mesmo não sendo natural da terra dos verdes canaviais, sempre pensou em dar a essa doce terra um status diferenciado à cidade cuja filigrana de seus escritores, escritoras, poetas, poetisas e artistas se perderam no tempo. Há mais de 20 anos, tinha em seus sonhos e propósitos revitalizar a cultura de Ceará-Mirim de modo a enaltecê-la, despertando a cidade, sua gente, seus artistas a se incluírem e fazer de suas ideias um fato.


Pertinente se faz salientar sua abnegada luta em idas e vindas à Ceará-Mirim para reunir amigos e amigas no intuito da criação de uma academia cultural que reunisse em seu eixo principal tudo que uma cidade precisa ter e mostrar como usos e costumes (dotes culturais enraizados, não visualizados, outros latentes ou aflorando-se). 
Pedrinho sabia da grandeza desse relicário guardado, protegido, pouco identificado, mas existente.
Nesse solo fértil banhado pelo rio Ceará-Mirim ou Rio dos Homens, jogou a semente que germinou, cresceu, floresceu dando o fruto que se abriu doce como o mel dos engenhos, manso como as águas da praia de Muriú, cristalino como a água do velho Diamante bebida a sorvos, e sob a contemplação dos verdes canaviais. Assim nasceu a Academia Cearamirinense de Letras e Artes, obra prima de um homem que sempre acreditou em possibilidades, em sonhos, em trabalho dividido, em compromissos firmados. 

Ao amigo Pedro Simões Neto, advogado, escritor, pintor, poeta, devoto de Nossa Senhora da Conceição, apaixonado por Ceará-Mirim e criador da ACLA, licença para usar o seu slogan: CEARÁ-MIRIM TEM JEITO!
Maria das Graças Barbalho Bezerra Teixeira
Natal, 14 de abril de 2015


quarta-feira, 15 de abril de 2015

A CASA GRANDE DO BARÃO DO CEARÁ-MIRIM

Jeanne Fonseca Leite Nesi
Publicado em “O Poti”, edição de 04 de agosto de 1991

A antiga casa-grande do barão o Ceará-Mirim está localizada em terras da Usina S. Francisco ex-engenho do mesmo nome, nas proximidades da cidade do Ceará-Mirim atualmente, pertence a Companhia Açucareira Vale do Ceará-Mirim.
Residência senhorial, edificada em meados do século passado, conforme indica a inscrição existente na sua fachada: 1857. Seu primeiro proprietário foi o Senhor-de-Engenho Manoel Varela do Nascimento, Barão do Ceará-Mirim.
Manoel Varela do Nascimento, filho de Filipe Varela do Nascimento e de D. Teresa Duarte, nasceu aos 25 de Dezembro de 1802, no sítio “Veríssimo”, arredores da cidade de Ceará-Mirim. Sua esposa D. Bernarda Varela Dantas, veio ao mundo aos 17 de junho de 1821.
O Futuro barão começou a sua vida econômica como pequeno plantador, com um engenho movido por bestas. Adquiriu de um chefe índio de nome Saquete, uma terra pertencentes aos índios, denominada ilha dos cavalos (hoje ilha bela), na qual instalou o seu engenho São Francisco.
O Barão de Ceará-Mirim foi um dos primeiros proprietários de engenho da região a utilizar os cilindros horizontais, na moagem das canas, em substituição aos cilindros verticais, tradicionalmente utilizados, também foi o divulgador da cana “Cayenne” (caiana), logo predominante no vale do Ceará-Mirim.

Em sua vida pública, Manuel Varela do Nascimento aparece como alferes de 2ª linha, em 24.4.1828; presidente da Câmara Municipal de Extremoz, nos períodos de 1829/32 e 1837/40; 16.07.1852, coronel comandante superior da Guarda Nacional, dos municípios de Natal, São Gonçalo, Extremoz e Touros; deputado provincial, período de 1868; 3º vice-presidente da província em 1868.
Foi o primeiro norte-rio-grandense agraciado com o titulo de barão – Barão do Ceará-Mirim.
Por decreto imperial de 22.06.1874, assinado a 8 do mês seguinte. A benemerência deveu-se “aos relevantes serviços prestados à instrução pública da província do Rio Grande Norte”. O Barão do Ceará-Mirim dedicou grande devotamento à causa da instrução pública, chegando mesmo a construir uma escola, doada por ele ao município em 05.11.1878.
A tradição recorda as duas carruagens do barão (1877), “muito asseadas, com boas parelhas e seus escravos decentemente vestidos”. Antes do decreto da abolição da escravatura, todos os escravos pertencentes à baronesa do Ceará-Mirim, já haviam sido alforriados, por ato de 01.03.1888, em honra à memória do Barão...
A Casa-Grande do antigo Engenho São Francisco é ainda uma da melhores edificações do Município. Desenvolvida em dois pavimentos, a casa apresenta partido de planta quadrangular, com cobertura de quatro águas, beiral corrido com extremidades em “cauda de andorinha”, arrematado por cimalha.
A fachada principal da casa possui uma porta de acesso, ladeada por seis janelas, superpostas por sete janelas, rasgadas, guarnecidas por uma única grade de ferro. Todos os vãos são de arcos abatidos, com cercaduras de massa.
O prédio sofreu algumas alterações. Assim, as suas paredes externas perderam o belo revestimento de cerâmica do porto, da época de sua construção. O seu interior, onde atualmente funciona a administração da usina São Francisco, sofreu pequenas modificações para adaptá-lo ao novo uso. A casa possui piso cimentado no térreo, ainda conservando o assoalho de tabuado corrido, no pavimento superior. Mantém o forro de tabuado, no térreo, e no pavimento superior foi colocado gesso.
Antigamente, na sala de honra de casa-grande encontravam-se os retratos a óleo de barão e da baronesa. O tradicional edifício foi despojado de seus antigos moveis. O portão nobre, de ferro fundido em Portugal, foi transferido para uma construção ao lado da casa-grande. Nas proximidades daquela residência existe um pequeno cemitério e uma Capelinha, dedicada a N.S. da Conceição, onde se encontram duas imagens antigas, de madeira, e um crucifixo de marfim. O barão faleceu a 1º de março de 1881 e a baronesa aos 16 de julho de 1890, conforme indicações constantes das lousas mortuárias existentes naquele pequeno cemitério, onde também acham-se sepultados outros familiares.
A Casa-Grande encontra-se bem conservada o mesmo não podendo dizer do cemitério e da capelinha, que se encontram em péssimo estado de conservação no mais profundo abandono. Esperamos uma maior atenção por parte dos atuais proprietários, no sentido de ser recuperado aquele conjunto arquitetônico de relevante importância histórica, de modo a valorizá-lo como patrimônio artístico e sentimental do verde vale dos canaviais.


quinta-feira, 9 de abril de 2015

INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO RN, 113 ANOS



Jurandyr Navarro
Do Conselho Estadual de Cultura

A instituição mais antiga em atividade do nosso cenário cultural, completa na presente data, dia vinte e nove, cento e treze anos de existência. Por feliz coincidência, o aniversário está sendo comemorado em alto estilo, na fase áurea de sua existência, por todos evidenciada.
Desde a sua posse, a Diretoria atual tem contabilizado uma série de empreendimentos no plano administrativo e cultural. A fisionomia da entidade mudou para melhor, nos seus diversificados setores de atuação. Tanto a sua imagem física como organizacional, apresenta-se, hoje, de forma promissora.
Os positivos resultados atestam a veracidade da afirmação. O modelo de trabalho, em equipe, acolheu exemplar aprovação.
Cinco colunas humanas sustentam, presentemente, o pedestal organizacional da veterana entidade: o presidente, Valério Mesquita, o seu grande maestro, que rege a orquestra, com equilibrada liderança; Ormuz Simonetti, o vice-presidente, voluntarioso, de conhecido dinamismo (daria um grande Prefeito Municipal); Carlos Gomes, o secretário-geral, especialista exímio, responsável pela parte jurídico-legal, nosso Helly Lopes Meirelles, atualizado; Odúlio Botelho, secretário-adjunto, experiente causídico, coube-lhe o encargo do acompanhamento dos assuntos lítero-jurídicos, redação oficial e derivações. Finalmente, Scilla Gabel, encarregada pela Contabilidade, da vetusta empresa cultural privada, tarefa por demais fatigante, na árida ciência dos algarismos.
A Diretoria tem outros membros complementares do seu quadro dirigente, operadores em outras funções, não menos importantes: Adalberto Targino, orador oficial, de conhecida capacidade intelectual; Lúcia Helena, conhecida poetisa; Eduardo Gosson, escritor talentoso, na função de Tesoureiro, substituindo George Veras.
As reuniões diárias, presididas pelo historiador Valério Mesquita, contam, geralmente, com a presença de intelectuais, interessados em participar de conversações descontraídas e de interesse do Instituto. 
Tais reuniões têm como figurantes, de presenças habituais, Vicente Serejo, Edgard Dantas, Tomislav Femenick, Eduardo Gosson, Jansen Leiros, Antônio Luiz de Medeiros, Gonzaga Cortez, Eduardo Vilar Cunha, Augusto Leal e outros menos habituais.
A nossa “Casa da Memória” é, no presente, uma das instituições mais atuantes e das mais prósperas, no concernente à alcançada produtividade, junto da significativa mudança, para melhor, em comparação com à realidade existente de anos recentes.
Procedeu-se uma restauração completa no prédio principal, em suas instalações internas, estendendo-se ao largo “Vicente de Lemos”, que será utilizado para eventos em geral.
A obtenção de verbas ornamentarias, municipais e estaduais, conseguidas, têm ajudado, em parte, nessa transformação dadivosa.


A documentação oficial do Instituto recebeu completa legalização jurídica.
Houve, também, acréscimo no seu quadro social, renovando a sua clientela, dentre representações pessoais capacitadas.
Será lançada a Revista do Instituto, confeccionada, nos últimos dias, pela gráfica da Imprensa Oficial do Estado.
Nessa data festiva haverá comemorações na sede da entidade, sessão especial, e na Assembleia Legislativa, será conferido o título de Mérito Legislativo  ao político Almino Álvares Affonso, por Proposta do Deputado Ricardo Motta.
Nesses dias sombrios, em que a Pátria Brasileira atravessa, pela atitude indecorosa de muitos de seus representantes políticos, é agradável para nós, natalenses, termos o prazer de desfrutar desse feliz momento em que é comemorado o novo aniversário da nossa “Casa da Memória”, brindando, em uníssono, o seu progresso, e parabenizando os seus abnegados dirigentes e associados.
Dando continuidade às linhas anteriores, devo acrescentar que o Instituto promoveu festiva solenidade no amplo salão do Centro Pastoral “Dom Heitor de Araújo Sales”, comemorando mais um  aniversário de fundação.
A solenidade revestiu-se de atos significantes. O Presidente Valério Mesquita, abriu a festiva reunião dos associados e convidados, declarando a sua finalidade e abordou passagens importantes da trajetória da entidade, assinalando, em destaque, seus vulto veneráveis, responsáveis pela existência promissora do antigo sodalício, aludindo, outrossim, aos planos e projetos do seu atual mandato, que conseguiu avanços consideráveis em prol da sua evolução.
Aproveitou o grato ensejo para fazer rápida homenagem à pessoa da Senhora Miriam, viúva do conhecido historiador Enélio Lima Petrovich, de saudosa memória, um dos mais importantes dirigentes da Instituição.
Em seguida é chegado o ponto alto do ato comemorativo, qual seja, a Palestra do conhecido político brasileiro, Almino Álvares Affonso, convidado especialmente para abrilhantar o importante evento.
Antes, porém, o ilustre convidado foi homenageado com a entrega à sua pessoa da Medalha “Alberto Maranhão”, a ele conferida pelo Conselho Estadual de Cultura. Mencionada comenda foi-lhe entregue, nesse momento solene pelo atual Presidente do Egrégio Conselho, Acadêmico Iaperi Araújo.
Em seguida, o Jornalista e Acadêmico, Vicente Serejo, Sócio Efetivo do Instituto, possuidor de eloqüentes dotes oratórios, faz a saudação de praxe, como a voz representativa daquele colegiado, saudando o visitante, ilustrado conferencista da noite, tecendo o seu perfil biográfico.
O palestrante, de elevado conceito na memória política da Nação, é originário do Amazonas, onde nasceu, porém, tem suas raízes genealógicas no rincão potiguar, por ser neto do abolicionista e político famoso, o velho Almino Affonso, brilhante Senador da República.
O neto herdou a fibra cívica e a vocação política do avô. Herdou-lhe, sobretudo, a eloqüência tribunícia!
A conferência agradou em uníssono aos que compareceram ao encontro cultural, pelo seu poder persuasivo.
A palavra e a memória do palestrante a todos enfeitiçou, diante da magia da eloqüente improvização. O verbo alado magnetiza mentes através imagens da retórica.
Após a solenidade, houve o lançamento da última Revista do Instituto, contendo material de primeira linha, tratando aspectos diversos de ordem histórico e cultural. Além disso, agradou, também, o vistoso perfil gráfico, na sua capa e na encadernação.
Na manhã do dia seguinte, vinte e sete de março, a Assembleia Legislativa Estadual recebeu no seu Plenário, apreciável assistência, a fim de prestigiar o inteligente visitante e para ouvi-lo noutra fala, não menos significativa.
O auditório preparado estava, não somente para ouvi-lo mais, para aplaudi-lo, em dois momentos divididos por palestra política, própria para o ambiente e para parabenizá-lo pelo recebimento do “Mérito Legislativo”, propositura do Deputado Ricardo Motta.
Foi outra ocasião valorizada pela erudição cultural do conferencista insigne. Deu ele uma espécie de aula magna, enfatizando sua trajetória política de anos passados em que a sua pessoa exerceu papel relevante, no tocante á sua vocação, na tumultuada vida político-partidária nacional.
O categorizado docente a todos agradou pela oratória repleta de matizes, os mais brilhantes, ao que concerne a palavra e o gesto, a memória admirável e a convencedora persuasão.
Abstenho-me, aqui, de mencionar a cor do credo político ou ideológico. O que interessou aos presentes foi a figura humana do conferencista e a sua capacidade intelectual, abordando fatos históricos, na Casa da História.
A interpretação fica a cargo da consciência de cada um. Ao homem, foi-lhe dado, do Alto, o livre arbítrio. A sociedade que o julgue.
A saudação protocolar coube ao desempenho do sócio efetivo, Acadêmico Ticiano Duarte, que o fez de forma exemplar. Conhecido cientista político, tem acompanhado, desde a juventude, as porfias políticas partidárias, aperfeiçoando o entendimento nessa área de idéias polêmicas, orador de qualificados recursos, soube conduzir-se na calorosa oração proferida que a todos emocionou pelo entusiasmo que dedica à causa.
Coroado de êxito pleno, portanto, a apresentação do ilustre tribuno Almino Affonso, entre nós e a sua mensagem cultural deixada.
De parabéns, aos que fazem a nossa “Casa da Memória”, por mais um aniversário auspicioso, por todos festejado



terça-feira, 7 de abril de 2015

O Vale Verde do Ceará-Mirim - Rio Grande do Norte


“Nos primeiros tempos da colonização, Estremoz, com seu colégio Jezuítas, onde se educou o grande índio Poti, e sua lagoa povoada de lendas, era o ponto mais avançado no caminho que ia a capital. Pouco adiante do taboleiro, era a mata virgem e misteriosa donde não mais voltavam muitos que nela penetrassem. O nome Boca da Mata, como era denominado a região que é hoje o Ceará-Mirim, das terras ubertosas e dos extremos canaviais, infundia certo pavor”. (Manoel Dantas, in “Homens de Outrora”, Editora Sebo Vermelho. Natal, RN, 2001).

Os Engenhos Contam a História do Vale
No século XVII, quando os portugueses chegaram oficialmente ao Vale do Ceará-Mirim, os índios Potiguares, chefiados por Felipe Camarão, o índio Poti, já habitavam a localidade de Guajiru, as margens do Rio Pequeno, hoje Rio Ceará-Mirim. Logo após a saída dos padres jesuítas, os índios negociaram suas terras com os colonizadores portugueses, os quais utilizaram o trabalho escravo para desenvolverem a economia do lugar, através do plantio de cana-de-açúcar.

O Vale prosperou e cresceu a partir da produção canavieira e, durante a fase patriarcal e escravocrata do açúcar, tornou-se referência de ostentação e de muito luxo, tendo seus senhores de engenhos possuindo carruagens forradas com seda e promovendo pomposas festas para a aristocracia nos salões dos seus Casarões...

Ceará Mirim teve sua origem ligada à criação da primeira Vila do Rio Grande do Norte, a Vila de Estremoz, sucedânea da antiga Aldeia de São Miguel do Guajirú, que foi suprimida por Ordem Régia do rei de Portugal, Dom José I, datada de 3 de setembro de 1759. A Vila Nova de Estremoz foi instalada no dia 3 de maio de 1760.
Ceará Mirim, que na época chamava-se Boca da Mata e pertencia a Estremoz, passou a ser sede do município em 18 de agosto de 1855, sendo chamada Vila de Ceará Mirim. A vila recebeu foros de cidade em 9 de junho de 1882, pela Lei número 837.

De acordo com Luís da Câmara Cascudo, a origem do nome da cidade é dada pela “Seara, várzea do Seara”, rio mencionado pelo historiador no livro “Nomes da Terra”, Sebo Vermelho Edições, que tinha sua nascente entre Lajes e Angicos, atravessando os municípios de João Câmara e Taipu, despejando no mar na Barra de Inácio de Góis. A tradução do vocábulo “Ceará”, segundo o escritor José de Alencar é “fala ou canto do papagaio”.
“No Vale cobriu-se de canaviais e, sede de rico patriarcado agrícola e industrial, com elegância e poderio econômico, Ceará-Mirim tornou-se um dos primeiros municípios da Província do Estado”, escreveu Câmara Cascudo.
O município está localizado a 33 km de Natal, na região do Mato Grande. A cidade preserva alguns casarios do início do século XIX, construídos no auge da produção açucareira.

A economia local continua tendo como grande referencial os produtos agrícolas, com destaque para a produção de cana-de-açúcar, banana, goiaba e mamão. O vale também oferece uma variedade de produtos como a avicultura, o pescado, produção de rapadura e o turismo. O artesanato é representado por vasos de argila e peças ornamentais de cerâmica, abundantes na região.
No folclore, destacam-se os Caboclinhos do Ceará Mirim, que desde o ano de 1952 apresentam-se para o povo. É também Ceará Mirim o município onde existe o maior número de lendas. Entre elas, destaca-se “O Porão e a Lenda da Cabeça”.

A tradicional festa da padroeira da cidade, Nossa Senhora da Conceição, acontece entre os dias 28 de novembro ao dia 8 de dezembro, com extensa programação cultural, religiosa e festiva...
Casarios contam a história
O Solar Antunes é um imponente casarão no centro da cidade, foi construído em 1888, em estilo colonial, pertenceu à família Antunes e foi doado por Rui Pereira Júnior, seu último herdeiro, para ser a sede da Prefeitura Municipal.
Iniciada pelo Frei Ibiapina, a Matriz de Nossa Senhora da Conceição, levou longos 40 anos para ser construída. Atualmente, a igreja é considerada um dos maiores templos religiosos do Rio Grande do Norte.

Reformado recentemente pela Prefeitura Municipal, o Mercado do Café é o marco de uma economia ativa e próspera durante o ciclo canavieiro. Construído por volta de 1880, o mercado era um grande entreposto para a comercialização dos produtos da cana de açúcar (rapadura, mel, álcool, açúcar, melaço e aguardente).
Inaugurada em 1906, a Estação Ferroviária de Ceará-Mirim integra a população cearamirinense com a capital do Estado. Nos seus vagões, o tem trazia novos comerciantes para a cidade e levava a produção do Vale para Natal.
Os Engenhos do Vale

A paisagem bucólica, entre verdes canaviais, palmeiras imperiais e frondosas mangueiras, esconde verdadeiros tesouros históricos. Dezenas de Engenhos, alguns em ruínas e no completo abandono, outros intactos e preservados, formam a “Rota dos Engenhos”, projeto turístico da prefeitura de Ceará-Mirim.
O Museu Nilo Pereira, antiga Casa Grande do Engenho Guaporé, construído em 1850, é de grande importância para a história do RN. Uma das razões é que abrigou o governador da Província, Vicente Inácio Pereira, por volta de 1860. Completamente entregue às traças e morcegos, o Museu Nilo Pereira pertence à Fundação José Augusto, que usa o lugar como depósito.

Na propriedade onde existiu o Engenho Santa Theresa, cuja lembrança é uma enorme chaminé que resistiu ao tempo e permanece de pé, há uma nascente de água cristalina, chamada de “Banho das Escravas”. Como o nome sugere, era o local onde as escravas se banhavam e lavavam as roupas dos seus senhores.
Algumas edificações estão completamente em ruínas, deixando a mostra suas paredes de tijolos duplos, expondo toda a imponência de outras épocas. O velho Engenho Carnaubal, o primeiro do Vale, construído em 1840, oferece ao visitante uma referência da grandeza da arquitetura usada pelos Barões do Açúcar. O engenho Ilha Bela, construído em 1888 pelo Coronel José Felix da Silveira Varela, também está em pleno estado de ruínas.

A terra do Engenho Verde Nasce guarda uma das maiores curiosidades do Vale: o “Túmulo de Emma”. Uma construção onde foi sepultada uma inglesa chamada Emma. Conta a lenda do lugar, que o jovem Victor Barroca, filho do proprietário do engenho Verde Nasce, Marcelo Barroca, foi estudar na Inglaterra e casou-se com uma moça inglesa, vindo morar no engenho. 
Ao acompanhar o marido, Emma não resistiu ao clima e faleceu em 1881 (data da lápide). Naquele tempo, a Igreja Católica não permitiu o sepultamento num cemitério, uma vez que sua religião era Anglicana. Seu esposo mandou construir o túmulo no alto de uma colina – local onde o casal costumava passar as tardes – rendendo todas as homenagens possíveis.

A preservação do Patrimônio Histórico está garantida pela conservação de alguns engenhos, uns continuam fechados, mas outros estão em pleno funcionamento. O Engenho Mucuripe, fundado em 1935 por Rui Pereira, o mais antigo em atividade na região, produz anualmente rapadura de boa qualidade, mel e açúcar mascavo.

A Casa Grande do Engenho São Francisco, onde hoje funciona o escritório da Usina Açucareira do Vale do Ceará Mirim, foi residência do Barão do Ceará Mirim. Construído no final do século XVIII, em estilo colonial, o casarão resiste ao tempo e preserva seus traços da arquitetura portuguesa.
Uma gôndola decora a praça do Parque da Cidade, construída em homenagem a cidade portuguesa de Vagos, coirmã de Ceará-Mirim. O Parque da Cidade é um terminal turístico, com uma infraestrutura pronta para atender o visitante.

 Dentro de uma visão de interiorização do turismo e a diversificação de roteiros culturais, a “Rota dos Engenhos” é uma alternativa cultural, com gosto de aventura histórica, oferecida pelos verdes canaviais do Vale do Ceará-Mirim.


sábado, 21 de março de 2015

A FEIRA LIVRE


Pedro Simões Neto


Domingo era dia de folia. Ou não. Poderia ser no Sábado. Eram as usinas que decidiam se seria a Sexta-feira ou o Sábado o dia do pagamento. Em decorrência de tal decisão, a feira só poderia ocorrer no dia subseqüente ao do pagamento, no Sábado ou no Domingo. E era na feira onde começava a folia, numa das inúmeras “bancas” ao ar livre, na “quadra” do mercado, ou nos “locais”, dentro do prédio público. O freguês tomava uma e outras e voltava feliz para casa, sem pensar na segunda-feira seguinte.

O prédio do mercado público da cidade foi construído pelo coronel Onofre José Soares, pai do “major” Onofre Soares Junior, que obtivera concessão do então governo provincial para explorá-lo durante vinte anos. Foi inaugurado em 1881 com manifestações de desagrado por parte do povo, rezam as crônicas, tendo em vista uma postura municipal haver determinado a mudança da feira que tradicionalmente se realizava na rua Grande, para as dependências do novo prédio. Mesmo sob o protesto, a feira, então, passou a ser realizada inicialmente dentro do prédio e depois, em torno dele.
A feira era, e ainda é, uma instituição sócio-econômica da maior importância, sobremodo nos anos cinquenta.

Todas as ruas convergem para o “quadro” do mercado e de lá saem para o interior, num incessante ir e vir de caminhões, cavalos, burros, carroças e bicicletas. O mercado público é como uma gigantesca centopéia que oferece os seus membros a uma comunidade de formigas.
O mercado é também uma central de informações, das mais triviais – quem chegou e quem partiu ou os últimos boatos da cidade – até as mais importantes, como o resultado do jogo do bicho, o preço da tonelada de cana e as cotações de feijão, do milho, da mandioca e da farinha.
As feiras realizavam-se aos sábados, mas todos os dias os feirantes permanentes – pequenos comerciantes que não tinham um “ponto” para negociar – armavam as suas barracas estimulando a freguesia com pregões cantados ou versejados.

Do burburinho dos feirantes, destacavam-se dois setores do comércio: os vendedores de ‘mangaio’ e os curandeiros com seus remédios milagrosos, aliás, extensões do mesmo ramo de negócios. Os ‘mangaieiros’ trabalhavam com ervas, raízes e pedras, cada produto com a sua indicação terapêutica peculiar, alguns com diversificadas panacéia. A maioria dos curandeiros era composta por charlatões. Aqui e ali, muito esporadicamente, identificava-se um produto com cura atestada pela tradição, diferentemente dos mangaieiros, referenciados pelos hábitos da população pobre e por remotíssima tradição oral. Os curandeiros trabalhavam com componentes fantásticos, taticamente escolhidos para criar ilusões nos adquirentes: óleo de boto, para aumentar a virilidade; barbatana de cação, para dar força e valentia; gordura de ‘peba’ para fechar o corpo contra as ‘mulestas’. Até o caldo da ‘xamexuga’ já foi oferecido para impaludismo, por aí se veja... 

Dentro do mercado ficavam os ‘locais’. Eram boxes mantidos por inúmeras gerações da mesma família, que mantinham fiéis à venda de determinados produtos, comercializados apenas no mercado: artigos de couro, cipó, palha, flandres e certo tipo de miudezas. E também as comidas prediletas dos feirantes: caldo de cana, bolo preto, da moça, de macaxeira, de batata e de mandioca; prato-feito de almoço com carne de sol, feijão e farinha de mandioca, com direito a umas colheradas de paçoca e a um pouquinho de torresmo; café da manhã farto; xícara grande de café-com-leite, cuscuz com ovos, macaxeira, queijo do sertão, tapioca e pão com manteiga. 

A relação dos produtos vendidos encheria muitas folhas de papel almaço. Chapéu de couro, rebenque, botinas e alpercatas de couro cru, sela e arreios, cangalhas, peneiras, raladores de coco, coadores, cuscuzeiros, chaleiras, candeeiros e lamparinas, penicos, bruxas de pano, mochilas, chapéus e esteiras de palha trançada, cachimbo, fumo de corda e fumo caipira para cigarros, esculturas de barro (boi, vaqueiro, cavalo, farinhada, forró, casamento, cantoria...) quadros emoldurados com figuras de santos, espingardas de soca, facões e peixeiras, bainhas, redes de dormir e de pescar, malas de madeira (maletas e malotas), caçuás de cipó, espelhinhos redondos e ovais, pavios para os candeeiros, canivetes de ‘gilete’, livrinhos de cordel, cintos e cinturões, copos e xícaras de alumínio, brinquedos toscos de madeira, destacando-se o boneco pulador e o “João redondo”. Que ninguém possa esquecer dos barulhentos rói-róis. 

A praça do mercado era o centro comercial da cidade, fato que não incomodava nem preocupava os renitentes proprietários de casas residenciais. Os mesmos permitiam a utilização dos quintais como guardadouros de animais e de gêneros. Punham grandes jarras de barro nos alpendres como depósito d´água para serventia da sede dos feirantes. A hospitalidade aos interioranos era praxe na cidade, mas não havia promiscuidade. Cada família ou região contava com casas determinadas. 

Aquelas cujos proprietários tinham fazendas nas regiões dos hóspedes, ou suas empregadas tinham ligações familiares, ou eram agregados políticos ou afilhados. Esses apresentavam outros, que iam se incorporando à hospedaria. A obrigação dos hospedeiros era a de oferecer sombra, água e depósito. Um desses proprietários tinha um caminhão de três boléias, denominado ‘misto’, exatamente porque transportava passageiros e cargas, que tinha a concessão da linha que margeava a ribeira do vale.

O quadro do mercado era uma só festa de confraternização, alegria e muita conversa arrastada dos homens e a animada boataria das mulheres, que nem parecia que tinham se encontrado no dia anterior. Era uma profusão de cores, sons e cheiros. Muita gente descalça, ou calçando chinelas e alpercatas. Raros de botinas, mais raros ainda de sapatos. Muita gente de chapéu de palha, inclusive algumas mulheres. Poucos de chapéus de couro. Mais raros, ainda, de chapéus de massa. Calças caqui com camisas de algodãozinho e vestidos de chita. Cheiro estonteante e suor, cachaça, água de cheiro, banha nas carapinhas, colorau, dendê, peixe de sal preso, esterco e urina de animais, sarapatel, buchada e torresmo, couro cru, goiaba, manga e tempero verde.

A feira era uma festa, mesmo que não fosse, mesmo que não quisesse, mesmo que não pudesse. Os cantadores atraíam o público fervoroso, aboletados em tamboretes, apoiados nas mesas dos bares, com os violões a tiracolo. Os vendedores de cordel amplificavam os versos dos autores em engenhosos cones de folha de flandres colados à boca. A banha de porco, além da natural serventia para os assados triviais e as frituras, era anunciada também para esticar o cabelo e ser usada como lubrificante pelos noivos.
Os políticos andavam prá lá e prá cá, exibindo-se para o eleitorado do interior. Ora pagavam uma ‘chamada’ de cana para um grupo, ora presenteavam as mulheres e os velhos com ‘santinhos’ de padre Cícero e Frei Damião. Dependendo, davam panos e água de cheiro às matriarcas. Quanto maior a família, mais valioso o presente. Se estivesse pertinho das eleições punham uma chapinha com o nome dos candidatos dentro do embrulho do presente.

A hora de voltar era a hora de voltar, marcada pelo excesso de cachaça, pelo cansaço, por algum mal acontecido ou pelo prenúncio da escuridão. Então, era hora de selar e arrear os cavalos, tirar o sapato apertado, ou embarcar nos carros de boi e carroças, ou nas carrocerias dos caminhões e voltar ao assunto para mais uma semana.

Na feira ainda ficariam os desempregados e os mendigos, catadores de restos de alimentos ou que barganhavam os refugos dos vendedores. Um deles recolhia os restos do chão, quando pechinchava as miuçalhas dos feirantes, para fazer o “caldo da ressaca”, também chamado “caldo da caridade”, uma mistura de verduras, ossos e “péia” de carnes que levantava até defunto.