quinta-feira, 26 de abril de 2018

DISCURSO DO ANIVERSÁRIO DE 116 ANOS





Caros amigos, familiares, confrades e convidados. Hoje estamos comemorando os 116 anos de existência, completados no último dia 29 de março, desta que é a mais antiga e ativa Instituição cultural do nosso Estado.  Em mais um ano de luta em prol da cultura, todos os nossos esforços foram direcionados à recuperação e à preservação, tanto do prédio, que por si só, representa a cultura do nosso Estado, como o seu precioso acervo, razão maior de sua existência.

Não é necessário dizer aos senhores as dificuldades que passam aqueles que ousam fazer algo pela cultura neste País. Em nosso Estado, não é diferente. Entretanto, sempre haverão aqueles abnegados que, enfrentando todo tipo de dificuldades, resolvem, movidos por uma força maior, enfrentar esses desafios. Podemos chamar essa força simplesmente de amor à cultura, pois sem esse importante ingrediente nada se consegue.

Muitos ainda pensam que nós, diretores, somos regiamente remunerados. Ledo engano. Nós somos uma entidade privada, sem fins lucrativos, e, desde 1909, reconhecida como de utilidade pública estadual e, posteriormente, municipal e, por extensão, também federal. O presidente e seus diretores são voluntários. Traduzindo o que acabei de falar, além de não sermos remunerados, muitas vezes temos que nos cotizar para realizar alguns pagamentos inadiáveis.


Minhas senhoras e meus senhores. Custam entender como uma instituição que é responsável pela guarda, segurança e manutenção do mais importante acervo cultural do Estado, não seja contemplada por esse mesmo Estado, de forma regular e continuada.

Não seria verba para a remuneração dos diretores, pois em hipótese alguma nós a aceitaríamos, uma vez que os Diretores do IHGRN sempre foram e sempre serão voluntários. Mas tais recursos seriam utilizados na manutenção da instituição e também na aquisição de importantes obras literárias, uma das carências de nossa Casa, coisa que não é feita por esta Instituição, justamente por falta desses recursos, que ora reclamamos.

Outros Estados da federação há muito tempo já o fazem. Em recente reunião no último mês de março, em Recife, promovida pelo Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco, no VI ENCONTRO DE INSTITUTOS HISTÓRICOS DO NORDESTE, tivemos a oportunidade de verificar que todos os Estados ali representados recebiam ajuda financeira dos seus governos. Cito por exemplo a Bahia, que destina R$ 700.000, por semestre, à manutenção da Instituição, assim como Alagoas, Ceará, Piauí, Maranhão, Sergipe e Espírito Santo e o anfitrião Pernambuco, todos recebem recursos. O citado encontro teve total patrocínio do Governo do Estado, com o pagamento de passagens aéreas e hospedagens para todos os representantes dos Institutos Históricos. Infelizmente, o Rio Grande do Norte não participa dessa relação. 

Faremos, a partir de agora, um breve relato das nossas realizações durante o ano de 2017, e uma projeção para o ano de 2018.

Iniciamos o ano de 2017 com o prédio da “Casa da Memória” ainda embargado. Aliás, esse embargo se deu exatamente na manhã do dia 30 de março de 2016, menos de 24 horas após minha posse.

Depois de dois longos anos de muita luta na esfera judicial, conseguimos a suspensão do embargo, após realizar um acordo na Justiça Federal. Feito o acordo, não perdemos mais tempo e partimos para a realização dos melhoramentos há muito reclamados para nossos prédios, e, consequentemente, a melhor acomodação do acervo, razão maior da existência desta Instituição.

Partimos em busca da liberação de uma verba no valor de R$ 120.000,00, advinda de uma emenda parlamentar da vereadora Júlia Arruda Câmara no valor de R$ 60.000,00 e mais igual valor, de uma verba de Gabinete da Prefeitura Municipal.

Com esses parcos recursos, de apenas R$ 120.000,00, conseguimos realizar nosso grande sonho que era a construção do piso de concreto armado da sala do acervo, numa área de 80 metros quadrados, condição “sine qua non” para a montagem das modernas e funcionais estantes deslizantes, adquiridas ainda no governo Rosalba Ciarline, quando era Secretária de Educação a nossa confreira Betania Ramalho, que, para nosso regozijo, atualmente é a Vice-Presidente desta Casa.

Realizamos ainda a construção de um lavabo feminino, requisito exigido pela CLT, mas que até então não tínhamos em nosso prédio. Revestimos de ipê, com bela paginação da nossa arquiteta e paisagista Alenuska Lucena, o piso de três salas, onde outrora haviam cerâmica vitrificada e paviflex, revestimentos totalmente impróprios para um prédio centenário, o que causava sua descaracterização.

Adquirimos e instalamos 3 portas de vidro para dar segurança e melhor visibilidade das dependências, principalmente na Sala de Exposições Dorian Gray Caldas, antiga sala da presidência do IHGRN, que a batizamos, em justa homenagem, com o nome desse grande, artista, poeta, tapeceiro e intelectual norte-rio-grandense, sócio efetivo desta Instituição.

Fizemos a pintura do prédio principal e do prédio anexo, este recebido por doação em 25 de janeiro de 2001, da nossa sócia benemérita senhora Angélica Timbó, num gesto de extrema benevolência e desprendimento, que por nossa iniciativa, desde 2013, funciona a administração da Casa da Memória. (solicitar a apresentação de Angélica)

Após a realização desses serviços, transferimos o acervo de volta ao prédio principal. Esse acervo se encontrava no prédio anexo, e por falta de espaços em precárias condições de armazenamento.

Quando do início da reforma, apesar das solicitações a diversos órgãos públicos, não conseguimos nenhum local que se dispusesse a recebê-lo, enquanto realizávamos os serviços. Não nos restou outra alternativa a não ser de acomodá-lo, como foi possível, no prédio anexo. 

Iniciamos uma grande operação de retorno do acervo para o seu local definitivo. Nesse retorno, promovemos em parte a limpeza e catalogação das obras. Novamente nos deparamos com a velha e conhecida dificuldade financeira.

Para quem não sabe, os recursos de emendas parlamentares são recursos “carimbados”, isto é, só podem ser utilizados para a finalidade descrita no “plano de trabalho” que é feito antes da formalização do processo. Isso nos impede, mesmo havendo necessidades prementes, às vezes surgidas naquela ocasião, da utilização dos recursos para acudir outras dificuldades.

Não dispúnhamos de recursos para contratar pessoal especializado para o trabalho de bibliotecário que, em virtude da transferência, era preciso começar tudo do zero. Solicitamos e conseguimos na UFRN apenas um bibliotecário, no sistema de bolsa de estudo. Mas, para a grandiosidade do trabalho a ser realizado, era muito pouco. Resolvemos apelar para o voluntariado.

Por intermédio de uma mídia desenvolvida gratuitamente pela Agencia de Publicidade ARTe C, exibida na INTERTV, durante 3 meses, em horário nobre, e totalmente gratuita, apelamos á população para que socorresse a Instituição.

Poucas foram às pessoas que atenderam a esse apelo. No campo da biblioteca e arquivo surgiram alguns voluntários, mas na grande maioria, não estavam habilitados para as atividades que iriam desenvolver. Nesse tempo conseguimos apenas duas voluntárias, bibliotecárias, que passaram a colaborar no período de meio expediente, duas vezes por semana, juntamente com o bolsista que trabalhava em apenas meio expediente. E, ainda, com a ajuda sempre presente de diretores, já conseguimos organizar cerca de 20% do nosso acervo.




Infelizmente acabamos de perder o nosso bolsista, que partiu para o vizinho Estado da Paraíba, em busca de melhores oportunidades em sua profissão.

Somos depositários dos primeiros documentos jurídicos do nosso Estado, as Sesmarias. A mais antiga, data de 1640, infelizmente, as primeiras em precário estado de conservação, precisando urgentemente de recuperação em laboratório especializado, sob o risco de perdê-las para sempre.

E fica aqui a pergunta: onde estavam os magistrados, médicos, doutores, profissionais de diversas áreas de nossa sociedade que no início de suas vidas, quando os recursos eram escassos para a compra de livros, se valeram desse importante acervo para prosseguirem com seus estudos? Será que não chegou a hora de devolverem para esta Casa um pouco do muito que ela outrora lhes deu?

Com a recente alteração do nosso Estatuto, criamos uma categoria de Sócio MANTENEDOR, para aqueles que desejarem ajudar na sobrevivência desta centenária Instituição. Esse contato pode ser feito diretamente em nossa sede ou pelo telefone, caso não se tenha tempo de vir até nos. Vamos olhar com um pouco mais de atenção e carinho para esta Instituição que será eternizada na guarda e conservação da nossa história para as futuras gerações.

Hoje entregaremos o primeiro Diploma de Sócio Mantenedor ao Dr. Einar Cavalcanti de Souza, o primeiro a nos procurar para essa nobre missão. Por isso receberá o título de sócio número 01. Esperamos que outros sigam esse belo exemplo de cidadania e amor à cultura.

No ano de 2017 lançamos o programa “Ocupação Municipal”. Esse programa visa aproximar os municípios do nosso Estado, da Casa da Memória, já que nossa Instituição é do Estado do RN. Outrora os sócios de outros municípios eram tidos como “Sócios Correspondentes” o que não se justificava já que a Instituição não é somente de Natal e sim o Estado.

Nessa ocupação, que é penas por um dia, o município exibe em nosso prédio o melhor de sua cultura. Danças, artesanato, comidas típicas, artistas diversos, banda de música tocando retretas e dobrados, coisas esquecidas em nossos tempos, afinal somos a Casa da Memória. Tudo isso é feito nos jardins do Largo Vicente de Lemos, ao lado do nosso prédio, preparado e cuidado com toda dedicação para importantes eventos, como lançamento de livros, recitais, saraus etc. Brevemente instalaremos ali um CAFÉ, que terá a mesma função do saudoso e famoso Café São Luiz que foi um importante marco na história da nossa cidade.

No prédio principal, a Sala de Exposição Dorian Gray fica à disposição do município, por um período de até 30 dias, para exposição visual a ser escolhida pelo município: quadros, fotos, peças artesanais, etc.

O município de Ceará-Mirim foi o primeiro a fazer essa ocupação com muito sucesso. Na sala Dorian Gray foram expostas 22 telas, assinadas por artistas da terra, confeccionadas especialmente para esse evento, que contava a história do município por intermédio de seus antigos engenhos. Outros municípios já mantiveram tratativas com vistas a futuras ocupações.

Tivemos ainda exposições com igual sucesso de visitação: Telas do artista plástico Newton Navarro cedidas pelo escritório Holanda Advogados, Nossas Velhas Figuras com acervo próprio do IHGRN, telas de São Sebastião do acervo particular do artista plástico Iaperi Araújo e, atualmente, em exposição UM GABINETE DE CURIOSIDADES, pela primeira vez expondo pedras preciosas e semipreciosas do nosso solo e de Estados vizinhos. A curadoria é do técnico em geologia Pedro Simões Neto Segundo, que, num gesto de benevolência, doou todo o acervo ao IHGRN.

Outro programa que lançamos nesse mesmo ano, também com grande sucesso, foi a Quinta Cultural. Iniciamos como primeiro palestrante o engenheiro Manoel Negreiros, que fez uma importante palestra áudio/visual sobre a Ponte de Igapó, e que certamente será reprisada em momento oportuno, dada a sua importância histórica e cultural.

Promovemos, ainda, o lançamento fac-similar da revista publicada em 1917, sobre a Revolução Pernambucana ou Revolução dos Padres, como ficou conhecida a Revolução de 1817, que teve como principal herói o potiguar Padre Miguelinho. O lançamento da revista foi uma grande ousadia desta administração. Como não tínhamos recursos para o pagamento, solicitamos e conseguimos da gráfica, um prazo para realizar o pagamento, que o fizemos com a venda dos exemplares.

Para realizar o lançamento da revista seguinte, mais uma vez tivemos que nos reinventar. Fizemos um apelo aos sócios e conseguimos entre eles, 34 colaboradores que espontaneamente garantiram a publicação. A tiragem foi apenas de 400 exemplares.  Além do mais, essa publicação fazia parte do pactuado com o IPHAN para manter nosso compromisso de atender acordo judicial que fizemos com a Justiça Federal para que na próxima publicação constasse uma matéria sobre os 80 anos do IPHAN. Nessa publicação teríamos o compromisso de doar 100 exemplares para a Instituição federal. Essa nova edição foi lançada em comemoração aos 150 anos do grande historiador e mecenas, sócio efetivo do IHGRN, Dr. Manoel Dantas.

Com relação às emendas Parlamentares cito em primeiro lugar os parlamentares que, com boa vontade e respeito à cultura, destinaram emendas para o IHGRN no ano de 2017. São eles: Deputados Hermano Morais, Dison Lisboa, George Soares, José Dias, Tomba Farias, Álvaro Dias, Ricardo Motta e Marcia Maia. E as vereadoras, Eleika Bezerra e Júlia Arruda. Aqui ficam nossos agradecimentos a esses parlamentares.

Infelizmente poucas emendas se transformam efetivamente em recursos. Seguem as emendas que conseguimos transformá-las em recursos: a do deputado Hermano Morais R$ 40.000,00, a do deputado Ricardo Mota que ainda estamos para receber, e a emenda conjunta dos deputados: Dison Lisboa, George Soares, José Dias, Ricardo Motta e Tomba Farias, no valor de R$ 300.000,00, emenda do ano passado, que ainda aguardamos a liberação da primeira parcela no valor de R$ 100.000,00. Esses recursos serão destinados exclusivamente na digitalização e recuperação de obras raras e contratação de profissionais capacitados para essa finalidade.

Sabemos que esses recursos são insuficientes para todo o processo. Mas é o primeiro passo de uma longa caminhada rumo à total digitalização do nosso acervo que será, à medida que o trabalho for sendo realizado, posto à disposição da população por intermédio do nosso site.

Tal situação vai propiciar aos pesquisadores e estudiosos de nossa história o acesso ao nosso acervo de suas próprias residências, pela via de um simples computador.

Concluímos a atualização do nosso Estatuto com algumas modificações que ajudarão no melhoramento administrativo da Casa. Foi criado, a exemplo das Academias, o sistema de Cadeiras e cada sócio terá seu patrono. Definimos o número de sócios em no máximo de 200. Atualmente contamos com 150 sócios.

Neste ano de 2018 retornamos com a nossa programação das QUINTAS CULTURAIS, que são realizadas no nosso Salão Nobre a partir das 18 horas. Em março, tivemos Coronelismo e Cangaço no Rio Grande do Norte com o confrade Honório Medeiros e As mulheres intelectuais do Rio Grande do Norte, com a professora Diva Cunha, que hoje toma posse como Sócia Efetiva da Casa da Memória e na última quinta feira, Augusto Tavares de Lyra com o professor Joaquim Arrais. 

Para as próximas quintas culturais teremos: A História do Violão com o professor Claudio Galvão e o músico Eugênio Souza; Os Rochedos de São Pedro e São Paulo com o professor Jorge Lins; O Atol das Rocas com a bióloga Zélia Sena, Cascudo e o Símbolo Jurídico do Pelourinho com o jornalista e confrade Vicente Serejo; História das Constituições do Rio Grande do Norte com o professor Paulo Marques Souto; A Historia do Rio Grande do Norte com o conhecido professor Coquinho e outras que, oportunamente serão agendadas.

Sentimos a grande necessidade de levar o nome e as ações do IHGRN a todos os municípios do nosso Estado, afinal, como já frisei, a nossa Instituição é do Rio Grande do Norte. Para isso criamos o programa de Interiorização e o dividimos em duas etapas. A primeira constou na divisão do Estado em 6 regiões: Agreste Litoral Sul, Potengi, Trairi, Seridó, Alto Oeste  e Sertão do Apodi. Para cada região foi nomeado um Assessor Gerencial, que se reportará diretamente à Presidência. Esse assessor tem a função de divulgar nossas ações e publicação junto às Secretarias de Educação dos municípios por ele jurisdicionados. A segunda etapa será A CARAVANA do IHGRN VISITA SEU MUNICÍPIO.

Essa caravana se deslocará até o município, que for solicitado pelo gestor, ocasião em que “ocuparemos” culturalmente aquele município, com programação previamente acertada. O primeiro município a ser visitado com a CARAVANA, é o município de São Miguel, distante 480 quilômetros de nossa cidade. O prefeito Gaudêncio Torquato, que também toma posse hoje como Sócio Efetivo da nossa Instituição, foi o primeiro a nos procurar com essa finalidade. Portanto, mesmo com a distância que separa nossos municípios, não tenham dúvidas que estaremos presentes em todos eles, em que a CARAVANA seja solicitada.

Dentro do espírito de interiorização, estamos até o mês de julho próximo, lançando a revista número 97 que dissertará sobre os municípios do RN - Esse numero contemplará os primeiros 50 municípios. Foram escolhidas pessoas habilitadas para escreverem um pequeno texto de 3 laudas sobre esses município. Posteriormente lançaremos o segundo número, com mais cinquenta unidades municipais e a terceira com os outros 67 restantes, completando assim todos os municípios do nosso Estado. Após o lançamento da última revista, reuniremos todos os textos em um livro que será publicado e distribuído em todas as Secretarias Municipais de Educação.

Para encerrar gostaria de parabenizar a fantástica equipe de diretores, assessores e funcionários que a cada dia se esmeram para fazer desta Instituição, uma das mais importantes e profícuas do nosso país. E não se enganem, vamos conseguir antes mesmo do que esperávamos. No meu discurso de posse, em março de 2016, já prometia essa cruzada em favor do IHGRN. 

Se estamos conseguindo modificar e melhorar a Casa da Memória, é porque contamos com a forte amizade, compreensão e respeito, que sempre uniu os membros desta diretoria.


Muito obrigado.



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