quarta-feira, 11 de março de 2015

A PRODUÇÃO AÇUCAREIRA NO VALE DO CEARÁ-MIRIM


LAÉCIO FERNANDES MORAIS in Ceará-Mirim, Tradição, Engenho e Arte – 2005/SEBRAE, UFRN e Prefeitura Municipal de Ceará-Mirim.

A ocupação das terras brasileiras se deu com a implantação simultânea da cultura canavieira. A organização da atividade açucareira, em seus traços gerais, tinha como elemento central o engenho, composto pela fábrica, com maquinário para retirar o caldo da cana e utensílios para produzir o açúcar, e pela grande propriedade para composição dos canaviais. Tal empreendimento foi estruturado com base no trabalho escravo, sob comando do senhor de engenho.
No Rio Grande do Norte, o cultivo da cana de açúcar teve início no século XVII. Em Ceará-Mirim, a indústria açucareira foi organizada em meados do século XIX, quando, em 1843, Antonio Bento Viana instalou o Engenho Carnaubal, que funcionou com a primeira moenda horizontal ao longo do vale.

A produção açucareira no município tomou impulso a partir de 1894 e manteve-se próspera até 1920, período em que ali foram instalados mais de cinquenta engenhos. Na época Ceará-Mirim se destacava como principal produtor de açúcar no Rio Grande do Norte, sendo responsável por 60% da produção. Nessa fase, houve a iniciativa de se aperfeiçoar o processo produtivo no município, quando, em 22 de agosto de 1912, o então governador Alberto Maranhão assinou um contrato com Julius Von Sohsten, negociante estabelecido em Pernambuco, para instalação da primeira Usina Central.

Seu objetivo era centralizar e modernizar a produção açucareira, adequando-a às novas exigências do mercado internacional, incentivando uma mentalidade de caráter empresarial. O projeto “Usina Central” não foi realizado. No vale do Ceará-Mirim, a partir da década de 1920, foram implantadas três usinas de pequeno porte: a Guanabara, de propriedade de Antonio Basílio Dantas Ribeiro, a São Francisco, organizada no antigo engenho que pertenceu a Manuel Varela do Nascimento – Barão de Ceará-Mirim – e Ilha Bela, dos herdeiros de José Felix Varela.

Como consequência desse processo, a imagem político-social do senhor de engenho foi ofuscada pela figura do usineiro dinâmico, político e catalisador de influências. Diante da nova estrutura produtiva, muitos senhores, que não dispunham de recursos suficientes para modernizar suas unidades de produção, passaram à simples condição de fornecedores de cana-de-açúcar. A agroindústria se consolidava, alterando o cenário local. Muitos engenhos do município ficaram de “fogo morto”, pois muitos descendentes das tradicionais famílias ceará-mirinenses passaram a seguir carreira nos quadros do funcionalismo público.

A industrialização da atividade açucareira configurou uma nova realidade na produção, que atualmente é realizada pela Companhia Açucareira Vale do Ceará-Mirim, novo nome da antiga Usina São Francisco, dirigida por Geraldo José da Câmara Ferreira de Melo. Dos vários engenhos existentes no vale, apenas o Mucuripe, de propriedade de Ruy Pereira Júnior, continua em funcionamento. Sua estrutura, que era organizada para produzir o açúcar mascavo, tem hoje seu maquinário adaptado para a fabricação apenas de mel e rapadura.*

*Deve se levar em consideração que as informações contidas neste último parágrafo, são de 2005, ou seja, há 10 anos atrás, quando o livro foi publicado. Hoje a realidade é outra.

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