sábado, 3 de agosto de 2013

DE VOLTA AO PASSADO VII – ANTIGOS BLOCOS CARNAVALESCOS – Parte VII – A TRAGÉDIA DO BALDO


Os antigos blocos carnavalescos propiciaram a nossa cidade décadas de alegrias, não obstante a ocorrência de fatos que resultaram em profunda tristeza. Pelo menos dois acidentes com vitimas fatais marcaram de maneira trágica a história dos antigos blocos carnavalescos.

Um delas aconteceu na confluência das Ruas Jundiaí com a Avenida Hermes da Fonseca, onde uma garota com apenas 15 anos de idade, no vigor de sua juventude, teve sua vida bruscamente e brutalmente interrompida por um veículo desgovernado, quando caminhava com outros foliões ao lado da alegoria de seu bloco.

Outro acidente, de grande proporção, marcou para sempre a história dessas agremiações, e que de certa forma, contribuiu para por fim a tradição carnavalesca da Cidade de Natal.

Na madrugada de 25 de fevereiro de 1984, precisamente as 0h:50 minutos, o bloco Puxa Saco esteve no centro da maior tragédia acontecida durante o período carnavalesco em nossa cidade, inclusive com repercussão na imprensa internacional, dada a violência do fato e o número de mortos e feridos que produziu. Ficou conhecida como a “Tragédia do Baldo”, e ceifou 19 vidas, feriu gravemente 12 pessoas, e produziu ferimentos leves em dezenas de outros indivíduos.

Aluizio Farias Batista

Tudo começou quando o motorista de transporte coletivo da empresa Guanabara, Aluizio Farias Batista que fazia a linha Alecrim/Rocas, por volta das 20 horas, recebeu ordens para dirigir-se à Av. Interventor Mario Câmara - Avenida Seis -, próximo ao Mercado Público, pois iria transportar algumas agremiações carnavalescas, num total de 2 viagens, sendo uma para o bairro das Quintas e outra para a Cidade da Esperança. Ao final da segunda viagem recebeu nova solicitação para fazer mais uma com destino ao bairro das Rocas, transportando outra escola de samba. Reclamou do funcionário que coordenava a saída dos ônibus, ponderando que o combinado seriam apenas duas viagens, mesmo assim, concordou em fazer mais essa viagem.   

Partiu do bairro do Alecrim com o ônibus completamente lotado. Naquela ocasião transportava componentes da escola de samba “Malandros do Samba” que como já foi dito, dirigiam-se ao bairro das Rocas. Em dado momento, teve início uma discussão entre o motorista e alguns de seus componentes, que eufóricos, faziam algazarra dentro do ônibus. Devido ao tumulto, os passageiros talvez por brincadeira, começaram a acionar insistentemente a campainha do ônibus o que teria provocado à ira do motorista, e este passou a dirigir o veículo em desabalada carreira, desrespeitando, inclusive, todos os semáforos existentes em seu trajeto.

                                         Ônibus após o acidente

Relataram alguns ocupantes do ônibus, que diante das reclamações dos passageiros quanto à velocidade desenvolvida pelo veículo, o motorista teria dito: “se tiver que morrer, morre todo mundo”. Dai em diante, continuou em alta velocidade pela Rua Coronel Estevão e próximo do início da subida do Baldo, ao fazer uma curva em alta velocidade, o veículo bate a traseira em um fusca que estava estacionado de placa DN 9799-RN. A batida mudou a trajetória do ônibus que foi em direção ao bloco, que naquele momento iniciava a subida da Avenida Rio Brando.

Segundo me contou Ricardo Miranda, testemunha ocular da tragédia que naquela ocasião se encontrava em frente à casa de João Motta, na Avenida Rio Branco: “o veículo passou pelo meio do bloco atingindo pessoas num trecho de 86 metros, desde o início da subida da Avenida Rio Branco até o local que eu estava. Quando o ônibus parou, me aproximei na tentativa de ajudar alguém e me deparei com uma cena dantesca. Nunca consegui esquecer. Corpos despedaçados, misturavam-se a pessoas feridas que gritavam por socorro presos em baixo do coletivo.

Fusca envolvido no acidente

Os primeiro a serem atingidos foram os músicos que estavam na retaguarda. Em seguida, os componentes da agremiação e também vários foliões que naquela ocasião acompanhavam o bloco e até se misturavam a eles, pois não havia entre os componentes e os outros foliões nenhum tipo de isolamento”.
O Puxa-Saco era um bloco sem alegoria. Músicos que faziam parte da “Banda Galha”, muito conhecida em nossa capital, formavam a orquestra do bloco. Tocavam frevos e machinhas carnavalescas quando aconteceu a tragédia. O conhecido trombonista Lelé, irmão do saudoso Efrain, foi um dos músicos que perdeu a vida nesse acidente.

Quando o ônibus parou, diversos populares acorreram ao local, na tentativa de ajudar os feridos. Foi quando perceberam que o veículo começou a se movimentar de ré, pois não havia ninguém no seu comando. O motorista aproveitou a confusão para evadir-se do local. Na pressa, abandonou o veículo sem acionar o sistema de freios. A tragédia que já era enorme ameaçava tornar-se ainda maior. Nessa ocasião, vários populares se puseram na traseira do veículo na tentativa de impedir seu retorno e também ajudar a retirar alguns corpos e feridos que estavam sob o mesmo. Foi quando apareceu um desses heróis anônimos, enviado por Deus nessas ocasiões extremas.

Antonio Luiz de Araújo Guerra - Toinho Batata, que anteriormente tinha tentado segurar o motorista fujão, sobe no coletivo e consegue acionar o freio e em seguida engata uma macha, evitando assim um possível aumento do número de vítimas.  

Processos - 2 volumes

No dia seguinte à tragédia o Dr. Maurílio Pinto coordenador geral da Polícia Civil, determinou ao delegado Pedro Avelino Neto que investigasse o caso.
Em depoimento ao delegado, o motorista contou que após o acidente passou em casa, trocou de roupa e seguiu para Parnamirim, cidade que faz parte da grande Natal, refugiando-se na residência de um primo. Sobre o acidente contou uma versão totalmente diferente àquela relatada pelos passageiros do ônibus, e naturalmente se eximindo de qualquer culpa. Como não foi produzido o flagrante, após prestar depoimento Aluisio Farias Batista foi liberado pela polícia e desapareceu. Até hoje não se tem nenhuma notícia de seu paradeiro.

Em abril de 2009, 25 anos depois da tragédia o motorista Aluizio Farias Batista que foi denunciado pelo promotor José Maria Alves, foi julgado a revelia. O processo de nr. 001.000.723-0, com 02 volumes e 447 páginas, guarda vários depoimentos de testemunhas e também de pessoas que sobreviveram ao acidente.

O caso “Tragédia do Baldo”, foi apresentado no dia 8 de dezembro de 2005, no programa Linha Direta da Rede Globo de Televisão.

Prestamos nesta matéria uma homenagem a memória das pessoas que perderam suas preciosas vidas naquele lamentável acidente: Abimael Florêncio Bernardo, Acelúsio Borges Gomes, Astor dos Santos Dantas, Benedito Alves da Silva, Dinarte de Medeiros Mariz Neto, Esdras César da Silva, Francisco Alves da Silva, Jaecy Cabral de Oliveira, Jethe Nunes de Oliveira, José dos Santos Xavier, José Félix de Lima, José Luiz da Silva, Luiz Inácio da Silva, Milton Servita de Brito, Murilo Alberto Viana da Silva, Rizomar Correia dos Santos, Simone Banhos Teixeira, Walace Martins Gomes e Wellington Teófanes de Assis. Que Deus os guarde em Bom Lugar.                  

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