sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

RECORDANDO OS VENDEDORES AMBULANTES E SEUS PREGÕES MATINAIS - Parte II



          Havia também o vendedor de manguzás, ou munguzás, ou ainda “chá de burro”, como também era conhecido um mingau feito de milho com leite de coco, temperado com açúcar e canela, muito apreciado, fazia parte do desjejum de inúmeras famílias. Utilizava a mesma técnica do verdureiro, na condução do seu produto: nas extremidades do pau de galão, preso por cordas conduzia dois caldeirões de alumínio. Na mão, uma grande concha para servir a iguaria geralmente adquirida em generosas porções, para atender a toda a família, por ocasião do café da manhã, ou no jantar.
          Por cima da roupa vestia um avental branco já meio encardido pelo tempo e pelo uso, com dois grandes bolsos onde colocava o apurado. Na cabeça, um chapéu de pano evitava que algum indesejado cabelo, aterrissasse indevidamente no prado do freguês. Anunciava seu produto com um pregão um tanto esquisito: nunca falava o nome do que estava vendendo, gritava apenas “tem coco!”, e a freguesia já sabia que se tratava do gostoso manguzá.
          Na esquina da Rua Ulisses Caldas com a Avenida Deodoro, onde ainda existe o Colégio da Imaculada Conceição, fazia ponto alguns ambulantes. O mais famoso deles era Prego, um vendedor de poli – o picolé da época -, que atendia por esse apelido. Nunca soube o seu verdadeiro nome. Diziam que era agricultor e chegou a Natal retirante, fugindo de uma seca braba na região do Seridó, onde morava com mulher e filhos. Nunca mais voltou. Da família, não teve mais notícias. Apenas, algumas lembranças que se perderam no tempo, juntamente com o sofrimento vivenciado durante as constantes secas que enfrentou naquele longínquo sertão.
          Morava lá pros lados das Rocas, bairro pobre que se desenvolveu nas margens do Rio Potengi, onde comprava em uma pequena fabriqueta, os tais polis, que nada mais eram que uma mistura de água, essência e açúcar. Conheci-o desde a minha tenra idade, quando eu era aluno no Instituto Brasil, localizado na Rua José Pinto, das saudosas professoras Carmem Pedroza e Pina. Naquela época, ele já era um homem velho. Muito espirituoso, sempre estava fazendo algum gracejo para atrair a clientela. Um de seus preferidos era espremer sua enorme língua, que conseguia dobrá-la com incrível habilidade, entre suas gengivas, já que era desprovido de todos os dentes. Num instante, transformava sua cara magra e enrugada, numa careta engraçada e assustadora, que mais lembrava uma máscara carnavalesca.
          Ao seu lado, sempre encontrávamos o vendedor de roletes de cana. Sentado em um tamborete com texto de couro, trabalhava pacientemente com sua quicé – pequena faca -, transformando um pedaço de taboca de bambu, em um suporte para os roletes de cana. Abria a taboca em diversas hastes onde fixava em cada extremidade, um suculento rolete de cana caiana, formando uma espécie de cacho. Os maiores chegavam a ter até doze roletes, dependendo da largura da taboca. Lembro-me dos cachos, dispostos cuidadosamente em cima do tabuleiro forrado com um pano branco, com bordados coloridos nas extremidades, aguardando a cobiça da meninada. Quando terminava o dia colocava o tabuleiro na cabeça apoiado em uma rodilha de pano e retornava para casa apregoando os últimos cachos: rolete, rolete de cana caiana, ainda tem rolete de cana...    
          Por ocasião da sazonalidade, também se arranchavam naquela calçada, diversos vendedores: o de jabuticabas, de siriguelas, de umbus, que eram vendidos em litro, medida padrão, amplamente utilizada por diversos vendedores. Naquela época, o litro do óleo Benedito era o que mais se via, em virtude de sua larga utilização pelas classes mais pobres, além de ter sua fábrica na vizinha cidade de Macaíba. Aparecia também naquela esquina o vendedor de goiabas, mangas, sapoti e também o vendedor de milho assado, que utilizava um fogareiro feito com lata de querosene e as espigas ficavam expostas em cima de uma pequena grelha sobre o fogareiro.
          Já o vendedor de pitombas comercializava seu produto em cachos. O balaio ficava em cima de um tamborete e os cachos eram engordados, amarrando-se uns aos outros, com embira de fibra da bananeira. A exposição era feita sem muito critério. Os cachos ficavam amontoados no balaio a espera dos fregueses. Os compradores sempre procuravam os mais recheados, pois, não havia diferença de preço. Quando a fruta ainda não estava madura, ou como dizíamos, inchada, era possível degustar a polpa, que se desprendia do caroço com facilidade. Porém se as frutas já estivessem maduras, tornar-se-ia difícil a retirada da polpa, uma vez que ficavam bastante escorregadias, aumentando assim o risco de engoli-las juntamente com o caroço. Nesse caso, dependendo da quantidade de caroços ingeridos, o indivíduo inevitavelmente teria sérios problemas após a digestão.
          -continua na próxima quinta-feira-




Um comentário:

Marcos Antonio Ferreira da Silva disse...

Excelente artigo, me trouxe saudades dos antigos pequenos comerciantes e camelos, e da vida frenética, que era as feiras livres de Natal.