domingo, 31 de janeiro de 2010

A PRAIA DA PIPA DOS MEUS AVÓS

Caros amigos e leitores. Mais uma crônica sobre a Praia da Pipa e seus personagens.

Publicada em O JORNAL DE HOJE edição de 20.01.2010.

ORMUZ BARBALHO SIMONETTI (Presidente do Instituto Norte-Riograndense de Genealogia-INRG, membro da UBE-RN e do IHGRN)

PIPA, SAUDOSOS VERANISTAS - João Benjamin Simonetti - Joquinha

Algumas pessoas que viveram parte de suas vidas na Pipa deixaram registrados, para sempre, na memória oral da comunidade, fatos e situações vividas no dia-a-dia daquela praia tranqüila e preguiçosa do tempo dos meus avós. Uma dessas pessoas foi o meu tio-avô João Batista Simonetti, conhecido por gregos e troianos apenas por Joquinha.

Solteirão por opção e dizem que também, por decepção. Levava suas decisões até as últimas conseqüências. Quando moço, namorou com sua prima, e também minha tia-avó pelo lado materno, Beatriz Barbalho. Era a versão Goianinhense do clássico “A Bela e a Fera”. Conheci tio Joquinha, já com bastante idade. Era baixinho, feioso, caderudo, e de gênio terrível. Contrastando com ele, a beleza de tia Betariz chamava a atenção. Era tida e havida, por quantos a conheceu quando jovem, como a mais bela moça de toda aquela redondeza. O fato é que o namoro não deu certo, e opinioso como ele era, decidiu que não casaria com mais ninguém.

Em 1926 os Barbalho/Simonetti de Goianinha iniciavam o veraneio na praia da Pipa em virtude da destruição da antiga cidade de Tibau do Sul durante a cheia de 1924. Tio Joquinha por ter sido um dos primeiros veranistas, logo fez amizade com os nativos. Quando vinha pra Pipa se hospedava na casa de Sinha Vicência onde passava dias e até meses. Com a compra da casa de Maria Fidelis pelos seus sorinhos, os irmãos Nancy e Danilo Simonetti, ficou praticamente morando o ano inteiro nessa casa. Aproveitou esse tempo e adquiriu dois barcos de pesca. Comprou inicialmente o barco de nome Lima Freire e em seguida o Sucuri. Tempos depois vendeu o Sucuri e comprou o Veleiro.

Além dessa atividade, era louco por caçada. Na época, as matas da Pipa eram fartas de cutias, coelhos, jacús e até mesmo os ariscos veados campeiros. Por ser gordo e baixinho não tinha resistência para andar a pé e as caçadas eram realizadas sempre no lombo de uma mula, dizia orgulhoso, que por ele treinada para não se assustar quando do estampido de sua espingarda. Outros já afirmavam que era totalmente surda, não se sabendo se durante o “treinamento”, ou mesmo pela idade.

Nessas aventuras sempre tinha a companhia de seu primo Celso Lisboa, também um apreciador das caçadas, além de contar com a indispensável ajuda de nativos, especializados em rastreamento. Fazia também parte dessa comitiva alguns vira-latas, exímios caçadores, até mesmo pela necessidade de sobrevivência. Um dos melhores rastreadores daquelas bandas era José Bidium. Conheci-o pessoalmente e tive oportunidade de acompanhá-lo juntamente com Hilton Lisboa e Edinaldo Simonetti em uma caçada nos anos 70. O lendário Bidium além de pescador e agricultor, era conhecido por rastrear coelhos e cutias até mesmo em cima de folhas secas. Dizia que os melhores dias para aplicar sua técnica, eram quando dava uma chuvinha ligeira durante a madrugada. Isso facilitava o rastreamento dos animais, pois quando saíam de suas tocas, deixavam sobre as folhas secas, marcas de suas patas carimbadas com areias ainda úmidas. Quando não chovia, dava um jeito de aproveitava a umidade deixada pelo orvalho da madrugada.

Tio Joquinha, pelas suas condições físicas e principalmente com relação a sua estatura, evitava, a todo custo, durante uma caçada, descer do animal o que normalmente só acontecia quando retornava pra casa. Porém, se acontecesse alguma dificuldade intestinal, que o obrigasse a “ir para a terra”, a coisa ficava complicada. Dentro daquelas picadas estreitas onde se escondiam as melhores caças, não havia a ajuda da calçada altas da igreja ou dos alpendres que lhe ajudava a subir e descer, sem dificuldades, ao lombo da montaria. Mas se a tal necessidade acontecesse, depois de satisfeita, iniciava-se uma verdadeira operação de guerra para que aquela criatura, baixinha e desajeitada, retornasse sã e salva, ao lombo do animal.

Durante o tempo que viveu na Pipa, fez diversas amizades. Muito respeitado entre os nativos, foi compadre de vários deles, tendo apadrinhado um sem número de nativos. Orgulhava-se em dizer não ter idéia do número exato de afilhados. Todo mês de janeiro, durante a missa em homenagem ao padroeiro, lá estava ele a batizar outra leva de afilhados. Foi ele, que com poucos recursos e contando com a ajuda da mão de obra nativa, deu inicio a abertura da estrada que liga o distrito de Piau a Pipa. Sob seu comando muitos homens trabalharam no roço e destocamento do mato e na colocação de piçarro nos lugares onde a areia era mais frouxa e dificultava a passagem dos carros.

Contam os mais velhos, que em Goianinha, gostava de criar pássaros engaiolados. Certa vez, um desavisado gado de rua, resolveu transformar em refeição, um belo canário da terra, que era seu favorito. Depois de quebrar os ponteiros da gaiola feita com a resistente “barba de bode”, o felino comeu o canário, xodó do velho Joquinha. O pássaro, além de excelente cantador, também era um brigador feroz, quando disputava uma fêmea nas rinhas improvisadas à sombra dos “fícus benjamin”, que ornamentavam as ruas de Goianinha dos anos 50 e 60, ou da velha mangubeiras ao lado da igreja.
Inconformado com a perda do seu canário resolveu se vingar. Preparou uma arapuca para o felino que retornou no dia seguinte, na esperança de conseguir mais uma fácil refeição. Depois de aprisionado, o genioso Joquinha pegou o pobre animal pela cabeça e sem nenhuma piedade, ralou nas pedras da calçada, o focinho do infeliz, enquanto repetia... Nunca mais você vai comer passarinho de ninguém! Em seguida, soltou o pobre animal que nunca mais apareceu nas redondezas.

Fazia questão de exaltar sua condição de ateu mas nunca recusou o apadrinhamento de um pagão. Em 1969, encontrava-se hospedado, no Hospital da Polícia, tratando de um câncer de intestino. Certo dia foi avisado que já se encontrava naquele hospital, o então governador do Estado Monsenhor Walfredo Gurgel, muito seu amigo, que sabendo de sua enfermidade, tinha vindo lhe fazer uma visita. Nesse dia ele estava passando por uma crise terrível com dores insuportáveis. Mesmo assim, não teve dúvidas quando sua sobrinha Zilda Simonetti aparece na porta do quarto muito nervosa e com olhos muito arregalados lhe informa: tio Joquinha, o Governador veio lhe visitar! . . . E ele, em baixo de todo aquele sofrimento sentencia: diga a ele que se vier como amigo ou político, permito a visita. Mas, se vier como PADRE, dê meia volta e vá embora.

Assim era tio Joquinha, não mudou de opinião nem na hora da morte. Expressou sua última vontade com o seguinte pedido: nasci só e passei toda minha vida só. Portanto não quero companhia depois de morto. Quando eu morrer, mande lacrar meu tumulo para que nele, ninguém mais seja enterrado. E seu desejo foi cumprido à risca.

Pipa, janeiro de 2010.

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