domingo, 21 de junho de 2009

A PRAIA DA PIPA DOS MEUS AVÓS - MATÉRIA PUBLICADA NA TRIBUNA DO NORTE EM 21.06.2009

ORMUZ BARBALHO SIMONETTI (Genealogista e historiador)

PIPA, saudosos veranistas

São muitas as estórias que podemos contar sobre a praia da Pipa nos anos 80. Nessa época o turismo ainda era pouco praticado em virtude da ausência de hotéis, e as poucas pousadas que começavam a surgir, mal atendiam ao turismo regional. Uma dessas estórias teve como protagonistas o meu saudoso primo João Primênio Barbalho Simonetti.

Vanvão, como era carinhosamente chamado pelos mais íntimos, era uma pessoa desprovida de qualquer vaidade. Era amigo de todas as horas, respeitado e admirado por aqueles que o conheciam, principalmente no judiciário, onde exerceu por vários anos o cargo de Juiz de Direito. Ele sempre estava bem humorado e disposto a colaborar na solução dos problemas de quem o procurasse.

Numa dessas ensolaradas manhãs de janeiro, estava ele, como era de costume, no prédio anexo a sua casa, aguardando as primeiras visitas. Esse anexo era uma estrutura com alguns apartamentos, utilizados pelos filhos e convidados nas épocas de veraneio. Entre a casa principal e o anexo, existia uma rua sem saída que terminava no mar.

Batia papo com seu fiel funcionário “Totinha” e sorvia sem pressa, em pequenos goles, o seu whisky preferido. Sentado debaixo do sapotizeiro, aguardava pacientemente os amigos e parentes, fiéis freqüentadores daquele bate-papo. A espera não seria grande, pois a churrasqueira pilotada por Totinha e bem recheada, já começava a emitir os primeiros aromas das picanhas, maminhas e linguiças bem assadas, que certamente logo chegariam às atentas narinas da vizinhança.

Foi nesse cenário que, de repente, aparece aquele carro. Vinha entrando na rua sem saída e não podendo prosseguir, pára bem em frente à porteira da casa anexa. Olha em direção a João na tentativa de obter alguma informação e vê tudo o que estava procurando: mesa, cadeiras, whisky e churrasqueira acesa. Não teve dúvidas! Levantou o polegar da mão esquerda em sinal de positivo e foi imediatamente correspondido, com o mesmo sinal, pelo anfitrião.

Estava estabelecido o contato. . . – Tem vaga? Perguntou já descendo do carro. – Sim! . . . Pode descer e fique à vontade. Tomou assento nas cadeiras que rodeavam a mesa junto com a esposa e os filhos. As crianças, logo trataram de explorar o lugar bastante amplo, com varias fruteiras e um gostoso banho de bica. O nosso visitante indaga mais uma vez. . . – Tem refrigerante para as crianças? João respondeu: – Sim! Vou mandar providenciar. E Totinha, ainda meio confuso, corre pra buscar os refrigerantes. Já acomodado, continua a conversa: – Lugar bonito esse aqui! Pensei de não encontrar vagas. – Pois é, você teve sorte, devolveu João, com a tranqüilidade que lhe era peculiar. Totinha, agora já refeito, tentava entender aquela situação.

A cada pergunta respondida por João, seu funcionário arregalava os olhos demonstrando com isso toda sua preocupação. Nessa ocasião, começam a chegar os parentes, atraídos pelo cheirinho do churrasco que a essa altura, já se espalhava pela redondeza, levado pelos ventos. Papo vai, papo vem e nosso inocente visitante, que já havia sido apresentado a todos como um “um amigo”, sentia-se com o passar das horas, cada vez mais à vontade. Conversavam animadamente, e entre uma dose e outra de whisky, abocanhava generosos pedaços de churrasco.

Lá pelo cair da tarde, o visitante se dirige a João e visivelmente contrariado, anuncia que está indo embora, pois a esposa resolvera dormir em Natal. Entre abraços e agradecimentos pela boa acolhida e naquele dia maravilhoso, solicita “a conta”. João, meio sem jeito diz baixinho para o interlocutor, evitando que as outras pessoas escutassem: – Você não me deve nada amigo, aqui é a minha residência. Não precisa dizer com que cara o pobre homem ficou depois de ouvir o que ele jamais esperava. Pediu mil desculpas e queria, a todo custo, pagar uma conta que não sabia em quanto importava. Demovido da idéia, agradeceu novamente, despediu-se e foi embora.

Essa personalidade de João foi forjada ainda criança quando morava com seus pais no engenho Mourisco, em Goianinha. Certa vez, quando contava entre 6 e 7 anos de idade, resolveu ir a casa de um amigo, filho de um dos moradores de seu pai, convidá-lo para brincar. Do lado de fora da casa, gritou pelo amigo que prontamente respondeu dizendo não podia sair de casa, pois estava nu. A mãe havia ido para o rio lavar roupa e como não tinha outra pra vestir, aguardava o seu regresso, para então sair de casa. Sem pensar duas vezes, João tirou a roupa que vestia e deu ao amigo.

Retornando pra casa completamente nu. Tia Isaura vendo aquela situação lhe perguntou: - Menino, cadê sua roupa? Depois de relatar o acontecido, a bondosa tia Isaura disse que ele deveria ter pedido a ela uma roupa para dar ao amigo, pois aquela era uma roupa nova. Escutando o diálogo, tio David atalhou dizendo: - Isaura, depois de uma atitude como essa nada podemos questionar.

João Primênio era assim mesmo. Tranquilo, solidário, amigo, sempre com uma palavra de carinho e conforto para todos. Tive o prazer de conviver com ele e constatar todas essas qualidades. Que Deus o tenha em um bom lugar.

Um comentário:

Pri Simonetti disse...

Painho, este foi um dos relatos que eu mais gostei.
Parabéns!
Beijos.
Te amo.
Pri