terça-feira, 22 de julho de 2008

POR QUE ESCREVI A GENEALOGIA?

O Início


“Outrora havia orgulho em fazer-se viver a vida dos dias idos, mas presentemente sente-se o pudor, respeito, timidez, acanhamento, em recordar o que desapareceu”

(Luís da Câmara Cascudo)

Foi, por assim dizer, quase por acaso.
Nos finais de semana, na Praia da Pipa, assuntando relembranças com meu primo David Simonetti Barbalho, quase sempre falávamos sobre antigas fotos de família. Dizíamos que coisas de preciosa memória poderiam se perder pelo simples descuido com as ditas “velharias”. Até que pensamos em um jeito de conservá-las, gravando-as em CD, para que pudéssemos, posteriormente, compartilhá-las com parentes e afins interessados nesse resgate.
Das histórias vividas por finados parentes, as quais meu tio Paulo Barbalho muito lembrava. E sempre, junto a amigos e sobrinhos, nos veraneios na praia de Pipa ou nos serões na fazenda Bem Fica, gostava de contá-las, entre boas gargalhadas. Outro primo, Luiz Grillo, exímio contador de “anedotas”, também sabia de muitos “causos” hilários passados com tios e bisavós. Além disso, ambos sempre estavam prontos a destrinchar parentescos, esclarecendo quem era tataravô ou sobrinho-bisneto de alguém. Mas esses dois personagens também já se foram... E assim víamos, a cada ano, perigando ficar mais pobre a nossa memória familiar.
Então me perguntava: – e as fotos?... Aquelas velhas “photografias”, tantas vezes faladas de cuja intenção de copiá-las sempre ficava na conversa de momento. Depois do bate-papo, tudo esquecido, até que noutro encontro, lá estávamos nós refazendo os mesmos planos...
Diante disso, percebi a necessidade de tomar alguma atitude mais efetiva, além dos passageiros bons propósitos. Algo devia acontecer, para que tais relíquias não mais permanecessem em velhos álbuns deixados nos armários ou mesmo esquecidas em baús nos quartos-de-despejo. Verdadeiras preciosidades que fazem parte daqueles guardados os quais nunca temos tempo para examinar e que ficam apenas esperando um momento de insensível displicência para serem descartados.
Lembro-me bem de tia Isaura – Isaura Barbalho Simonetti – que na sua incomparável bondade e desprendimento, sem se dar conta de sua atitude, franqueava aos pequenos sobrinhos e netos, quando estavam em sua casa, duas caixas de sapatos cheias de antigas fotos de família. Estas fotos serviam de brinquedo para as crianças. Eram manipuladas, riscadas, recortadas e retornavam às caixas, quase sempre, em menor quantidade.
Neste trabalho, pretendia propiciar a toda parentela franco acesso ao material fotográfico que às vezes somente alguém possuía, mas que seria também muito interessante para alguns outros. Com isso, além da gostosa partilha de saudades, ocorreria uma redistribuição de memórias; pois, nessas fotografias, além das histórias pessoais, cada um guardava um pouco da história de nossa família. Ao mesmo tempo, solicitava a colaboração no sentido de me emprestarem suas velhas fotos, para que fossem devidamente copiadas. Escutava, algumas vezes, quando da devolução do material: – Meu Deus! Se você não tivesse me pedido estes retratos, acho que morreria sem vê-los novamente.
As fotos que começaram a me chegar às mãos eram por demais interessantes, pois retratavam diversas épocas e fases de vida, nossos antepassados e seus familiares. Tratava-se de instantâneos do cotidiano, das horas solenes ou ocasiões festivas de toda aquela nossa gente, dos mais ilustres aos menos lembrados, nos ontens e anteontens da velha Goianinha. Além disso, algumas dessas fotos, pelas pessoas, lugares ou eventos mostrados, apresentam valor documental, pois também registram aspectos da história do município.
Tudo isso restava disperso, desorganizado, por vezes, quase descuidado. Juntá-las então, seria o grande desafio. Eu sabia das dificuldades a enfrentar na “garimpagem” desse material. Mas não me deixei abater diante dos primeiros impasses. O lema da tarefa seria “insistir sempre!”. E assim foi feito. Iniciei com as fotos que Dona Cirene, minha mãe, guardava em casa, numa bolsa tão velha que certamente seria bem mais antiga que as fotos nela contidas. Em seguida, fui falando deste projeto aos parentes mais próximos.
Quando já contava meio milhar de fotos, comecei a perceber melhor a grandeza daquela tarefa e a riqueza do seu inusitado potencial. Além disso, ao observá-las cuidadosamente, viajava para um tempo não vivido, muitas vezes era como se tentasse, em pensamento, transportar-me para a época retratada. Vinha então uma grata sensação, ao me imaginar convivendo com aquelas pessoas ou antevendo-as diante dos costumes e novidades de hoje. E procurava detalhar informações sobre aquelas figuras que mais impressão me causavam; por vezes, encontrando certa dificuldade em situar o grau de parentesco com algum desses antecessores. Foi então que me ocorreu fazer algo mais do que simplesmente juntar esse material. Poderia também classificá-lo e tentar construir a genealogia dos troncos que originaram as famílias de Goianinha.
Consciente do que me esperava, mas ainda sem exata noção do que enfrentaria, fui à luta. Iniciei pela minha própria unidade familiar, com o Dr. Arnaldo Barbalho Simonetti, casado em primeiras núpcias com sua prima legítima Inaldy Barbalho, filha mais velha de seu tio Odilon Barbalho, e gerando o único filho desta, Dante Barbalho Simonetti – que, por sua vez, desposou uma prima, Azelma Barbalho. Com o falecimento da primeira esposa, Dr. Arnaldo casou-se com sua cunhada mais nova, Cirene Barbalho; tiveram filhos e foram exemplo de casal feliz durante todo tempo em que ele viveu. Portanto, Dante Simonetti, além de meio-irmão, é também primo-irmão de Sônia, Marcelo, Arnaldo Filho, Simone e eu, que somos filhos de sua tia e madrasta Cirene. Dessa forma ­­– como quase tem se tornado regra nas antigas pequenas comunidades – pode-se exemplificar de como algumas famílias goianinhenses passaram por situações endogâmicas. Neste caso, com respeito às famílias Barbalho e Simonetti; fenômeno que dificultou e confundiu o levantamento genealógico.
Em contraponto a esta situação, outro fato dificultou o levantamento genealógico das pessoas nascidas antes do século XX. Porque somente a partir de 1916, com a introdução do Código Civil, é que se estabeleceram regras para transmissão dos sobrenomes.
É difícil descrever a emoção que sentia nos instantes quando, entre os vários nomes pesquisados nas páginas amareladas de velhos escritos, descobria laços familiares com pessoas que até então nem imaginava existir. Ou mesmo quando escutava, pela primeira vez, a voz daquele parente que, localizado a grande distância, também se emocionava com a nossa descoberta. Foi o que aconteceu ao falar pela primeira vez com a Sra. Azenati, filha de Maria Simonetti e neta de Maria dos Anjos – pessoa que manteve um relacionamento com meu avô Benjamin Simonetti, então solteiro, e que deixou uma bonita família em Santos/SP, para onde partira ainda jovem. Fato esse, totalmente desconhecido pela nossa família, mas felizmente descoberto através dessa incansável pesquisa genealógica.
É de grande valia na formação de um cidadão, o conhecimento de suas raízes, através de seus antepassados. De quem descendemos? A quem debitar certo traço físico ou dom intelectual? Quais eram seus meios de vida? Que fato marcante ocorreu com esse ou aquele indivíduo? Como se comportaram diante de determinadas situações? O que nos deixaram na forma de ditos ou refrões familiares? Que cargos importantes ocuparam durante suas vidas? Que contribuições deram ao nosso Estado ou País? Que exemplos legaram aos seus descendentes?... Foram perguntas como estas que me estimularam a buscar respostas. Através desse trabalho, para trazer à luz todos esses registros passíveis de serem descritos, além de outros fatos relevantes que relatarei num segundo momento.
O trabalho de levantamento genealógico envolve muita pesquisa e, principalmente, requer grande dose de paciência e determinação. As dificuldades de coletar informações das pessoas que as detêm, infelizmente, estavam sempre presentes. Ao longo desse período de trabalho exaustivo e quase cotidiano, tive a felicidade de encontrar pessoas que se desdobraram para oferecer o melhor dos seus conhecimentos – graças a Deus, foram maioria, diante da triste indiferença de alguns poucos. A esses colaboradores, pela gentil sensibilidade, todo meu apreço, respeito e eterna gratidão.
Erros ou lacunas, certamente, podem existir. Porém, procurei por válidas maneiras, minimizá-los ao máximo, usando para isso todos os recursos disponíveis. Mas, um trabalho dessa monta que dependeu na maioria das vezes de informações verbais ditadas de memória, a possibilidade de erro sempre existirá, principalmente, quando se trata de listar mais de doze mil almas... Se por acaso algum indivíduo deixou de aparecer neste trabalho, foi porque não deparei com dados concretos de sua existência. Estou, portanto, aberto a discutir qualquer correção ou sugestão, no sentido de reparar alguma falha ou omissão eventualmente detectada.
Espero haver contribuído de alguma maneira para que essas pessoas não sejam totalmente esquecidas pelos seus descendentes, e que tal memória seja sempre mantida e louvada.
No instante em que publico este trabalho, sinto que cumpri a nobre missão de informar. Além de “imobilizar para o futuro nomes familiares que o olvido, inevitavelmente, guardaria para sempre”.

O Autor

2 comentários:

Anibal disse...

Meu caro Ormuz,

Parabéns pela dedicação, esforço e competência. Estaremos no lançamento de seu livro que é a história de todos nós.
um fraternal abraço,
Aníbal Barbalho

Mag disse...

MENSAGEM DE AGRADECIMENTO
Ao amigo Ormuz,
A Família Fontoura agradece por ter escrito o livro "Genealogia" Dos troncos familiares de Goianinha-RN, pela qual também fazemos parte dessa história. Toda jornada exige algo de nós. è preciso força para começar com entusiasmo e vigor, assim como a nota de uma canção que vai se juntando a outra formando toda ela.
Nada somos sem histórias, sem passados, sem dores, sem alegrias, nada seríamos sem um e outros em nossos caminhos, nada somos sem a família, nada somos sem Deus nos corações.
Parabéns Ormuz pelo brilhante trabalho.
Magnalda Fontoura e família