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segunda-feira, 4 de junho de 2012
sexta-feira, 1 de junho de 2012
O MEDO PODE ENTRAR
Coisa medonha, Senhor
Redator, é viver sem sossego. Quanto mais se o cristão escolheu para viver numa
vila antiga, sem riqueza e sem soberba. E como se o medo
nascesse dos becos e das ruas quietas e saísse andando como um fantasma do mal. É assim que vive o povo da Redinha nesses tempos de danações. É o que resta aos que moram nesta cidade tão bonita, entre o
rio, o mar e os morros, numa sucessão de notícias que hoje fazem deste lugar do mundo um assombrado exercício de sobrevivência.
Sou de outros
tempos. De quando nas manhãs e tardes antigas seu povo pescava e pastorava as nuvens. Os alpendres eram uma extensão natural das casas, uma sombra doce que espantava o
mormaço, e nas latadas as conversas ajudavam a viver. De uns anos hoje adocicados
na lembrança com a fartura de peixes - das tainhas nas redes e dos xaréus que vinham ainda vivos
no tresmalho do arrastão. A vida não chegava pela
tevê, para fazer a paráfrase do verso
bandeiriano, mas era vivida como se fosse poesia.
Esta vila, Senhor Redator, que
recebeu Mário de Andrade e
Câmara Cascudo na velha casa de Barôncio Guerra, numa peixada homérica, servida com um zambê de côco dançado na beira da praia, teve
verões imensos. Aqui o
poeta Henrique Castriciano renovava os pulmões cheios de cavernas que anunciavam
a morte com sua tuberculose. E o professor Antônio Soares, de olhos
abertos para o céu e alma delirante, viu duas luas, um mistério tão grande que nem a Nasa, com toda ciência, conseguiu ver.
Ora, quem, senão uma vila
assim, com o riso franco
da vida sem perigo, por acaso teria um time com o nome de Morte Futebol Clube, e com a presença de um jovem craque
chamado Lenine Pinto? E a gargalhada de Dalila que para Berilo Wanderley, e como aquelas irmãs Boninas, lá de Goianínha, eram corredores
de ternura? E Cutruca, personagem de Newton Navarro
que vencia
suas ruas de areias alvas como as dunas cantando canções que ninguém entendia, como se viver fosse um jeito de amar os
dias?
E a Redinha
que veio depois, e viveu em nós na sua última geração
boêmia, como se fosse uma ilha a abrigar os deserdados da tristeza, de tão
felizes? E as suas casas de janelas acesas pelo sol das
manhãs? E as tardes, abertas para
que a lua e as estrelas
entrassem sem pedir licença? E a cachaça que ainda vi
brilhando nas mesas,
entre volutas de cajus vermelhos e abacaxis dourados, resplandecendo nos olhos mornos dos seus últimos
boêmios? E a vida que, de tão intima, não se sabia se um dia acabava?
O medo hoje mora nestas
ruas. Os dias de chuva não afagam com ternura de mãos aveludadas o rosto da gente. É perigoso, muito perigoso, tomar
banho de chuva no beiral dos seus
telhados. É arriscado andar nos
becos desertos, bares e lugares. É desaconselhável
abrir as portas e esperar a noite chegar. Foi-se o tempo, diria
mesmo, que era bonito repetir o verso do poema de Mário da Silva Brito e
para abrir as janelas para encher a casa de nuvens. Como, Senhor Redator, se o medo
pode entrar?
Publicado hoje na coluna Cena Urbana do jornalista Vicente Serejo
quarta-feira, 30 de maio de 2012
O EXÍLIO DE PALUMBO
PUBLICADO NO JORNAL DE HOJE, NA COLUNA "CENA URBANA" DO JORNALISTA VICENTE SEREJO.
Giácomo Palumbo
Outro dia, não faz muito tempo, andei reclamando aqui dos antigos feriados que encontrei num velho Alrnanaque de Lembranças, de
1929, e que há anos cochila nas prateleiras deste pequeno armazém de livros velhos e de ocasião. Figuras e datas abandonadas por esta cidade sem memória que esquece seu próprio passado nas gavetas empoeiradas dos arquivos. Menos de uma semana depois, fui encontrar nas páginas deste JH o artigo de Ormuz Barbalho Simonetti sobre o exílio do arquiteto Giácomo Palumbo.
Digo exílio, Senhor Redator, para não ser indelicado com os viventes daquela ruela. Também moro numa rua assim, pequena e estreita, mas não há nada em mim que justifique uma avenida. Já com
Palumbo aquela ruela próxima ao
cruzamento da Presidente Bandeira com São José, é um exílio do seu Plano de Sistematização. Nem
um lugar em Tirol ou Petrópolis a cidade encontrou para homenageá-lo com dignidade. Tem apenas seu nome numa placa de rua onde ninguém sabe quem ele é e nem o que fez.
Não preciso
lembrar sua história
toda contada que foi por Ormuz Barbalho Simonetti, mas destaco um detalhe que ele ressaltou e que fixa com todos os traços e cores o retrato trágico de uma cidade ainda tão desmemoriada. Conta nosso historiador dos iluminados verões de Pipa que um dia, no ano da graça de 1972, o chefe
do arquivo geral da Prefeitura, certamente aborrecido com tanto papel velho, fez oficio ao então secretário do planejamento solicitando permissão para incinerar o que julgava imprestável e inútil.
Contam que veio a resposta concordando, e assim foi feito. Imagino as chamas devorando tudo, os processos, mapas, fotografias, certidões e relatórios. Era a própria história da cidade crepitando nos olhos do burocrata ordeiro e exemplar. Nada restou, a não ser um arquivo limpo e varrido, inútil por não saber contar, com documentos históricos, a evolução urbana da cidade. E de Palumbo, a placa numa rua longe do mundo que ele criou, sem inscrição nenhuma. Num exílio injusto, sem glória e sem consagração.
Foi assim com o sítio histórico da Rampa, hoje partido ao meio, para no seu chão histórico agora se erguer uma
construção modernosa, a sede do III Distrito Naval. E como se já não bastassem as grandes áreas militares que cercam o perímetro urbano da cidade. A então governadora Wilma de Faria consentiu sob o
silêncio da Fundação José Augusto, alegando que a representação
local do· Patrimônio Histórico
tombou apenas a sede da Rampa, na sua clara demonstração de
insensibilidade e, mais que isto, incultura.
Tem razão Ormuz Barbalho Simonetti quando protesta diante do espaço que a cidade reservou a um dos planejadores do seu desenvolvimento urbano. Não tem lima herma, uma estátua, um monumento, um pequeno jardim, uma rua, uma avenida, nada. Pior: a área de Tirol e Petrópolis sequer foi tombada. Seus canteiros largos estão sendo rasgados para estacionamentos. E ali na Afonso Perna com a Jundiaí um gênio inventou a bestialidade de um contra-fluxo, sinal perfeito da mentalidade modernosa que nos cerca.
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