domingo, 6 de novembro de 2011

ACTA DIURNA

Muito bem, Ormuz! Parabéns. Você mais um tento em prol da divulgação da nossa cultura! Continuo defendendo que a produção intelectual de funcionário público estadual em órgão público do Estado do RN (A República, jornal extinto) não cabe direitos autorais.

Abs.

Luiz Gonzaga Cortez.

ACTA DIURNA

Parabéns, Parabéns e Parabéns! Ormuz, V. acertou em cheio! "Não é possível crer-se" em tamanha leveza de estilo, nesta e nessas Actas Diurnas, do Câmara Cascudo. Elas são, verdadeiramente, patrimônio inusitado desta Cidade do Natal!

Aguardo "cartas", aguardo Actas!

Tenha um bom domingo! (Junto dos seus, aqueles que lhe são muito queridos)

Abraços,

ENYLDO EGITO

ACTA DIURNA

Caro Ormuz.

Só você pra resgatar esssas memórias adormecidas pelo tempo.
Esse galo faz parte das minhas lembranças de infancia
e eu sempre olhava pra ele, imaginando mil histórias
que poderiam cercar a sua própria história.

Um abraço do amigo
Zezé

ACTA DIURNA

Nobre Ormuz,
Tenho recebido os seus e-mail's a propósito do que você escreve pelo que agradeço penhoradamente a gentileza.
Quanto ao seu livro sobre Pipa, eu diria que se trata de um sucesso anunciado.
Mando-lhe, nesta oportunidade, o último conto por mim produzido, desta feita, montado exclusivamente no Estado do RN.
Um abraço de seu amigo e admirador.
Djaci Ferreira de Souza.

ACTA DIURNA

Ormuz vc.está fazendo um serviço de utilidade pública de alta envergadura
intelectual e cultural. Revivendo a história e LCC. Que o galo do presépio do
Menino Deus cante em seu louvor Ormuz - anunciando forças para vc. continuar
com a vocação para a pesquisa.
Parabéns
Velho Maux

ACTA DIURNA - A RESSUSCITADA DO CUNHAÚ


FOTO GOOGLE - IMÁGEM PARA ILUSTRAÇÃO

Antônio de Albuquerque Maranhão Cavalcanti, senhor de "Tamatanduba" e da "Ilha Maranhão", no Município de Canguaretama no Rio Grande do Norte filho de André d'Al-buquerque Maranhão, Capitão-Mór de Ordenanças de Vila Flor e Arês, e de d. Antônia Josefa, irmã de André d'Albuquerque Maranhão senhor de Cunhaú e Chefe da revolução republicana de 1817, casou com sua prima, d. Joana, filha do tenente-coronel José Inácio d'Albuquerque Maranhão e de d. Luzia Antônia, irmã de sua mãe.

Era Comendador da Ordem de Cristo, e tenente-coronel da Guarda Nacional, no tempo em que os oficiais andavam fardados, de grande gala,nas missas serenas e dominicais. O famoso Brigadeiro Dendé Arcoverde era seu cunhado. O Comendador hospedou dom João da Purificação Marques Perdigão, Bispo de Olinda. Homem rico, imponente, faustoso, mantinha a herança senho¬rial de bem receber e melhor tratar. No biênio de 1858-59 fora deputado provincial no Rio Grande do Norte e suplente de Deputado Geral na décima legislatura, 1857/60. O Deputado Geral era o dr. Amara Carneiro Bezerra Cavalcanti, casado com uma irmã de sua mulher.

Teve quatro filhos. Três mulheres e um homem. Foram: - Antônio, bacharel em 1854, deputado norte-rio-grandense na Assembléia Provincial de 1856-57, falecido, creio, antes do Pai; Luzia Antonia, casada com João Nepomuceno d'Albuquerque Maranhão; Emília, casada com Afonso Leopoldo d' Albuquerque Maranhão e Maria Umbelina, que se casou com o capitão Anacleto José de Matos.

FOTO GOOGLE - BARRA DO CUNHAÚ

O Comendador fez seu testamento a 5 de março de 1862. Morreu a 5 de setembro de 1865, na freguesia de Goia¬ninha. Foi sepultado de casaca, com solenidade, indo a "mú¬sica" de São José de Mipibu para as cerimônias religiosas da Missa de Sétimo Dia.
Esse Comendador, altivo e nobre, cioso do sangue secular, passaria à História oral da região, na lenda da "RESSUSCITADA DE CUNHAÚ".
Sua filha, dona Maria Umbelina casou com Anacleto José de Matos, abastado, dispondo de eleitores, autoridade policial, amigo da "gens" Maranhão. O casamento foi festivo. Anacleto temido pela sua energia, ficava, desta forma, vinculado a uma das famílias mais ilustres do norte brasileiro.

Um ano depois do casamento, 1858, dona Maria Um¬belina morria. Complicações de parto, embora o filho sobre¬vivesse, sadio, O falecimento enlutou toda a redondeza. Veio gente dos municípios vizinhos. Voltou a "música" de S. José de Mipibu para executar trechos fúnebres e comovedores. Frei Serafim de Catania, pregando então em Vila Flor, dirigiu o serviço religioso, acompanhado de imenso povo, contrito.
Sepultaram Dona Maria Umbelina na Capela de Cunhaú junto à porta que dá para a sacristia. A família ficou inconsolável. A defunta pouco saíra da mocidade mais prometedora de encantos.

As Missas, do Sétimo e Trigésimo Dias, foram concorridíssimas. Pregou Frei Serafim de Catania, o Capuchinho prestigioso pela dedicação sem par. Os anos rolaram sem rasto naquela doce solidão tran¬quila ...
Em 1862, na capital da Província da Paraíba numa "pensão" suspeita, adoeceu de febre palúdica uma mulher, dessas de vida alegre, que é a mais triste das vidas. Chamara um médico. O homem compareceu mergulhou na escura camarinha onde a mulher tiritava de frio incontido, examinou-a, voltando à sala para receitar. Perto, interessada pela saúde da companheira, a "dona" esperava os conselhos médicos.
Finalmente, o doutor assinou o receituário, enxugou-o, e disse numa entonação grave:

- Se eu não tivesse assistido, em Cunhaú, no Rio Gran¬de do Norte, ao enterro da filha do Comendador Antônio de Albuquerque Maranhão Cavalcanti, diria que se tratava da mesma pessôa ...
Do quarto, a voz entrecortada pelo acesso da febre, a doente informou, numa serena convicção inabalável:

- E não se enganaria, Doutor. Eu sou Dona Maria Umbelina, casada com o capitão Anacleto José de Matos, e filha do Comendador Antônio d' Albuquerque Maranhão Cavalcanti...

(02.02.1941)

Continua na próxima semana.

sábado, 5 de novembro de 2011

ACTA DIURNA


QUE QUER DIZER “ÁCTA DIURNA”

Luís da Câmara Cascudo


Perguntaram a mim porque dei semelhante título a esta secção. Que quer dizer ACTA DIURNA?
ACTA DIURNA era uma espécie de jornal diário, uma folha onde os acontecimentos do dia eram fixados pelas autoridades de Roma, para conhecimento do povo. Pregavam-na a uma parede num dos edifícios do FORUM.
No ano 131, antes de Cristo, já existia a ACTA DIURNA, informando ao cidadão romano as "novidades" ou diretivas governamentais.
Júlio Cesar, cinquenta e nove anos antes do nascimen¬to de Cristo, tornou a ACTA DIURNA oficial, de aposição obrigatória num determinado logradouro público.
Conservo o título em latim. Por isso aparece o ACTA com a segunda consoante do alfabeto.
ACTA significa, no latim, ações, obras, feitos, façanhas. DIURNA é o que se pratica sob o sol, no espaço de um dia, ou diariamente.
Suetonio, que bem conheceu a ACTA DIURNA, dizia-a efemérides diárias, o registro dos sucessos mundanos, políticos e administrativos, sociais ou literários.
A minha é uma ACTA DIURNA que recorda o pensamento que presidiu meu dia. Fixo a minha impressão diária sobre um livro, uma figura ou um episódio, atual ou antigo.
Dei-lhe batismo latino porque a intenção cultural é honrar o passado, nas suas lutas, alegrias, tragédias e curiosidades. E, se matéria nova aparece, comentada, é ainda o desejo de conserva-la no Tempo para os olhos amigos de alguns leitores fieis, nas páginas tradicionais d’“A REPÚBLICA”, o mais velho dos jornais conterrâneos

Natal, 03 de agosto de 1943

(transcrição ipsilitere do Livro das Velhas Figuras)

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

ACTA DIURNA




O GALO DA TORRE DE SANTO ANTONIO E SEU DOADOR
Luís da Câmara Cascudo


No alto da torre, em volta do poleiro de azulejos, roda e vento doce do galo de bronze secular. Pertence a fisionomia do bairro e possui sua história, relembrada pelos velhos moradores da rua Santo Antonio, ainda em recordação nas palestras sereneiras, noite de lua cheia.
Lourival Açucena dedicou-lhe versos. Creio que não são únicos. Datam de mais de sessenta anos. Vamos ressussitar os versos, que dedicavam os nossos natalenses de outrora.

Caetano da Silva Sanches,
Governador português,
Foi quem aqui colocou-me,
Há mais de um século talvez

Cocorocó! Vou cantando
A minha bela toada,
Louvando com outros galos
A serena madrugada!...

Por todos os quatro ventos
Me vereis sempre emproado. . .
Não tenho “Gogo” e meu canto
Solto bem atenoado!

Cá do alto lobrigado,
Traquinadas do demônio
Vos mandarei telegrama
Da torre de Santo Antonio!...


Esse versinho devem ser posteriores a 4 de agosto de 1878, dia em que se inaugurou em Natal o “telégrafo-elétrico”.
É esse Caetano da Silva Sanches? O “governador português” era natural de Cascais, em Portugal, filho do capitão Francisco da Silva Sanches e de D. Maria Joaquina Sanches. Fez vida militar e era sargento-mór, reformado do Regimento do Recife, ao ser nomeado Governador da Capitania do Rio Grande do Norte, em 12 de agosto de 1791. Efetivado no posto a 27 de março de 1797, ratificada a posse a 7 de fevereiro de 1798, tornou-se muito estimado em Natal.
Casara em Recife com D. Maria Francisca do Rosário Lages, filha do sargento-mór Francisco Gonçalves Lages. Teve dois filhos: Pedro morto ainda criança e Micaéla Joaquina Sanches que se casou com o capitão-mós Manoel Teixeira de Moura.
Quando Caetano da Silva Sanches chegou a Natal já a igreja de Santo Antonio existia. Em julho de 1763 menciona-se, em documentos, em documentos, a rua da Igreja de Santo Antonio. Na fachada principal, por cima da porta, há, muito apagada, a data de agosto de 1766.




O Capitão-mór era devoto de Santo Antonio, santo nacional português. Ajudou por todas as formas, a construção da Torre. Esta ficou terminada em janeiro de 1798.
Em 23 de agosto de 1799, Caetano da Silva Costa Sanches fez testamento. Era um homem robusto e ainda moço. Dele partira a idéia de mandar buscar um galo de bronze e presentear a Igreja, colocando n o cimo da torre, nova e bonita. É um costume europeu e rara é a igreja portuguesa, especialmente do interior, que não tenha o Galo, símbolo de vigilância e de fé, arauto da claridade, Gallo canente spesredit. . .
Havia uma lenda de que o capitão-mór falecera no dia da primeira missa na Igreja de Santo Antonio. Não é possível crer-se. A igreja estava entregue ao culto sagrado, vinte e oito anos antes de Caetano da Silva Sanches chegar a Natal.
No dia 14 de março de 1800 o Capitão-mór falecera de ataque apoplético, estrupor, como se dizia.




Sepultou-se na Matriz, vestindo o hábito de Santo que era o orago da Igreja onde doara o galo de bronze.
Em 1864, nasceram uns arbustos na cúpula da Torre. O Galo ficou cercado de vegetação. Parecia viver e abrir o bico, para o apelo metálico aos seus distantes companheiros de capoeira.
O tempo foi rolando sem maiores sucessos. Na noite de 6 de março de 1897, às oito e trinta e cinco minutos, uma faísca, com trovão atordoador, caiu sobre a Torre de Santo Antonio. O galo ferido pelo choque, ficou dependurado, até a madrugada de 21 de junho, quando despencou e bateu na calçada do templo.
Depois, desapareceu, esquecido, nos desvãos escusos e escuros da igreja. Em janeiro de 1917, um “constante leitor” da A REPÚBLICA lembrou-lhe o exílio e sugeriu descobrimento. Monsenhor Alfredo Pegado, então Governador Geral do Bispado, explicou ter encontrado o Galo, danificado e feio, e o mandou consertar.
E, aos quatro ventos do Setentrião do Brasil, voltou o Galo de bronze, cinco anos depois, desta vez, imóvel e grave, assistindo, do alto da Torre, a ronda melancólica dos anos. . .


República, 15 de outubro de 1939.


A reprodução desta crônica é feita com toda a fidelidade, inclusive
quanto a grafia da época.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

DO LIVRO "A PRAIA DA PIPA DOS MEUS AVÓS"

Saudosas lembranças I

Tenho saudade dos veraneios das décadas de 70 e 80. Vez por outra, pego-me em saudoso devaneio, lembrando-me daquela época. Isso ocorre principalmente quando vejo a praia sendo tão maltratada por aqueles que teriam a responsabilidade dela cuidar. As falésias, invadidas pelas pousadas, estão pontilhadas de cano de esgoto, propiciando aos que por ali passam uma triste visão e a sensação de que estamos perdendo a guerra contra esse tipo de pessoa. Em alguns pontos os canos são bem visíveis. Indicam que ali não se tem nenhum respeito pela natureza nem pelo próprio lugar onde se vive com a família.


Quando vejo aquele pequeno pedaço de praia, que com certeza é a menor do Brasil, sem espaço para os banhistas, apinhada de sombrinhas e de vendedores, causa-me um extremo desconforto. É um verdadeiro mercado persa, onde se vende todo tipo de mercadoria, desde alimentos, de duvidosa higiene, a roupas, artesanatos e, ultimamente, mais uma modalidade de exploração comercial: o aluguel de cadeiras e sombrinhas. A desorganização é total. Não existem regras para nada, ou pelo menos não as percebemos. As sombrinhas de praia tomam conta de toda a pequena orla. Os comerciantes do local, no afã de ganhar mais dinheiro, invadem o pequeno espaço que os banhistas têm para se locomover, chegando a ponto de colocar as sombrinhas até dentro d’água, acompanhando a vazante da maré. E tudo isso sob os olhos complacentes do poder público, que nada faz para modificar essa situação.


Tenho saudade, sim, daqueles veraneios de outrora, quando podíamos andar pela praia sem termos que nos deparar com esse tipo de situação. Não quero, com isso, dizer que sou contra o progresso, principalmente aquele que traz benefícios à população. Todavia, sou terminantemente contra o progresso a qualquer custo – aquele que é feito sem o mínimo planejamento, desorganizado, poluidor e destruidor, que passa por cima de tudo e de todos, contanto que atinja seus objetivos mercantilistas.
De uns tempos para cá, o lema na Pipa constitui-se em: dinheiro e lucro a qualquer custo!


Tenho saudade de quando andava pela praia pisando na areia branca que, de tão alva e macia, dava vontade de se deitar. Ainda posso ouvir o rangido fino que ela produzia quando pisávamos com mais força ou então quando corríamos sobre ela. Quantas vezes, depois de uma noite de “serenatas”, ficávamos a conversar até alta madrugada naquela areia... Por vezes, dormíamos ali mesmo. Não tínhamos medo, pois não havia motivo para tal. Até o final da década de 80 não me lembro ter acontecido na Pipa qualquer fato que envolvesse violência. Era comum pessoas dormirem em suas casas com as janelas abertas, sem nenhum receio. E como era bonito acordar bem cedinho e olhar os botes ancorados no porto! Naquele seu indolente balançar. Quando os primeiros raios do sol surgiam por cima do morro do Cruzeiro, revelavam toda a exuberância de um pedacinho da Mata Atlântica, naquele tempo, totalmente preservada. Infelizmente não posso dizer o mesmo nos dias de hoje. Basta dar uma olhada à noite para ver o foco das luzes dentro da mata que cobre o morro, para que se percebam as construções que lá existem. Irregulares? ... Não sei!


Quantas vezes eu vi a amanhecença naquela areia, contemplando a imensidão do oceano iluminado pelos primeiros raios do sol... Logo era invadido por uma profunda paz de espírito, como se sentisse a presença divina. A contemplação da natureza em todas as suas formas nos propicia esse estado de paz e bonança com o Criador.
Sim, tenho muita saudade das noites dormidas nos alpendres, das brincadeiras de dar “nó de jabá” no punho das redes dos mais descuidados ou dos incautos “visitantes”. Os namorados das nossas primas eram os nossos principais alvos. Alguns dos rapazes mais afoitos, além de darem o famigerado nó, colocavam a rede de volta nos armadores e, com o peso de seu corpo, arrochavam o máximo que podiam. Depois, ainda urinavam em cima para que o infeliz não pudesse usar os dentes para desatá-lo. Que maldade! O coitado tinha que se arrumar lá pela areia da praia e, certamente, amanhecia o dia sem pregar olhos.
Essa era a Pipa dos anos dourados. Ocorreu-me agora a lembrança dos versos de uma música do poeta Dorival Caymmi, eterno apaixonado por sua terra. Diz muito da Pipa daquela época, do tempo da beleza, talvez do tempo da delicadeza.


[...] É quando o sol vai quebrando, lá pra o fim do mundo pra a noite chegar
É quando se ouve mais forte o ronco das ondas na beira do mar
É quando a cansaço da vida, da lida obriga João se sentar
É quando a morena se enrosca, se chega pro lado querendo agradar
Se a noite é de lua, a vontade é contar mentiras, é se espreguiçar
Deitar na areia da praia que acaba onde a vista não pode alcançar
E assim adormece esse homem que nunca precisa dormir pra sonhar
Porque não há sonho mais lindo do que sua terra, não há
(Dorival Caymmi)


Pipa, junho de 2009.

sábado, 17 de setembro de 2011

O distrito da Pipa, as praias e seus nomes primitivos


DUNAS DA DIVISA TIBAU/PIPA

Quem se desloca da cidade de Tibau do Sul para a praia da Pipa utilizando a antiga estrada carroçável por cima das falésias, logo vai passar por duas grandes dunas de areia postadas uma ao lado da outra. Tradicionalmente são essas dunas, que estabelecem o limite entre a praia de Tibau do Sul e Pipa. O local é de fácil identificação, pois é lugar de parada obrigatória, aos que querem apreciar uma das mais belas vistas daquele litoral.

Nessa área a falésia é desprovida de qualquer vegetação e sua constituição mistura-se entre a argila vermelha, que predomina toda a região, e a argila de cor branca, mais presente especificamente nesse local.
Ao descer a falésia encontramos a primeira das 11 praias que compõe o complexo de praias do distrito da Pipa. O nome Cacimbinhas vem de antigas cacimbas de água doce que se localizavam próximas as falésias. Bastava cavar um pouco e logo a água doce e cristalina aflorava com facilidade.

Em seguida vem a praia do Madeirinho. O nome esta diretamente ligado a próxima praia, denominada Madeiro, por ter as mesmas características geográficas, porém em tamanho reduzido.

PRAIA DO MADEIRO

Já a praia do Madeiro recebeu esse nome em virtude da existência de uma baía de águas calmas no lado norte da falésia. Era lá onde os franceses ancoravam suas naus e abasteciam com o nosso pau-brasil. A madeira conseguida através de escambo se destinava ao continente europeu onde era vendida a peso de ouro para ser utilizada como corante nas indústrias de tecidos.


PRAIA DO CURRAL DO CANTO

A seguir, na outra ponta da enseada, localiza-se a praia do Curral do Canto, ou praia do Canto ou ainda como é conhecida atualmente, Baía dos Golfinhos.
Circulando a falésia que se projeta em direção ao mar, chega-se a praia da Baixinha. Essa praia é muito freqüentada por veranistas e turistas quando acontecem marés baixas, ocasião em que diversas piscinas ficam à mostra em meio aos recifes de coral. Além do banho maravilhoso, não é difícil o freqüentador ser contemplado com a visão de alguns animais marinhos, além de pequenos peixes multicor, que habitam aquelas piscinas.

PRAIA DA BAIXINHA

Prosseguindo, chega-se a praia do Porto de Baixo contígua à praia do Porto, onde são ancoradas as embarcações. Por ocasião das marés de vazante, os recifes de coral ficam à mostra impedindo a entrada dos barcos no porto. Então as embarcações que precisam chegar ao ancoradouro utilizam a rota do porto de baixo, onde parte dos recifes ficam submersos, permitindo a navegação com segurança.
Chega-se então a praia do Centro onde se localizam a maioria das casas de veraneio e o comercio a beira mar.

PRAIA DO PORTO

Após a praia do Centro que se estende até o morro do Castelo (nome do antigo proprietário) chega-se a praia denominada Poço das Mulheres. Esse local recebeu essa denominação, pois em épocas passadas, era onde as mulheres da comunidade utilizavam para toma banho. Como não conheciam roupas apropriadas, tomavam banho completamente despidas. O local era bastante deserto e raramente alguém se aventurava por lá.
A próxima praia é Afogados. Nesse local o mar é aberto e não existem as formações de recifes de coral. A praia é muito freqüentada principalmente por turistas. A constância das fortes ondas impulsionadas pelos ventos advindos de sua localização atrai praticantes de esportes náuticos, principalmente o surf.

PRAIA DO CENTRO

De lá podemos avistar a praia do Moleque marcada pela sua famosa pedra, que contornada pelas falésias que compõe o Chapadão, nos propicia uma visão espetacular daquela pequena baía, ornada por coqueiros e pequenas dunas que se formam na beira mar. Em seguida vêm as praias mais desertas e consequentemente menos freqüentadas. Cancelas, que recebeu esse nome por sua formação geográfica, praia das Minas, por apresentar algumas inscrições rupestre e por último a praia de Pedra d’água que se limita com o distrito de Sibaúma. O nome vem de antigas poças de água de chuva que se formavam nas pedras existentes no local.

PRAIA AFOGADOS E ENSEADA DA PRAIA DO MOLEQUE

Esse artigo tem por finalidade resgatar, para que não sejam esquecidos, os nomes primitivos dessas praias. Como podemos observar, todas elas foram denominadas pelos ancestrais da comunidade, que utilizaram para isso razões lógicas, como foram descritas. Portanto, comete-se grande injustiça com a própria história do lugar, quando por simples vaidade ou o afã de agradar alguém ou alguns, se comete semelhante desatino. Tem se tornado comum em nosso Estado a constante mudança dos nomes de praças, logradouros e até mesmo de cidades, num constante desrespeito aos seus habitantes, maculando e empobrecendo cada vez mais a nossa história.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

DO LIVRO "A PRAIA DA PIPA DOS MEUS AVÓS"

Morre o mestre Francisquinho


Em 1939, chegou a Praia da Pipa, vindo do norte, mais precisamente da Praia de Galinhos-RN, Francisco Caetano do Nascimento, mais conhecido por Francisquinho. Aos 16 anos de idade, o jovem pescador veio acompanhando seu tio, mestre de um barco, para uma temporada de pesca da albacora. A Pipa vinha se tornando famosa pela grande quantidade de peixes que se capturavam em suas águas, atraindo pescadores de várias praias do nosso estado e até mesmo de outros vizinhos, como Paraíba e Ceará.
Ao retornar para Galinhos, após o final da safra de albacora, Francisquinho informou a sua mãe que tinha gostado muito do lugar e que voltaria para morar. Então, no mesmo ano, o adolescente chegou a Pipa e, dessa vez, para ficar.
No início, começou a pescar em barcos de outras pessoas e, como já entendia um pouco da carpintaria naval, aventurou-se no conserto de botes. Em Galinhos, onde morava, costumava realizar pequenos consertos em embarcações que chegavam avariadas. Posteriormente, veio a se tornar o maior carpinteiro naval das praias do Litoral Sul, como são conhecidas as praias que se situam à direita da cidade de Natal.
Anos depois, Francisquinho conheceu a viúva Maria da Conceição Borges e com ela se casou. Dessa união tiveram cinco filhos, sendo dois homens, três mulheres e um sexto filho que foi adotado.


Os dois primeiros botes que construiu foram: “Taubaté” e “Baluarte”. A partir daí, até o último bote construído, “Malembá II”, foram mais de quinhentas embarcações, entre botes a pano, a motor e jangadas de compensado naval. Eu, juntamente com meu irmão, Dante, tivemos a oportunidade de, em 2004, ter uma dessas jangadas construída por ele.

O Malembá II, a última e maior embarcação que construiu, tinha 16,5m x 6,5m e destinava-se ao transporte de turistas em passeios pelas praias do norte. Foi projetado para levar 150 passageiros, em dois andares.
O proprietário desta embarcação dizia que, se por acaso, não desse o resultado esperado com os passeios turísticos, o barco seria destinado ao transporte de cargas para a ilha de Fernando de Noronha. Fui informado que se encontra no Norte, na praia de Galinhos... Fazendo o quê? Não sei.

MALEMBA II

Por muitos anos, o estaleiro de Francisquinho funcionou na Praia da Pipa, próximo à casa onde morava, na rua de cima. Com o tempo e a fama de bom construtor, aqui chegavam, de várias regiões, pessoas interessadas em contratar a construção de barcos no estaleiro do mestre. Essa fama perdurou enquanto esteve à frente da administração do seu estaleiro.
No início, a construção de um bote levava muitos dias, pois faltavam ferramentas e havia a dificuldade em conseguir a principal matéria prima: a madeira. As árvores eram retiradas das matas que ficavam a uma boa distância da praia. Dependendo da sua utilização, elas podiam ser cortadas de maneira bastante rudimentar.
Este material era transportado em lombo de animais ou na cabeça dos homens. O machado era utilizado para derrubar a árvore escolhida e depois dois homens operavam um grande serrote para abrir a madeira em pranchas que mediam três polegadas de espessura. Levavam-se dias para transformar em pranchas uma árvore de bom porte. Abertas em forma de pranchas ou moldadas em “cavernas”, as peças em forma de “U”, que juntamente com a quilha formam o esqueleto do bote, muitas vezes eram lavradas na própria mata. Quando transportadas para o estaleiro, já estavam no ponto de acabamento. O processo era concluído com a ajuda de plainas e enxós. O trabalho era penoso. Conseguiam moldar peças enormes de madeira bruta em robustas “cavernas”, dando-lhes as formas necessárias, utilizando apenas o machado e a enxó.
Para armar o bote era preciso primeiro situar a quilha. Depois a roda de proa, a espinha e em seguida a colocação do cavername. Após a colocação das “cavernas”, seguia o terço de proa e o terço de popa. O próximo passo era “envedubar” o barco, ou seja, dar a forma que vai ficar depois de pronto. Em seguida, vinha o “enlatamento” – operação que consiste em pregar barrotes, ligando as duas extremidades das “cavernas”, em preparação para o tabuamento do convés. Essa operação era realizada logo que aprontavam as escotilhas de porão. Somente na fixação das tábuas do convés é que utilizavam pregos. Nas outras operações, como também no tabuamento dos costados, eram utilizadas cavilhas. Em seguida, eram feitos as bordas e os corrimãos de bordas. A última operação antes da pintura era o calafetamento, que é a vedação do barco. Para isso eram utilizadas estopas feitas com a casca da sapucaia.

Procurei aqui, da melhor forma que me foi possível, descrever o que foi, para o mestre Francisquinho, a paixão de toda sua vida: construir barcos. Para exercer tão nobre profissão teve que passar por muitos desafios que lhe foram impostos durante o tempo em que pôde manobrar com maestria as ferramentas que lhe permitiam, usando somente a intuição e a vontade de vencer desafios. Ao longo de sua vida, o mestre produziu verdadeiras obras de arte da nossa construção naval, de pequeno porte.
No último dia 22 de maio, descansou para sempre o mestre Francisquinho. Acometido de vários derrames, viveu recluso os últimos anos em seu sítio, nos arredores da Pipa. Tinha perdido a condição de falar e andava com muita dificuldade. Mas, quando encontrava os amigos, seus olhos miúdos brilhavam de satisfação e felicidade, diziam o que sua voz, levada pela doença, já não lhe permitia dizer. Morreu o homem, o profissional, o mestre, o amigo, o religioso e o pai de família que soube criar os seus filhos com dignidade. Teve ainda, junto com sua esposa, espaço em seu coração para o sublime ato de amor ao próximo, a adoção. Descanse em paz, amigo.

Natal, junho de 2009.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

POSSE NA ACADEMIA CEARAMIRINENSE DELETRAS E ARTES-ACLA

LINK PARA ACESSAR A FESTA DE POSSE NA ACLA-

http://cearamirimtv.blogspot.com/2011/08/posse-dos-academicos-da-acla-em-ceara.html




ORMUZ SIMONETTI RECEBE O DIPLOMA DO ACADÊMICO LUCIANO ALVES DE NÓBREGA


JURANDYR NAVARRO, ORMUZ SIMONETTI, CARLOS GOMES E ODÚLIO BOTELHO


ORMUZ SIMONETTI E SUA ESPOSA GEIZA GALVÃO BARBALHO SIMONETTI

sábado, 20 de agosto de 2011

Do livro “A PRAIA DA PIPA DOS MEUS AVÓS”



RENDEIRAS DE BILROS

A renda de bilros é, sem dúvida, uma das mais antigas e mais ricas manifestações da arte do nosso povo. Surgiu no século XV na Itália, posteriormente chegou à França e depois a Portugal. É uma arte praticada exclusivamente por mulheres. Chegou ao Brasil com a colonização, trazida pelas esposas e filhas dos portugueses. Estremadura, Minho, Algarve e Alentejo são as regiões que mais tradição têm na renda de bilro que era feita geralmente no âmbito doméstico.



No Brasil a atividade desenvolveu-se nas comunidades interioranas, particularmente nas faixas litorâneas. Na Pipa, como na maioria das comunidades praianas, as rendeiras gostavam de se reunir para “bater bilros” na sombra dos coqueirais que se estendiam por toda a beira da praia. Lá, debruçadas sobre suas almofadas, teciam belas rendas animadas por intermináveis conversas de comadres. Também cantavam antigas canções e hinos religiosos. Tudo ao som do inconfundível gemido melódico que vinha das palhas dos coqueiros fustigadas pelos ventos.














À noite, iluminadas pelas chamas de lamparinas e candeeiros, lá estavam elas na incansável labuta na arte que suas mães e avós lhe ensinaram. Às vezes, dependendo das encomendas, trabalhavam madrugada adentro até o amanhecer do dia. As peças eram vendidas nas cidades mais próximas como Goianinha, Vila Flor, Canguaretama e Ares. Por vezes, apenas uma delas seguia para a cidade levando o trabalho das outras, que era oferecido de porta em porta. Eram comuns as encomendas para enxoval de noiva. Das pessoas mais afortunadas recebiam encomendas de toalhas de banquetes, caminhos de mesa, colchas para cama e toalhas para altar que eram doadas às igrejas.



Em Cabeceiras, havia um sujeito de nome Chico Bem-te-vi, uma espécie de corretor das rendeiras, que em troca de uma comissão, levava os trabalhos das rendeiras da Pipa para vendê-los em Natal. Com o dinheiro conseguido, elas compravam, além das linhas utilizadas na confecção das rendas, produtos que consumiam no dia-a-dia com a família. Os pescadores sempre contavam com esse dinheiro extra do trabalho de suas mulheres e filhas, principalmente nas entressafras ou quando as safras de peixes não lhes eram favoráveis.



Na praia da Pipa, a renda de bilros era praticada pela maioria das mulheres. Algumas delas se tornaram famosas pela delicadeza com que faziam suas peças. Zulmira, Maria Alves, Zilda, Maria Segunda, Zelda, Geralda, Isaura e Francisca Martins eram as mais conhecidas.
























O aprendizado era passado de mãe para filha, ainda muito cedo. Começava pela observação, em casa, no trabalho diário das mães rendeiras. Lá pelos oito ou nove anos de idade iniciavam em pequenas almofadas e com “pontos” mais simples, que além de facilitar o aprendizado, utilizam, no máximo, quatro pares de bilros. Com o tempo, e dependendo da habilidade das meninas, as mães iam introduzindo o aprendizado das rendas mais complexas, o que naturalmente aumentava o número de pares de bilros.



As rendas são tecidas em cima de almofada, que consiste de um cilindro com tamanho médio de 60 a 80 cm. São cheias com capim ou palha de bananeira. De tempos em tempos esse enchimento tem que ser trocado para dar maior consistência à almofada e melhorar a segurança dos alfinetes. Estas peças de metal podem ser substituídas, principalmente em beiras de praia, por espinhos de cardeiro e laranjeira. Os bilros são peças de madeira feitas de ubaia, pau branco ou mamãozinho, madeiras abundantes na região; de fácil manuseio e muito resistente. Uma das extremidades tem forma de pera. O outro lado permanece fino como um lápis e na ponta é enrolado o fio que irá formar a renda. E, finalmente, o cartão perfurado, que é a matriz do trabalho a ser feito. Este último é preso na almofada e os bilros são presos na outra extremidade.











Os fios são trançados e enrolados uns sobre os outros e vão formando o desenho estabelecido no cartão. Dependendo do tipo de renda chega-se a utilizar até 30 pares de bilros. São vários os tipos de renda. Geralmente tem a ver com a região onde habitam. As rendas mais comuns na Pipa eram: olho de pombo, orelha de pano, bico macho, bico fêmea, renda premi, gomo de cana, formozeira e ceará. As iniciantes começam com bicos que são mais fáceis de serem feitos, pois utilizam apenas 4 bilros. Com o tempo, e dependendo da habilidade de cada uma, aumenta-se a complexidade da renda e naturalmente o número de bilros.



Em seu livro “Minhas Oitenta Primaveras”, Maria Segunda Marinho conta que aprendeu a fazer rendas, com um coco verde que imitava uma almofada. Enfiava umas varetas nos coquinhos para parecer com os bilros, e os alfinetes faziam com os ponteiros da palha seca. As linhas eram os fios retirados dos sacos de estopa. E assim ela fazia pequenos bicos para enfeitar as roupas das bonecas de pano. Maria Segunda tornou-se uma das mais respeitadas rendeiras da praia da Pipa.
Dona Zilda Marinho – hoje com 74 anos de idade, é uma das poucas rendeiras que ainda trabalha, diariamente, em sua almofada. Ela me relatou um fato bastante curioso. Em 1951, morava e estudava em Natal, na casa de uma madrinha. Através de uma amiga que trabalhava no Palácio do Governo, conseguiu vender algumas de suas rendas aos funcionários do Gabinete do Governador Sílvio Piza Pedrosa.



Fico admirado com a vitalidade dessa senhora, que conheço desde quando eu era criança. Criou, junto com seu marido pescador, João Peixinho, doze filhos. Foi a tenacidade dessa senhora, aliada ao amor pela sua arte, muitas vezes trabalhando madrugada adentro, somente com a luz da lua, que ajudou financeiramente a criar tão numerosa família. Também começou, como a maioria das filhas de pescadores, observando a mãe trabalhando em sua almofada. Tinha apenas sete anos de idade e já se preocupava em aprender a profissão de sua mãe para poder ajudá-la. A exemplo de Maria Segunda, também começou a fazer rendas, traçando pequenos bicos, em um coco que imitava uma almofada.

Pipa, maio de 2009.