Caros amigos e leitores, a partir do mês de fevereiro, estaremos transcrevendo nesse blog, algumas biografias de bacharéis norte-riograndense formados em Recife/Olinda entre 1832 e 1932.
As biografias são transcritas do livro “Bacharéis de Recife e Olinda” de Raimundo Nonato.
Algumas informações sobre a Faculdade de Direito do Recife.
Lúcia Gaspar
Por Carta de Lei do Imperador Pedro I foram criados em 11 de agosto de 1827, simultaneamente, dois cursos de ciências jurídicas e sociais, um na cidade de São Paulo outro na de Olinda.
Conhecidos como Cursos Jurídicos, o de Olinda foi a origem da Faculdade de Direito do Recife, instalado no dia 15 de maio de 1828, no mosteiro de São Bento, passando a funcionar em dependências cedidas pelos monges beneditinos.
Na inauguração do Curso foi realizada uma grande solenidade, com a presença de autoridades civis e eclesiásticas, salvas de artilharia e a celebração de um Te-Deum em ação de graças, sendo a cidade iluminada durante três dias.
As aulas foram iniciadas no dia 2 de junho do mesmo ano, com 41 alunos oriundos de vários estados brasileiros e de outros países como Angola e Portugal, matriculados após terem sido aprovados nos exames preparatórios. A primeira turma de bacharéis em ciências jurídicas formou-se em 1832.
Em 1852, o Curso foi transferido do mosteiro de São Bento para o palácio dos antigos governadores, prédio reformado situado no alto da Ladeira do Varadouro, em Olinda, que ficou conhecido pelo nome de Academia.
Em 1854, a Academia transferiu-se para a rua do Hospício, no Recife, ocupando um velho casarão pouco adequado para as suas funções e por isso apelidado de Pardieiro.
Em 1912, mudou-se para o prédio onde funciona até hoje, na Praça Dr. Adolfo Cirne, no Recife, depois de concluídas as obras Governo da República.
O prédio construído por José de Almeida Pernambuco, ocupa uma área de 3.600 metros quadrados, no centro de uma área ajardinada e seu projeto arquitetônico, eclético, com predominância do estilo neo-clássico é de autoria do arquiteto francês Gustave Varin.
A Faculdade de Direito do Recife desde os seus primeiros anos de existência atuava não apenas como um centro de formação de bacharéis, mas, principalmente, como escola de Filosofia, Ciências e Letras, tornando-se célebre pelas discussões e polêmicas que empolgavam a sociedade da época.
A instituição viveu tempos gloriosos sob a influência de Tobias Barreto, Joaquim Nabuco e Castro Alves.
Foi na Faculdade de Direito do Recife onde nasceu e floresceu o movimento intelectual poético, crítico, filosófico, sociológico, folclórico e jurídico conhecido como a Escola do Recife, nos anos de 1860 e 1880 e cujo líder era o sergipano Tobias Barreto de Meneses. Outras figuras importantes do movimento foram Sílvio Romero, Artur Orlando, Clovis Bevilaqua, Capistrano de Abreu, Graça Aranha, Martins Júnior, Faelante da Câmara, Urbano Santos, Abelardo Lobo, Vitoriano Palhares, José Higino, Araripe Júnior, Gumercindo Bessa.
Possui uma grande biblioteca com mais de 100.000 volumes, muitos deles raros e preciosos, nas áreas de direito, filosofia, história e literatura, tendo sob sua guarda, inclusive, a biblioteca que pertenceu a Tobias Barreto. Publica, desde 1891, sua Revista Acadêmica.
Em 1922, como parte das comemorações do centenário da independência nacional houve sessão solene no salão nobre e foram plantadas quatro árvores no parque ao redor do prédio: dois visgueiros e duas palmeiras, as quais foram dados os nomes de Epitácio Pessoa, presidente da República, lembrado pelos relevantes serviços prestados à região Nordeste do país; Otávio Tavares, professor da Faculdade e prefeito da cidade do Recife; Neto Campelo, diretor e professor e Samuel Hardmann, doador das árvores plantadas.
Em 1924, o eminente pernambucano Manuel de Oliveira Lima foi eleito professor honorário da Faculdade.
Muitos dos seus professores tornaram-se famosos pela oratória, conhecimentos jurídicos e cultura geral.
Nilo Pereira, um dos muitos intelectuais que se formou na instituição, no seu livro Pernambucanidade (Recife, 1983, v.1, p.252) diz:
A Faculdade é germinal. Que se irradiou por todo o Nordeste. E que esteve e está presente nas Universidades Regionais que se criaram. Formou os bacharéis saídos dos Recife ... que ergueram, sobre os alicerces do humanismo jurídico, as Faculdades de Direito dos Estados vizinhos. Para ela vinham as gerações ansiosas de saber, futuros magistrados, advogados, juristas, jornalistas, diplomatas, estadistas, parlamentares, ministros de Estado, conselheiros do Império, escritores, poetas, tribunos, políticos [...]
A Faculdade de Direito do Recife hoje pertence à Universidade Federal de Pernambuco.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
ACTA DIURNA
Ormuz
Mando para alguns pessoas cada Acta Diurna que aparece.Faz um sucesso,
porque muitos não tinham conhecimento delas. É conhecimento, é
história, além da facilidade com que Cascudo escreve.Impressiona.
Um abraço
Felipe Trindade
Natal-RN
Mando para alguns pessoas cada Acta Diurna que aparece.Faz um sucesso,
porque muitos não tinham conhecimento delas. É conhecimento, é
história, além da facilidade com que Cascudo escreve.Impressiona.
Um abraço
Felipe Trindade
Natal-RN
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
A PRAIA DA PIPA DOS MEUS AVÓS
Caro primo Ormuz, sua mais recente crônica me fez tirar do fundo do baú a lembrança do tio Joquinha. Parece que estou vendo sua figura sui generis. Vi-o poucas vêzes, mas sua lembrança ficou tão viva no meu espírito... Com certeza foi um ser incomum. Abraços da prima,
Maria do Carmo Simonetti.
Jaraguar do Sul - SC
Maria do Carmo Simonetti.
Jaraguar do Sul - SC
A PRAIA DA PIPA DOS MEUS AVÓS
Caro Ormuz, bela crônica sobre a Pipa do seu tio João Benjamin Simonetti. Você tem realizado um belo trabalho em prol da memória daquela região.
Roberto Patriota
Natal RN
Roberto Patriota
Natal RN
A PRAIA DA PIPA DOS MEUS AVÓS
Ormuz, seus escritos me levaram de volta a uma época onde não existia IBAMA e a vida era muito mais simples. Hoje se caçar um tatu vai para a cadeia por crime inafiançável. Alguns aspectos de seu relato me remetem a minha infância, bebendo garapa nos ``paróis``, comendo rapadura quente e tomando banho de açude.
Abraços.
Antônio Gouveia
Natal RN
Abraços.
Antônio Gouveia
Natal RN
A PRAIA DA PIPA DOS MEUS AVÓS
Caro Ormuz:
Tenho acompanhado com muito interesse as suas cônicas. Sua fidelidade à Pipa, aos seus nativos e saudosos veranistas, tem rendido para nós leitores, verdadeiras pérolas. Enquanto a grande mídia nos invade com abalos sísmicos, enchentes, violência e escândalos políticos, você, com equilíbrio e sensatez, nos possibilita um olhar sobre as coisas simples do dia a dia, nos devolvendo a paz e o humor. Aquela pedra no meio do caminho das pessoas, vira ouro em suas mãos. Como não sentir na pele, por exemplo, o dilema do seu tio-avô? Joquinha, gordo e de baixa estatura, com dificuldade intestinal em plena caçada, e sem direito a uma calçada alta para voltar ao lombo da sua mula surda... Genial.
Parabéns, amigo!
Carlos Sizenando Rossiter Pinheiro.
Natal-RN
Tenho acompanhado com muito interesse as suas cônicas. Sua fidelidade à Pipa, aos seus nativos e saudosos veranistas, tem rendido para nós leitores, verdadeiras pérolas. Enquanto a grande mídia nos invade com abalos sísmicos, enchentes, violência e escândalos políticos, você, com equilíbrio e sensatez, nos possibilita um olhar sobre as coisas simples do dia a dia, nos devolvendo a paz e o humor. Aquela pedra no meio do caminho das pessoas, vira ouro em suas mãos. Como não sentir na pele, por exemplo, o dilema do seu tio-avô? Joquinha, gordo e de baixa estatura, com dificuldade intestinal em plena caçada, e sem direito a uma calçada alta para voltar ao lombo da sua mula surda... Genial.
Parabéns, amigo!
Carlos Sizenando Rossiter Pinheiro.
Natal-RN
domingo, 31 de janeiro de 2010
A PRAIA DA PIPA DOS MEUS AVÓS
Caros amigos e leitores. Mais uma crônica sobre a Praia da Pipa e seus personagens.
Publicada em O JORNAL DE HOJE edição de 20.01.2010.
ORMUZ BARBALHO SIMONETTI (Presidente do Instituto Norte-Riograndense de Genealogia-INRG, membro da UBE-RN e do IHGRN)
PIPA, SAUDOSOS VERANISTAS - João Benjamin Simonetti - Joquinha
Algumas pessoas que viveram parte de suas vidas na Pipa deixaram registrados, para sempre, na memória oral da comunidade, fatos e situações vividas no dia-a-dia daquela praia tranqüila e preguiçosa do tempo dos meus avós. Uma dessas pessoas foi o meu tio-avô João Batista Simonetti, conhecido por gregos e troianos apenas por Joquinha.
Solteirão por opção e dizem que também, por decepção. Levava suas decisões até as últimas conseqüências. Quando moço, namorou com sua prima, e também minha tia-avó pelo lado materno, Beatriz Barbalho. Era a versão Goianinhense do clássico “A Bela e a Fera”. Conheci tio Joquinha, já com bastante idade. Era baixinho, feioso, caderudo, e de gênio terrível. Contrastando com ele, a beleza de tia Betariz chamava a atenção. Era tida e havida, por quantos a conheceu quando jovem, como a mais bela moça de toda aquela redondeza. O fato é que o namoro não deu certo, e opinioso como ele era, decidiu que não casaria com mais ninguém.
Em 1926 os Barbalho/Simonetti de Goianinha iniciavam o veraneio na praia da Pipa em virtude da destruição da antiga cidade de Tibau do Sul durante a cheia de 1924. Tio Joquinha por ter sido um dos primeiros veranistas, logo fez amizade com os nativos. Quando vinha pra Pipa se hospedava na casa de Sinha Vicência onde passava dias e até meses. Com a compra da casa de Maria Fidelis pelos seus sorinhos, os irmãos Nancy e Danilo Simonetti, ficou praticamente morando o ano inteiro nessa casa. Aproveitou esse tempo e adquiriu dois barcos de pesca. Comprou inicialmente o barco de nome Lima Freire e em seguida o Sucuri. Tempos depois vendeu o Sucuri e comprou o Veleiro.
Além dessa atividade, era louco por caçada. Na época, as matas da Pipa eram fartas de cutias, coelhos, jacús e até mesmo os ariscos veados campeiros. Por ser gordo e baixinho não tinha resistência para andar a pé e as caçadas eram realizadas sempre no lombo de uma mula, dizia orgulhoso, que por ele treinada para não se assustar quando do estampido de sua espingarda. Outros já afirmavam que era totalmente surda, não se sabendo se durante o “treinamento”, ou mesmo pela idade.
Nessas aventuras sempre tinha a companhia de seu primo Celso Lisboa, também um apreciador das caçadas, além de contar com a indispensável ajuda de nativos, especializados em rastreamento. Fazia também parte dessa comitiva alguns vira-latas, exímios caçadores, até mesmo pela necessidade de sobrevivência. Um dos melhores rastreadores daquelas bandas era José Bidium. Conheci-o pessoalmente e tive oportunidade de acompanhá-lo juntamente com Hilton Lisboa e Edinaldo Simonetti em uma caçada nos anos 70. O lendário Bidium além de pescador e agricultor, era conhecido por rastrear coelhos e cutias até mesmo em cima de folhas secas. Dizia que os melhores dias para aplicar sua técnica, eram quando dava uma chuvinha ligeira durante a madrugada. Isso facilitava o rastreamento dos animais, pois quando saíam de suas tocas, deixavam sobre as folhas secas, marcas de suas patas carimbadas com areias ainda úmidas. Quando não chovia, dava um jeito de aproveitava a umidade deixada pelo orvalho da madrugada.
Tio Joquinha, pelas suas condições físicas e principalmente com relação a sua estatura, evitava, a todo custo, durante uma caçada, descer do animal o que normalmente só acontecia quando retornava pra casa. Porém, se acontecesse alguma dificuldade intestinal, que o obrigasse a “ir para a terra”, a coisa ficava complicada. Dentro daquelas picadas estreitas onde se escondiam as melhores caças, não havia a ajuda da calçada altas da igreja ou dos alpendres que lhe ajudava a subir e descer, sem dificuldades, ao lombo da montaria. Mas se a tal necessidade acontecesse, depois de satisfeita, iniciava-se uma verdadeira operação de guerra para que aquela criatura, baixinha e desajeitada, retornasse sã e salva, ao lombo do animal.
Durante o tempo que viveu na Pipa, fez diversas amizades. Muito respeitado entre os nativos, foi compadre de vários deles, tendo apadrinhado um sem número de nativos. Orgulhava-se em dizer não ter idéia do número exato de afilhados. Todo mês de janeiro, durante a missa em homenagem ao padroeiro, lá estava ele a batizar outra leva de afilhados. Foi ele, que com poucos recursos e contando com a ajuda da mão de obra nativa, deu inicio a abertura da estrada que liga o distrito de Piau a Pipa. Sob seu comando muitos homens trabalharam no roço e destocamento do mato e na colocação de piçarro nos lugares onde a areia era mais frouxa e dificultava a passagem dos carros.
Contam os mais velhos, que em Goianinha, gostava de criar pássaros engaiolados. Certa vez, um desavisado gado de rua, resolveu transformar em refeição, um belo canário da terra, que era seu favorito. Depois de quebrar os ponteiros da gaiola feita com a resistente “barba de bode”, o felino comeu o canário, xodó do velho Joquinha. O pássaro, além de excelente cantador, também era um brigador feroz, quando disputava uma fêmea nas rinhas improvisadas à sombra dos “fícus benjamin”, que ornamentavam as ruas de Goianinha dos anos 50 e 60, ou da velha mangubeiras ao lado da igreja.
Inconformado com a perda do seu canário resolveu se vingar. Preparou uma arapuca para o felino que retornou no dia seguinte, na esperança de conseguir mais uma fácil refeição. Depois de aprisionado, o genioso Joquinha pegou o pobre animal pela cabeça e sem nenhuma piedade, ralou nas pedras da calçada, o focinho do infeliz, enquanto repetia... Nunca mais você vai comer passarinho de ninguém! Em seguida, soltou o pobre animal que nunca mais apareceu nas redondezas.
Fazia questão de exaltar sua condição de ateu mas nunca recusou o apadrinhamento de um pagão. Em 1969, encontrava-se hospedado, no Hospital da Polícia, tratando de um câncer de intestino. Certo dia foi avisado que já se encontrava naquele hospital, o então governador do Estado Monsenhor Walfredo Gurgel, muito seu amigo, que sabendo de sua enfermidade, tinha vindo lhe fazer uma visita. Nesse dia ele estava passando por uma crise terrível com dores insuportáveis. Mesmo assim, não teve dúvidas quando sua sobrinha Zilda Simonetti aparece na porta do quarto muito nervosa e com olhos muito arregalados lhe informa: tio Joquinha, o Governador veio lhe visitar! . . . E ele, em baixo de todo aquele sofrimento sentencia: diga a ele que se vier como amigo ou político, permito a visita. Mas, se vier como PADRE, dê meia volta e vá embora.
Assim era tio Joquinha, não mudou de opinião nem na hora da morte. Expressou sua última vontade com o seguinte pedido: nasci só e passei toda minha vida só. Portanto não quero companhia depois de morto. Quando eu morrer, mande lacrar meu tumulo para que nele, ninguém mais seja enterrado. E seu desejo foi cumprido à risca.
Pipa, janeiro de 2010.
Publicada em O JORNAL DE HOJE edição de 20.01.2010.
ORMUZ BARBALHO SIMONETTI (Presidente do Instituto Norte-Riograndense de Genealogia-INRG, membro da UBE-RN e do IHGRN)
PIPA, SAUDOSOS VERANISTAS - João Benjamin Simonetti - Joquinha
Algumas pessoas que viveram parte de suas vidas na Pipa deixaram registrados, para sempre, na memória oral da comunidade, fatos e situações vividas no dia-a-dia daquela praia tranqüila e preguiçosa do tempo dos meus avós. Uma dessas pessoas foi o meu tio-avô João Batista Simonetti, conhecido por gregos e troianos apenas por Joquinha.
Solteirão por opção e dizem que também, por decepção. Levava suas decisões até as últimas conseqüências. Quando moço, namorou com sua prima, e também minha tia-avó pelo lado materno, Beatriz Barbalho. Era a versão Goianinhense do clássico “A Bela e a Fera”. Conheci tio Joquinha, já com bastante idade. Era baixinho, feioso, caderudo, e de gênio terrível. Contrastando com ele, a beleza de tia Betariz chamava a atenção. Era tida e havida, por quantos a conheceu quando jovem, como a mais bela moça de toda aquela redondeza. O fato é que o namoro não deu certo, e opinioso como ele era, decidiu que não casaria com mais ninguém.
Em 1926 os Barbalho/Simonetti de Goianinha iniciavam o veraneio na praia da Pipa em virtude da destruição da antiga cidade de Tibau do Sul durante a cheia de 1924. Tio Joquinha por ter sido um dos primeiros veranistas, logo fez amizade com os nativos. Quando vinha pra Pipa se hospedava na casa de Sinha Vicência onde passava dias e até meses. Com a compra da casa de Maria Fidelis pelos seus sorinhos, os irmãos Nancy e Danilo Simonetti, ficou praticamente morando o ano inteiro nessa casa. Aproveitou esse tempo e adquiriu dois barcos de pesca. Comprou inicialmente o barco de nome Lima Freire e em seguida o Sucuri. Tempos depois vendeu o Sucuri e comprou o Veleiro.
Além dessa atividade, era louco por caçada. Na época, as matas da Pipa eram fartas de cutias, coelhos, jacús e até mesmo os ariscos veados campeiros. Por ser gordo e baixinho não tinha resistência para andar a pé e as caçadas eram realizadas sempre no lombo de uma mula, dizia orgulhoso, que por ele treinada para não se assustar quando do estampido de sua espingarda. Outros já afirmavam que era totalmente surda, não se sabendo se durante o “treinamento”, ou mesmo pela idade.
Nessas aventuras sempre tinha a companhia de seu primo Celso Lisboa, também um apreciador das caçadas, além de contar com a indispensável ajuda de nativos, especializados em rastreamento. Fazia também parte dessa comitiva alguns vira-latas, exímios caçadores, até mesmo pela necessidade de sobrevivência. Um dos melhores rastreadores daquelas bandas era José Bidium. Conheci-o pessoalmente e tive oportunidade de acompanhá-lo juntamente com Hilton Lisboa e Edinaldo Simonetti em uma caçada nos anos 70. O lendário Bidium além de pescador e agricultor, era conhecido por rastrear coelhos e cutias até mesmo em cima de folhas secas. Dizia que os melhores dias para aplicar sua técnica, eram quando dava uma chuvinha ligeira durante a madrugada. Isso facilitava o rastreamento dos animais, pois quando saíam de suas tocas, deixavam sobre as folhas secas, marcas de suas patas carimbadas com areias ainda úmidas. Quando não chovia, dava um jeito de aproveitava a umidade deixada pelo orvalho da madrugada.
Tio Joquinha, pelas suas condições físicas e principalmente com relação a sua estatura, evitava, a todo custo, durante uma caçada, descer do animal o que normalmente só acontecia quando retornava pra casa. Porém, se acontecesse alguma dificuldade intestinal, que o obrigasse a “ir para a terra”, a coisa ficava complicada. Dentro daquelas picadas estreitas onde se escondiam as melhores caças, não havia a ajuda da calçada altas da igreja ou dos alpendres que lhe ajudava a subir e descer, sem dificuldades, ao lombo da montaria. Mas se a tal necessidade acontecesse, depois de satisfeita, iniciava-se uma verdadeira operação de guerra para que aquela criatura, baixinha e desajeitada, retornasse sã e salva, ao lombo do animal.
Durante o tempo que viveu na Pipa, fez diversas amizades. Muito respeitado entre os nativos, foi compadre de vários deles, tendo apadrinhado um sem número de nativos. Orgulhava-se em dizer não ter idéia do número exato de afilhados. Todo mês de janeiro, durante a missa em homenagem ao padroeiro, lá estava ele a batizar outra leva de afilhados. Foi ele, que com poucos recursos e contando com a ajuda da mão de obra nativa, deu inicio a abertura da estrada que liga o distrito de Piau a Pipa. Sob seu comando muitos homens trabalharam no roço e destocamento do mato e na colocação de piçarro nos lugares onde a areia era mais frouxa e dificultava a passagem dos carros.
Contam os mais velhos, que em Goianinha, gostava de criar pássaros engaiolados. Certa vez, um desavisado gado de rua, resolveu transformar em refeição, um belo canário da terra, que era seu favorito. Depois de quebrar os ponteiros da gaiola feita com a resistente “barba de bode”, o felino comeu o canário, xodó do velho Joquinha. O pássaro, além de excelente cantador, também era um brigador feroz, quando disputava uma fêmea nas rinhas improvisadas à sombra dos “fícus benjamin”, que ornamentavam as ruas de Goianinha dos anos 50 e 60, ou da velha mangubeiras ao lado da igreja.
Inconformado com a perda do seu canário resolveu se vingar. Preparou uma arapuca para o felino que retornou no dia seguinte, na esperança de conseguir mais uma fácil refeição. Depois de aprisionado, o genioso Joquinha pegou o pobre animal pela cabeça e sem nenhuma piedade, ralou nas pedras da calçada, o focinho do infeliz, enquanto repetia... Nunca mais você vai comer passarinho de ninguém! Em seguida, soltou o pobre animal que nunca mais apareceu nas redondezas.
Fazia questão de exaltar sua condição de ateu mas nunca recusou o apadrinhamento de um pagão. Em 1969, encontrava-se hospedado, no Hospital da Polícia, tratando de um câncer de intestino. Certo dia foi avisado que já se encontrava naquele hospital, o então governador do Estado Monsenhor Walfredo Gurgel, muito seu amigo, que sabendo de sua enfermidade, tinha vindo lhe fazer uma visita. Nesse dia ele estava passando por uma crise terrível com dores insuportáveis. Mesmo assim, não teve dúvidas quando sua sobrinha Zilda Simonetti aparece na porta do quarto muito nervosa e com olhos muito arregalados lhe informa: tio Joquinha, o Governador veio lhe visitar! . . . E ele, em baixo de todo aquele sofrimento sentencia: diga a ele que se vier como amigo ou político, permito a visita. Mas, se vier como PADRE, dê meia volta e vá embora.
Assim era tio Joquinha, não mudou de opinião nem na hora da morte. Expressou sua última vontade com o seguinte pedido: nasci só e passei toda minha vida só. Portanto não quero companhia depois de morto. Quando eu morrer, mande lacrar meu tumulo para que nele, ninguém mais seja enterrado. E seu desejo foi cumprido à risca.
Pipa, janeiro de 2010.
sábado, 23 de janeiro de 2010
ACTAS DIURNAS
Oi Ormuz gosto imensamente de receber as famosas actas, lia e relia constantemente lá na casa de minha avo, o "livro das velhas figuras" de Cascudo, creio ser bastante parecido. Será que as atas são compilações do referido livro? Pergunto, pois parou-me a duvida. Finalmente, mas não menos importante gostaria de saber se existe alguma ligação entre o Fagundes de Bartolomeu Fagundes e o Cabral Fagundes de Goianinha? Haja vista que Vila Flor faz divisa com Goianinha, sendo sua distancia deveras pequena. Desde já agradeço a gentileza do envio dos e-mails,como também, gostaria de obter as respostas das possíveis elucidações!
Abraço.
Gustavo Gadelha
Natal-RN
Abraço.
Gustavo Gadelha
Natal-RN
ACTAS DIURNAS
Só assim nós tomamos conhecimento de vários fatos históricos da nossa terra e do nosso povo.
Carlos Cabral
Natal RN
Carlos Cabral
Natal RN
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
ACTAS DIURNAS
Caros amigos: Os leitores que por ventura estejam interessados em receber, via e-mail, semanalmente, as ACTAS DIURNAS escritas pelo mestre Câmara Cascudo e publicadas entre as décadas de 30 e início dos anos 60, enviar correspondência para www.ormuzsimonetti@yahoo.com.br. Estas pulicações foram reunidas em 10 volumes intitulados "Livro das Velhas Figuras" e estão a disposição para consulta no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte-IHGRN.
Abraço a todos
Ormuz B. Simonetti
Abraço a todos
Ormuz B. Simonetti
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
A PRAIA DA PIPA DOS MEUS AVÓS
Ormuz, que história maravilhosa!
Só senti falta de fotos, das imagens e do pedestal.
Mas adorei essa história!
Clotilde Tavares
Natal-RN
Só senti falta de fotos, das imagens e do pedestal.
Mas adorei essa história!
Clotilde Tavares
Natal-RN
A PRAIA DA PIPA DOS MEUS AVÓS
muito bonita a história de fé e perseverança na fixação da imagem do padroeiro de Pipa. Gostei de conhecer.
Fátima Farias
Fátima Farias
A PRAIA DA PIPA DOS MEUS AVÓS
Meu caro primo, Ormuz
Parabenizo pelo texto...entusiasmo...sensibilidade, e, pelo compromisso que nasce no teu interior, de poder contar e cantar a "PRAIA DA PIPA, " as verdades de uma história, que nem mesmo o tempo não apaga.
meu abraço
Alfredo Fagundes
João Pessoa PB
Parabenizo pelo texto...entusiasmo...sensibilidade, e, pelo compromisso que nasce no teu interior, de poder contar e cantar a "PRAIA DA PIPA, " as verdades de uma história, que nem mesmo o tempo não apaga.
meu abraço
Alfredo Fagundes
João Pessoa PB
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