sexta-feira, 6 de novembro de 2009

GENEALOGIA DOS TRONCOS FAMILIARES DE GOIANINHA

Em 2008, o norte-riograndense Ormuz Barbalho Simonetti publicou o seu "GENEALOGIA dos Troncos Familiares de Goianinha - RN". Um portentoso livro que resultou dos estudos que o genealogista realizou, inicialmente em seu próprio núcleo familiar, e que foram a seguir ampliados por suas exaustivas pesquisas em bibliotecas, igrejas, cemitérios, Instituto Histórico e Geográfico (IHGRN) e Cúria Metropolitana de Natal.
Reunindo e organizando esses dados obtidos com paciência beneditina, Ormuz logrou construir as árvores genealógicas dos dez principais troncos familiares de Goianinha: Revoredo, Grillo, Barbalho, Barbalho de Jacumirim - Serrinha, Barbalho de Afonso Bezerra, Simonetti, Villa, Lisboa, Fagundes e Marinho. De modo a mapear cerca de doze mil almas dessas famílias potiguares, em suas intrincadas e complexas relações parentais através dos tempos, e o que certamente faz da obra "GENEALOGIA" uma das maiores do gênero no Brasil.
E se é fato que Rio Grande do Norte muito deve à Goianinha, este município também muito passa a dever a Ormuz por seu importante trabalho.


Abraço.

Paulo Gurgel Carlos da Silva
Frtaleza - CE

terça-feira, 3 de novembro de 2009

A PRAIA DA PIPA DOS MEUS AVÓS

Valeu Ormuz.
Ao meu ver, um dos melhores textos seus.
Cada vez mais aprimorados.

Bartomeu Correia de Melo(Bartola)
Natal-RN

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A PRAIA DA PIPA DOS MEUS AVÓS

ORMUZ BARBALHO SIMONETTI (Presidente do Instituto Norte-Riograndense de Genealogia-INRG e membro do IHGRN)
www.ormuzsimonetti@yahoo.com.br

Publicada no "O JORNAL DE HOJE" dia 30 de outubro de 2009

PIPA, SAUDOSOS VERANISTAS – Maurinio Sena

No dia 07 de fevereiro de 1981 foi feito o primeiro teste da energia elétrica na Pipa. Logo em seguida, todos os veranistas se apressaram para instalar em cacimbas já existentes, ou em poços artesianos previamente cavados, bombas elétricas para abastecer as caixas d’água. Esse abastecimento até então feito com muito sacrifício à custa de horas a fio, “se exercitando” nas antigas e pesadas bombas manuais “Morumbi”, que na época era o que de melhor existia no mercado.

Para se conseguir pouco mais de 1.000 litros d’água, era preciso muito suor e alguns calos nas mãos. Essa tarefa era delegada aos homens da casa já que as mulheres se encarregavam apenas de gastar o precioso líquido em suas atividades domésticas. E como quem recebe “de graça” não se preocupa em gastar, nossas mãos viviam cheias de calos.

Foi nessa época que eu, juntamente com os saudosos Múcio Barbalho e Evilásio de Souza Lima, nos especializamos na instalação desses equipamentos. Esse serviço, embora gratuito, era executado com todo profissionalismo da equipe, que sempre dava um jeito de receber pelo “serviço prestado” de uma forma, digamos, mais sutil. Os serviços eram agendados sempre para os fins-de-semana. Começávamos lá pelas 10 horas da manhã, para que, calculadamente, pudéssemos chegar e atravessar com folga a hora do almoço. A única responsabilidade do dono da casa era de nos abastecer, durante a realização do serviço, com cerveja gelada, cachaça e tira-gostos, também chamados na época de parede, à vontade.

Numa dessas ocasiões, a instalação da bomba foi na casa de Maurinio Sena. Como ele ainda não havia feito o poço, que na praia era conhecido como “poço tubular”, por ser feito com tubos de PVC, o equipamento seria instalado numa cacimba. Começamos o serviço na hora marcada e com pouco mais de uma hora e meia de trabalho o equipamento já estava pronto para o funcionamento. Era nesse instante que começava toda a malandragem. Alguém dava um jeito de afrouxar uma das conexões que ficavam longe das vistas dos curiosos e isso provocava a entrada de ar no sistema, impedindo seu funcionamento. Era então feito uma pausa para o descanso que sempre vinha acompanhada das bebidas e dos petiscos.

Depois de várias horas de descanso, sempre alguém se oferecia para resolver o “problema”, mas nunca encontrava o tal defeito. Nesse dia especificamente, o problema só teve solução quando já escurecia e os técnicos, juntamente com outros participantes da farra, já bem “melados”, tinham devorado todo o tira gosto disponível e já estavam tomando, como caldo, até mesmo a sopa que dona Lindalva, esposa de Maurinio, havia preparado para o jantar. E tudo isso com a devida cumplicidade do esposo, que era quem mais gostava dessas brincadeiras. Essa intimidade era comum entre nós. Numa dessas farras na minha casa, Maurinio passava pela cozinha, retornando do banheiro, quando viu a mamadeira de leite que minha esposa tinha preparado para nossa primeira filha, hoje com 30 anos de idade. Não teve dúvidas, atacou a mamadeira e sem mesmo tirar o bico, tomou o mingau até o último gole, depois de mandar para dentro uma boa lapada de cana.

Começou a freqüentar a Pipa nos anos cinqüenta e se hospedava na casa de Arthur de Flora. Os veraneios começaram em 1978 logo após ter comprado a casa que pertencia a Francisquinho. A partir desse ano, sempre passava os meses de janeiro e fevereiro veraneando com a família e só retornava à Natal, como a maioria dos veranistas, após o carnaval. Com o seu jeito simples e amigável, conquistou logo a comunidade e também os veranistas. Como sua casa ficava em frente ao porto dos barcos, sempre aos finais de tarde lá estava ele em seu alpendre, rodeado de pescadores, que iam trocar dois dedos de prosa, enquanto aguardava os botes que regressavam da pesca. Foi esse relacionamento fraterno que mantinha com a comunidade, que no fatídico dia 7 de fevereiro de 1994, dia de sua morte, presenciamos, emocionados, a maior prova de amizade e gratidão dos nativos para com aquele que esteve sempre à disposição daquela comunidade.

Inexplicavelmente, resolveu comemorar seu aniversário uma semana antes. Fez uma grande festa em sua casa e foi muito prestigiado com a presença de parentes e amigos. No outro dia, acordou mais cede que de costume e não esperou pelo seu amigo e companheiro de caminhada, Edison Costa de Mello. Naquela manhã, resolveu caminhar sozinho. Seguiu no sentido da Pedra do Moleque e chegou até a praia das Minas, onde seu corpo foi encontrado por um grupo de turistas, que também faziam caminhadas naquelas praias desertas, já próximo a praia de Sibaúma.

Logo chegou a notícia na Pipa e muitas pessoas da comunidade correram para o local. Eram homens, mulheres e até crianças que seguiam os pais, todos fizeram questão de ir ao local onde o corpo ainda se encontrava.
Depois que uma das filhas autorizou a remoção, os homens o puseram em uma rede e o conduziu, barreira acima, em terreno íngreme e de difícil caminhada, até a Pipa. O cortejo seguiu no mais completo silêncio, em respeito à dor dos familiares e amigos daquele que por tantos anos conviveu naquela comunidade como se lá tivesse nascido. Tinha tantas mãos e ombros querendo ajudar naquela caminhada de volta pra casa, que muitas vezes, o pau da vela de um barco, que utilizaram para armar a rede onde conduziram o corpo, era a toda hora disputado por aqueles que seguiam o triste cortejo. Foi deveras emocionante essa demonstração de respeito e amizade.

Várias pessoas na Pipa se ofereceram para trazê-lo, de onde ele foi encontrado, em seu carro, percorrendo uma precária estrada que chegava próxima a praia das Minas, o que foi prontamente recusado. Os amigos fizeram questão que o seu último retorno para casa, fosse feito em seus ombros e braços. Queriam com essa atitude prestar a última homenagear ao amigo e companheiro que muito embora nascido em terras Pernambucana, adotou aquele pedaço de chão como sendo a sua terra natal.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

ASSEMBLÉIA GERAL EXTRAORDINÁRIA - CONVOCAÇÃO

INSTITUTO NORTE-RIOGRANDENSE DE GENEALOGIA – INRG
CONVOCAÇÃO DE ASSEMBLÉIA GERAL EXTRAORDINÁRIA

O INSTITUTO NORTE-RIOGRANDENSE DE GENEALOGIA – INRG, através do seu Presidente, no final assinado, vem convocar todos os seus sócios fundadores para uma Assembléia Geral Extraordinária, da forma seguinte:
Data: dia 16 (dezesseis) de novembro do ano em curso.
Local: Rua Mipibu nº 443 – Cidade Alta (Academia Norte-rio-grandense de Letras).
Horário: 17:00 (dezessete) horas, em primeira convocação, com no mínimo 1/3 (um terço) do seu quadro social e, em segunda convocação, pelas 17:30 (dezessete e trinta) horas, com qualquer número.
Finalidade: apreciar e decidir sobre o seu Estatuto Social, para fins de registro no Cartório de Registro de Pessoas Jurídicas desta Comarca de Natal e demais providências de direito e apreciar outros assuntos correlatos.

Natal, 04 de novembro de 2009

ORMUZ BARBALHO SIMONETTI
Presidente

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

INSTITUTO HISTÓRICO DO ESPÍRITO SANTO

Convite

A Assembleia Legislativa do Estado do Espírito Santo, por meio de seu presidente, deputado Elcio Alvares, deputada Luzia Toledo, Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, e a Academia Espírito-santense de Letras, tem o prazer de convidar V. Exa. para a Sessão Especial para palestras sobre data comemorativa do Sesquicentenário do nascimento de Afonso Cláudio.

21 de outubro de 2009 (quarta-feira)

19h

Plenário Dirceu Cardoso - Assembleia Legislativa do Espírito Santo.

sábado, 17 de outubro de 2009

A PRAIA DA PIPA DOS MEUS AVÓS

Caro Ormuz, a sua cronica -"Pipa - Agricultura e fervilhado", confirma a sua capacidade de ESCRITOR. A descrição que você faz da mandioca desde a sua plantação até o final do seu aproveitamento, o "fervilhado" tão gostoso e apreciado por todos os veranistas , bem como todo o teor da crônica, as casas de
farinha, etc. com tanta propriedade não só é valorizada e emocionante , como também compreendida por quem vivenciou, como eu no Engenho Bom Destino , do meu sogro Antonio Conrado que tinha também Casa de Farinha . Eu, que morava ali,. gostava de ir a Casa de farinha , conversar com aqueles mais velhos que contavam estorias engraçadas e me impressionava com os moedores de mandioca que mesmo moendo a roda não deixavam de cantar ou de assobiar, animando o ambiente,Você meu amigo, a cada crônica que leio, me faz lembrar tantas coisas boas , as vezes nem tanto, mas todas emocionantes que me remetem a minha convivência com Evilásio, cuja lembrança é uma costante em todas essas passagens ai na Pipa. Parabens e que Deus te ilumine cada vez mais.Beijos.

Geraldina Fagundes - Dina
Goianinha - RN

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A PRAIA DA PIPA DOS MEUS AVÓS

ORMUZ BARBALHO SIMONETTI (Presidente do Instituto Norte-Riograndense de Genealogia-INRG e membro do IHGRN)

www.ormuzsimonetti@yahoo.com.br

PIPA – A AGRICULTURA E O FREVILHADO

“Eu tava na peneira eu tava peneirando eu tava no namoro eu tava namorando."

Até a década de 80, a comunidade da Pipa vivia exclusivamente da pesca e da agricultura. Os “roçados” eram feitos em cima das falésias onde outrora se debruçava a mata atlântica. Na preparação dos roçados, primeiro se escolhia um local que tivesse a vegetação menos densa para facilitar o desmate, em seguida o mato era cortado de foice, operação que se dava o nome de “broca”.
Dias depois, quando o mato já estava bem seco, se ateava fogo, a maneira mais fácil e barata de limpar a área. Essa prática também contribuía na fertilização da terra pelas cinzas ricas em fósforo e potássio, produzidos pela queima do mato. Os índios, nossos primeiros habitantes, já se utilizavam dessa técnica no plantio de seus roçados também chamados de mandiotuba. Nos dias de hoje, a queimada ainda é bastante utilizada em todo o país, principalmente pelas comunidades mais pobres.

Os roçados, a princípio feitos próximos as moradias, com o passar do tempo e pelo esgotamento da terra, iam sendo localizados mais distantes, sempre em direção ao rio Galhardo. Como a tendência da terra era enfraquecer, seja pelo manejo inadequado do solo ou pelo uso de técnicas rudimentares no seu preparo, essas áreas eram exploradas no máximo por dois anos. Ao fim desse período, o roçado era mudado para outro local e começavam tudo novamente.

O preparo da terra se dava no início de setembro para que pudessem realizar o plantio nas primeiras chuvas ocorridas em janeiro, conhecidas como chuva do caju. Nesses roçados plantavam feijão, milho e principalmente a mandioca e em quantidade reduzida também a macaxeira, conhecida no sul do país pelo nome de aipim. A macaxeira, mais exigente em relação ao tipo solo, era cultivada de preferência em áreas úmidas de paul e aluvião. Esses solos só eram encontrados as margens do rio Galhardo.

O feijão e o milho sempre eram plantavam em consórcio com a mandioca, para um melhor aproveitamento de área. Por terem círculos vegetativos diferentes, primeiro era colhido o feijão, verde e seco, acontecendo da mesma forma com o milho. Este, quando colhido verde, era muito utilizado na confecção de canjicas, bolos e pamonhas. E por último a mandioca, que tendo um círculo mais longo, era colhida somente no ano seguinte.

Os cereais, depois de separado o que seria consumido pela família durante o ano, eram comercializados nas feiras de Goianinha, Arês, Canguaretama e Vila Flor. Já a mandioca, passava por vários processos antes de sua comercialização. Como na época não havia o hábito da venda do produto “in natura” destinado a ração animal, prática muito utilizada na atualidade, as raízes eram beneficiadas antes de sua comercialização.

O beneficiamento era feito nas chamadas “casas de farinha”. Depois de colhidas as raízes eram descascadas em seguida passadas em um ralador e transformava-se em uma massa. Esta depois de prensada era levada ao forno para ser torrada e transformava em farinha, base da alimentação da comunidade. Além da farinha, também se extraia a fécula, conhecida como goma, que da mandioca é o produto mais nobre. Dela se fabrica tapiocas, beijus, conhecido como mbyú, grudes, biscoitos, sequilhos etc.

Foi por volta do ano de 1930 que Chico de Amara, pai de Maria Alves, teve a idéia de misturar à goma uma porção maior do coco seco ralado que já utilizava na fabricação do “grude”. Depois, sem que a mistura fosse comprimida, era levada ao forno por alguns minutos, de onde nasceu o famoso “frevilhado”. Essa espécie de tapioca, redonda com média de 8 cm de diâmetro, tem sabor inigualável, além de muito apreciado pelos nativos, também era bastante consumida pelos veranistas e os poucos visitantes que se aventuravam na Pipa daquela época. Posteriormente, várias pessoas da comunidade passaram a produzir o frevilhado. Este era vendido, durante a semana, na própria comunidade e nos fins de semana nas feiras da região.

Maria Alves, nativa da praia da Pipa, que ainda hoje se dedica à sua fabricação, conta que desde muito pequena conviveu com essa atividade. Seu pai, criador da guloseima, conseguiu sustentar toda a família com a venda de produtos derivados da mandioca, principalmente o frevilhado. Naquela época a comercialização era realizada nas cidades mais próximas. Dependendo do dia da feira, o frivilhado era feito sempre na véspera, à noite arrumava a produção em um balaio, que além dos frevilhados levavam: grudes, beijus e tapiocas.

Acomodado na cabeça, o balaio bem recheado e pesando média de 20 quilos, era conduzido pelos homens, que viajavam, a pé, geralmente acompanhados por filhos ou esposa. Saia da Pipa aí pelas 10 horas e andavam durante toda a noite para amanhecer o dia no local das feiras. A recompensa pelo tamanho sacrifício era a certeza do retorno pra casa com a produção toda vendida, alguns cruzeiros no bolso e o balaio bem mais maneiro.

Durante esse período existiam na Pipa várias casas de farinha. A primeira foi a do velho Castelo, pai de Domitila que ficava onde hoje é a casa de Honório. Depois vieram a de João Pegado, Chico Marcelina, Tereza, Zé Gago e Manoel Lopes. No auge da produção de mandioca, todas essas casas de farinha trabalhavam dia e noite para dar conta das colheitas. Os agricultores que não possuíam essas casas de beneficiamento, alugavam dos outros que eram proprietários. Esse aluguel era pago com um percentual da produção que se dava o nome de “conga”. A cada 30 cuias de farinha produzidas, seis eram dadas em pagamento.

A primeira casa de farinha construída na Pipa foi a de Vicência Castelo e a última a de Manoel Lopes que foi demolida em 1982. Até a década de 80 era comum, durante o veraneio, agente ser acordado bem cedo, aí pelas seis da matina, com os gritos estridulante dos garotos que anunciavam: i êêê o friviaaaaaaaaaaaaadoooooo, bem fresquiiiiiiinhooooo.

As terras, outrora plantadas com lavoura, hoje estão tomadas por casas de morada, hotéis e pousadas, numa desenfreada especulação imobiliária que enriquece alguns poucos e empobrece e marginaliza os nativos. As matas foram devastadas e com ela a frágil fauna existente na região. O coelho, a cutia, o jacú e a sariema, desapareceram completamente. Até mesmo os periquitos jandaia que revoavam em bandos com seu chalrar estridentes, há tempos já não são vistos. Apenas as rolinhas cafofa, imponentes no seu porte e com suas vistosas penas pedrês, empoleiradas nas cumieiras das casas, ainda insiste no seu canto triste, “fogo-pagou”. . . “ fogo-pagou” . . .”fogo-pagou”, numa luta desesperada para sobreviver, em uma Pipa moderna, que não pára de crescer.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A PRAIA DA PIPA DOS MEUS AVÓS

Caro primo Ormuz,

Sinto-me imensamente feliz ao ler com atenção as crônicas publicadas por você sobre a Pipa, flagrantes colhidos em seus veraneios, as peculiares viagens de ida e vinda, especialmente, dos muitos veranistas que marcaram aquele pequeno Torrão querido e seus freqüentadores e nativos, pelo amor, alegria e desconcentração, criando profundo elo de amizades naqueles tempos idos e vividos com muita intensidade até hoje.
Comecei a freqüentar a Pipa com um mês de vida. Foi a minha primeira viagem. Do Bemfica onde nasci, até lá, na diligência de vovô Odilon. Meus pais tinham aquele pequeno lugar como o paraíso de seus sonhos e de seu amor. O segmento da fantasia maior de suas vidas, de seus devaneios. Com eles e os demais familiares aprendemos a amar com indelével e intraduzível amor a Pipa, eterna em nossas vidas.
Segundo Fernando Sabino, “as nossas almas sempre pairam sobre os lugares onde um dia, fomos felizes”.
É assim que fica minha alma, quando os sonhos ou as lembranças evocam a praia onde tudo fala ao coração, pela expressão exuberante de suas belezas naturais, a calidez de suas águas cristalinas, o nascer do sol e da lua por traz do coqueiral do inesquecível Morro dos Amores, palco e testemunha das manifestações do amor de nossa juventude. Quem não se lembra do por do sol com a grandiosa visão dos barcos adentrando a boca da barra com suas velas brancas ao retornarem de suas heróicas pescarias em alto mar!
Trago a marca registrada na memória o encantamento que a Pipa proporciona aos corações enamorados, em suas noites de luar, embaladas pela harmonia entre o barulho das ondas e as melodias românticas que soam aos ouvidos com o selo da imortalidade.
Portanto, meu queridíssimo primo Ormuz, você me fez novamente passear pelo recanto da utopia que se chama Pipa, em suas páginas inspiradas e inspiradoras.
Colocou-me frente a muitos dos nossos familiares e amigos que, saudosamente, partiram para a eternidade e nos legaram muito do que somos e temos. Foi assim que ao falar de Cleto Gadelha, proporcionou a memória já um tanto adormecida pelo tempo, mergulhar fundo nos valores humanos e transcendentais desta pessoa ímpar que a genética tornou-me sua sobrinha, e a amizade, retidão de propósito, solidariedade, extremo amor e dedicação pela família, fez-me e a muitos seus admiradores. Amava estes momentos de veraneios, que eram e são grandes encontros, de forma total, profunda, contagiando pela sua alegria, especialmente, quando de promissoras pescarias e caçadas, sempre comemoradas com várias “lapadas”, regadas de apetitosos tira-gostos. Ele por assim dizer, trazia a Pipa submersa no íntimo do seu ser total, não cabendo em seu pensar, lugar melhor que não se chamasse Pipa, festejos e veraneios, comparáveis com os vivenciados lá. E de lá só saiu para experimentar os semelhantes valores nos páramos celestiais.
Que saudades!
Evilásio de Souza Lima, grande amigo, também lembrado por você, sem o qual não se reconstrói as memórias da Pipa “in totum”.
E agora me vem à memória Tio Luiz Grilo com sua alegria e seu anedotário e a forma peculiar e extrovertida da sua narração, sempre batendo as pernas, e, rindo bem antes da conclusão dos fatos. Ele também como Neném, Maria Gadelha, emolduram o quadro da Pipa, que hoje, você Ormuz, dá novo tom em seus escritos.
E para mostrar com clareza a Pipa ontem, você trouxe às suas páginas, a figura do meu Pai, Venício, que se preocupava com o conserto de todos os lampiões de gás, daquele pequeno recôndito, iluminando as suas saudosas noites escuras. Esta era sua missão maior: iluminar. Não só simbolicamente com as luzes dos lampiões de gás, mas com a alegria que lhe era tão peculiar, a intrínseca e obcecada amizade aos seus, tanto familiares, quanto amigos, a pronta solidariedade, a firmeza de caráter, de valores morais e de fé, adjetivos que lhe imortalizou em meu coração e na minha alma. A saudade do meu Pai é companheira compreensível, em todos os instantes do meu viver. Em tudo o que faço e que sou, há um muito dele.
É, Ormuz, você me levou ao misterioso mundo das lágrimas, pelas muitas lembranças trazidas à tona, no precioso compêndio que há de concluir, com a destreza que lhe é tão própria, afim de que muitos como eu, possam fazer a viagem de volta ao tempo e se identificar com a saudade gostosa dos momentos que experimentamos com muita propriedade no aconchego familiar a felicidade, na Pipa encantada dos seus contos, com a especial bênção do seu padroeiro, São Sebastião.

Natal, 10 de outubro de 2009.
VENEIDE BARBALHO DE MEDEIROS