domingo, 11 de maio de 2014

UMA LINDA MULHER - CIRENE BARBALHO SIMONETTI – HOMENAGEM AO DIA DAS MÃES

                      Aniversário de 80 anos de Cirene Barbalho Simonetti

Dona Cirene Barbalho Simonetti era a mais antiga e assídua veranistas da Praia da Pipa. Contava apenas três anos de idade quando chegou nesta praia pela primeira vez, em companhia de seus pais no distante ano 1926. Não podendo continuar com os veraneios na praia de Tibau do Sul, em virtude da cheia de 1924, meus avós escolheram a praia da Pipa, poucos quilômetros ao Sul, como substituta. Desde então, retornou religiosamente, todo meses de janeiro, pelos últimos 83 anos.
Tinha por essa praia um amor incondicional. Seu último veraneio foi em janeiro de 2009, quando sofreu uma isquemia e precisei socorrê-la às pressas pra Natal. Foi a mais longa viagem da minha vida, dado as dificuldades que enfrentei durante todo o percurso. Depois desse incidente, nunca mais retornou à praia que tanto amava.

Nasceu no dia 19 de abril de 1923 na cidade de Goianinha-RN. Passou sua infância entre o verdor dos canaviais que ondeavam o vale do engenho “Bem Fica” e a cidade onde nascera.  Como toda criança nascida nos antigos engenhos de cana-de-açúcar, passava boa parte do dia brincando com os irmãos entre a bagaceira, a casa das moendas, e as formas de açúcar dispostas na “casa de purgar”.

Quando criança, por várias vezes viajou dentro de caçuá em lombo de animal, do engenho “Bem Fica” até a praia da Pipa, onde passava com a família, os meses de janeiro. Fazia dupla com seu irmão Antônio (Tio Tonho) que adorava dizer que era como irmãos gêmeos. Sendo praticamente da mesma idade, com apenas um ano de diferença, partilhavam alguns pertences. Um par de alpargatas servia para os dois. Quando um ia à cidade, o outro, resignado, ficava em casa.

Na adolescência, já demonstrava uma grande habilidade quando cavalgava do engenho à Goianinha, distante poucos quilômetros. Nos períodos de férias da Escola Doméstica, onde estudou por vários anos, retornava ao engenho e livre da rigidez disciplinar, entregava-se de corpo e alma as mesmas brincadeiras de menina de engenho. Gostava de “pegar parelha” com os irmãos em desabaladas corridas no pátio, em frente à casa-grande, onde se lia no alto em letras graúdas “Vila Elvira”, em homenagem à minha avó, Elvira Macionila Barbalho. Nesta brincadeira, ela quase sempre saia vencedora o que era motivo de zombaria aos que perdiam.

Na época, em que as viagens para a Pipa eram feitas a cavalo, mamãe ganhara de meu avô Odilon Barbalho, um cavalo e lhe deu o nome de “trinta e um”. Montada em cilhão desafiava os irmãos ou primos para disputar corridas ao longo de toda a viagem.

Nas longas conversas que tivemos sempre recordava saudosa, momentos felizes de sua infância. Contava que gostava de procurar ninhos de pássaros nos arvoredos próximos a casa grande, tomar banho nas tapagens – barragens feitas nas levadas para aguar os partidos de canas-de-açucar -, ou simplesmente de contemplar o céu em dias ensolarados, tentando adivinhar figuras que se formavam nas nuvens de algodão. À noite, procurava no céu escuro, estrelas cadentes para a elas fazer pedidos ou lhe contar seus segredos de criança. 

Falava do quintal da casa grande cheio de mangueiras, goiabeiras, araçazeiros, laranjeiras e uma jabuticabeiras que freqüentemente subia para se esconder dos irmãos, ou quando queria simplesmente ficar sozinha. Lá mais pro fim do quintal, perto do rio, torceiras de cana Caiana e Flor de Cuba, onde gostava de chupar seus roletes molinhos e doces.  Ao lado da casa, um grande pé de cajá-manga onde todas as manhãs, reuniam-se sanhaços, xexéus, galos de campinas, canários da terra e tantos outros pássaros que gorjeavam, saudando o milagre do amanhecer de mais um dia. 

Dizia que ainda podia sentir o cheiro doce do caldo da cana, cozinhando nos grandes tachos de bronze para fazer o açúcar mascavo. Logo as lembranças lhe chegavam com tamanha intensidade que, por diversas vezes, pude observar em seu semblante, que em devaneios, revivia aqueles momentos, ao tempo em que os pensamentos voavam para o velho engenho. Falava do rangido das moendas amassando a cana, o caldo escuro escorrendo para os tanques de armazenamento, o bagaço sendo transportado pelos animais que arrastando um couro de boi, levavam para o pátio o que sobrava das moendas. Quantas vezes, em brincadeiras com outras crianças, subia naquele couro junto com o monte de bagaço para ser levada também até o pátio. Recordava o feitor que aos berros, dirigia homens e animais, naquele frenético vai e vem de burros, cambiteiros e puxadores de bagaço. Lembrava do mestre de açúcar e descrevia seus movimentos precisos, transportando de um tacho pra outro, o caldo quente que cada vez mais apurado, ia se transformando em açúcar. O cheiro doce do “mel de furo”, escorrendo das formas de açúcar, que descansavam na “casa de purgar”.

Quando criança chegou a morar um tempo na casa do meu pai, e seu cunhado, Arnaldo Barbalho Simonetti, na cidade de Macaíba, recém casado com sua irmã mais velha, Inaldy Barbalho. Com apenas 11 anos de idade, foi ajudar a irmã que descansara de seu primeiro e único filho Dante Simonetti. Quis o destino que tempos depois, com a morte prematura da irmã, viesse a se casar com ele, que também era seu primo legítimo.
No início de seu casamento, morou em São José de Mipibu, onde nasceram três de seus filhos, inclusive eu. Os outros dois nasceram em Natal. Gostava de recordar o tempo das campanhas políticas, quando em 1947 meu pai elegeu-se deputado à Assembléia Constituinte.

Teve cinco filhos e foi muito feliz durante cinqüenta anos que permaneceu ao lado daquele homem, treze anos mais velho, que a amou e respeitou até o último dia de sua existência aqui na terra.
Não gostava de seu nome. Dizia ter sido um viajante, que em passagem pelo engenho, vendo minha avó grávida, sugeriu o nome. Ela ainda completava: “Que falta de sorte!” Ultimamente, por brincadeira, eu só a chamava de CIRLENE e ela dizia: ”Esse sim é mais bonito!”

A alegria era sua principal característica que, embora contrapondo com a sisudez de papai, nunca foi por ele reprimida. Nos veraneios da Pipa, sempre promovia brincadeiras para distrair a família. Incentivava o roubo de galinhas nas casas dos parentes que virada em tira-gosto de uma boa cachaça, animava os banhos de mar à luz de lampiões ou em noites de lua clara. Todos os veraneios, volta e meia, gostava de reunir no alpendre de sua casa amigos e parentes para degustar seu maravilhoso “arroz doce”, feito com açúcar mascavo.

Como todo ser humano, também teve suas dores e decepções. A perda do meu pai foi um grande golpe em sua vida. Tempos depois perdia dois dos seus amados filhos. Ninguém deveria sepultar os filhos. A recíproca é verdadeira. O caminho natural é que os filhos sepultem seus pais. Quando a mão de Deus interfere nessa trajetória, a dor é incomensurável. Só alguém que a sentiu, pode avaliá-la. Rogo a Deus, para que nunca me aconteça tal infortúnio.

Nos últimos 10 anos estive muito presente na vida de minha mãe. Durante esse tempo, pelo menos cinco dias da semana, almoçávamos junto. Após as refeições, ficávamos a conversar. Ela gostava de lembrar a infância na casa-grande do engenho Bem Fica, dos meses de julho que, passava na fazenda Lagoa Nova, propriedade que meu avô possuía no município de Santo Antônio.

Adorava cantar e ouvir músicas. Tinha uma grande coleção de CDs e gostava de dormir ouvindo seus cantores preferidos, entre eles Roberto Carlos e o Trio Iraquitã. Declamava poesias aprendidas quando criança nos bancos do Grupo Escolar Moreira Brandão. Lembro que nos emocionava quando recitava, sem tropeços, a poesia que mais gostava:  “Pássaro Cativo”.
 “Arma-se em um galho de árvore um alçapão e em breve uma avezinha descuidada, batendo as azas cai na escravidão”. . .  

Depois da isquemia ela foi ficando mais calada. Já não tinha a vivacidade de outrora. Sempre que terminávamos o almoço, pedia pra se deitar. Às vezes ficava calada durante toda a refeição. Eu sempre procurei entende-la e respeitar aquele momento, muito embora me doesse profundamente vê-la com o olhar perdido, mergulhada em seus pensamentos. Entretanto eu sabia que a minha simples presença ao seu lado, lhe trazia conforto e segurança. Ficávamos ali, sentados, em silêncio, até que ela pedisse pra se deitar.

Ultimamente, vez por outra, dizia que estava com muita saudade de papai e que tinha sido muito feliz no casamento. Lembrava dos parentes já falecidos e coisas dessa natureza. Outras vezes apenas dizia: “Meu filho, estou muito velha e cansada”! Parece que Deus, na sua divina sapiência, dota as pessoas, em momentos de suas vidas, de conformação. A idéia da morte já não as assusta. Inconscientemente ela sabia que já tinha cumprido aqui na terra, sua missão. 

No último dia 8 de fevereiro ela partiu. Seu semblante era tranqüilo e refletia a paz dos justos. Não se observava em seu rosto nenhum traço de sofrimento. Dormia como tantas vezes a vi dormir em seu quarto, que há algum tempo tinha se transformado em seu refugio preferido. A exemplo de meu pai e meus dois irmão, foi contemplada com a partida sem sofrimento e hoje, está reunida em comunhão com todos os parentes e amigos, ao lado do Criador.

Obrigado mãe, pelo amor que nos dedicou, pela alegria que nos contagiou, pelo exemplo que nos deixou e por todos esses anos felizes que vivemos ao seu lado.


Pipa, fevereiro de 2010.



sábado, 10 de maio de 2014

VELHO ENGENHO Edgar Barbosa - Imagens do Tempo - 1966


Dentro do nevoeiro do vale mal se entrevem os despojos do velho engenho morto. A casa está em ruínas e uma erva hostil cresce, silenciosa, por toda a bagaceira, invadiu os alpendres e assenhoreou-se do chão onde nunca mais pisou o pé humano.

Que fim levaram os antigos moradores? Onde os meninos trêfegos, os mestres, os cambiteiros, os animais e as aves que alertavam as madrugadas?

Tudo parece morto, não há sinal de vida dentro do grande vale onde outrora ecoavam os rumores do trabalho e as alegrias das safras exuberantes. Os próprios caminhos estão ocultos ou se tornaram sendas misteriosas de um mundo perdido. As chuvas os transformaram em barrancos, as formigas, às suas margens, construíram sossegadamente o seu reino. E à noite, sob as estrelas, as corujas desferem o seu canto soturno e imprimem ao velho engenho um aspecto de câmara ardente.


Entretanto, a terra, em redor, clama por que a fecundem. As árvores, embora maltratadas e esquecidas, guardam no porte a majestade dos dias que foram belas. Coroando o outeiro, como um penacho real, ergue-se um pau d’arco de cem anos, que ainda floresce como no tempo de jovem. E tudo isso paira, ali, no exílio, como se fosse um continente ignorado, lembrando a terra depois do dilúvio.

Eis um crime para o qual não há pena. Esse êxodo de ingratos e de emasculados, que arrancaram suas próprias raízes para ir vegetar adiante, como parasitas, mereciam um castigo. Eles, os senhores, meninos que se tornaram velhos, perderam-se nas ruas, passeiam displicentemente pelo asfalto das cidades, entretêm-se com as músicas e os cinemas, dançam e cantam nos clubes. A sua vida parece a dos presidiários que se consolam com o simples passar dos dias e das noites. A diferença é que esses fugitivos, sem alma nunca têm remorsos.



O velho engenho lá ficou, desmanchando-se pedra por pedra. Os maquinismos foram vendidos ou enferrujam, na sepultura das moitas, enquanto a erva cresce, silenciosa, afogando os alpendres, cobrindo como um sudário implacável, a bagaceira morta.


quinta-feira, 17 de abril de 2014

O SERMÃO DO CASAMENTO Mario Quintana




Mario Quintana foi um dos maiores poetas brasileiros. Nasceu em Alegrete, no Rio Grande do Sul, em 1906 e morreu em Porto Alegre. Sua poesia foi caracterizada especialmente pela simplicidade, utilização de uma linguagem coloquial e cotidiana, além de exprimir um sutil humor. Neste texto o poeta expressou o que achava do sermão dos padres durante o casamento.


"Em maio de 98, escrevi um texto em que afirmava que achava bonito o ritual do casamento na igreja, com seus vestidos brancos e tapetes vermelhos, mas que a única coisa que me desagradava era o sermão do padre:

'Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-lhe e respeitando-lhe até que a morte os separe?' 

EU FARIA ASSIM:
'Promete não deixar a paixão fazer de você uma pessoa controladora, e sim respeitar a individualidade do seu amado, lembrando sempre que ele não pertence a você e que está ao seu lado por livre e espontânea vontade?

Promete saber ser amiga(o) e ser amante, sabendo exatamente quando devem entrar em cena uma e outra, sem que isso lhe transforme numa pessoa de dupla identidade ou numa pessoa menos romântica?

Promete fazer da passagem dos anos uma via de amadurecimento e não uma via de cobranças por sonhos idealizados que não chegaram a se concretizar?

Promete sentir prazer de estar com a pessoa que você escolheu e ser feliz ao lado dela pelo simples fato de ela ser a pessoa que melhor conhece você e, portanto a mais bem preparada para lhe ajudar, assim como você a ela?

Promete se deixar conhecer?

Promete que seguirá sendo uma pessoa gentil, carinhosa e educada, que não usará a rotina como desculpa para sua falta de humor?

Promete que fará sexo sem pudores, que fará filhos por amor e por vontade, e não porque é o que esperam de você, e que os educará para serem independentes e bem informados sobre a realidade que os aguarda?

Promete que não falará mal da pessoa com quem casou só para arrancar risadas dos outros?
Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que sempre teve na sua vida, que você saberá responsabilizar-se por si mesmo sem ficar escravizado pelo outro e que saberá lidar com sua própria solidão, que casamento algum elimina?

Promete que será tão você mesmo quanto era minutos antes de entrar na igreja?

Sendo assim, declaro-os muito mais que marido e mulher.
Declaro-os maduros!

terça-feira, 1 de abril de 2014

A FESTA DOS 112 ANOS DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO RN


Texto do professor  Carlos Roberto de Miranda Gomes


Na mesa dos trabalhos a bandeira história do IHGRN, que há muito tempo não era apresentada nas solenidades. Esteve presente o Presidente Honorário Vitalício Jurandyr Navarro da Costa.
 

Se fizeram presentes o Governo do Estado (Isaura Rosado), a Prefeitura de Natal (Henrique Holanda), o Poder Legislativo Estadual (Deputado Hermano Morais), a Igreja Católica (Padre Francisco Flávio), a Prefeitura de Guamaré, As Academias Norte-Rio-Grandense de Letras (Paulo Macedo), Cearamirinense de Letras (Emmanoel Cavalcanti), Macaibense de Letras, (Sheila Ramalho),de Letras Jurídicas (Adilson Gurgel), o Instituto Ludovicus (Daliana Cascudo), a Academia Nacional de Folclore (Severino Vicente), o Exército brasileiro (Major Nilo e Capitão Bastiani), a Polícia Militar (Coronel Angelo Dantas), a UFRN (Professora Maria da Conceição Fraga), o IPHAN (Onésimo Jerônimo Santos), o Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano (George Felix Cabral de Souza), a OAB/RN (Thiago Simonetti), as Secretarias de Educação do Estado e do Município de Natal (João Oliveira) e o Instituto Norte-Riograndense de Genealogia (Antônio Luiz).

A solenidade aconteceu no prédio do Centro Pastoral Dom Heitor de Araújo Sales, gentilmente cedido pelo Padre Francisco Flávio Herculano de Oliveira, pároco da Matriz e Nossa Senhora da Apresentação, com o comando do Presidente VALÉRIO ALFREDO MESQUITA, a participação de sua Diretoria e Conselho Fiscal e o cerimonial foi conduzido por Ana Grova.

     Ormuz Simonetti entrega o diploma de Sócio Benemérito a Antonio Luiz de Medeiros

Casa cheia de autoridades, muitos amigos e companheiros e até a Banda de Música da Gloriosa Polícia Militar. 
A rua estava iluminada pela Prefeitura e em perfeita segurança.
  
Foram apresentados os meus novos sócios, que tiveram seus nomes proclamados: Sócio Benemérito Antonio Luiz de Medeiros; Sócios Honorários Coronel José Hippólyto da Costa, Luiz Gonzaga Meira Bezerra e Cleóbulo Cortez Gomes; Sócios Correspondentes Maria de Lourdes Lauande Lacroix e Alberto Rostand Fernandes Lanverly de Melo e Sócios Efetivos Aldo Torquato da Silva, Diulinda Garcia de Medeiros Silva, Francisco Obery Rodrigues, Helder Alexandre Medeiros de Macedo, José Eduardo Vilar Cunha, José Humberto da Silva, Newton Mousinho de Albuquerque, Onésimo Jerônimo Santos, Paulo Heider Forte Feijó e Públio Otávio José de Sousa.

O Professor Cláudio Galvão trouxe o toque de saudade com a história da Instituição.
As arquitetas Dulce Albuquerque e Alenuska Lucena apresentaram as projeções para o que se pretende realizar no futuro.
  

O Presidente Valério Mesquita, em noite de grande inspiração, enalteceu a efeméride e prometeu retomar os serviços de restauração física do prédio e do acervo do Instituto, graças à suspensão do embargo pelo IPHAN, que considerou o grande presente ao aniversariante. 
Confraternização marcante, com concorrido coquetel.
Foi realmente uma comemoração marcante do INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO RIO GRANDE DO NORTE, conhecido como Casa da Memória por Câmara Cascudo. 



quarta-feira, 26 de março de 2014

O MAL QUE PODE FAZER UMA DENÚNCIA


Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes - secretário Geral do IHGRN
        
           A propósito do aniversário dos 112 anos do INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO RIO GRANDE DO NORTE, que transcorrerá no próximo dia 29, vimos tecer algumas considerações esclarecedoras aos nossos associados e à sociedade em geral.

         Há exatamente um ano assumiu uma nova Diretoria do IHGRN e desde então passou a dar expediente diário no anexo do Instituto, cuidando dos inúmeros problemas decorrentes da importância de manter em funcionamento uma Entidade de tão magna importância, sem contar com uma receita ordinária regular, carecendo de apelos às pessoas abnegadas e às organizações privadas e públicas, bem assim do desembolso dos próprios dirigentes.

         Em verdade logramos um relativo êxito conseguindo colocar em dia as obrigações de custeio e fiscais e obtendo numerário para dar início aos serviços de manutenção indispensáveis para a preservação física do prédio e do seu rico acervo.

       O trabalho foi iniciado, preparando-se uma sala para abrigar comissão responsável para o inventário dos documentos, obras e peças do Instituto e dando início aos serviços de pintura, colocação de vidros quebrados, climatização e recuperação do auditório que estava sem condições de uso em razão de depressão do piso e danificação quase total, então não visível, pelo fato de estar coberto com um carpete.

        Feita a remoção e compactado o aterramento, que estava tão inconsistente a ponto de permitir a introdução fácil de uma barra de ferro e, quando já se pensava em colocação de um piso novo eis que surge um “denunciante invisível” e provoca o IPHAN que logo tratou de lavrar auto de infração e o embargo do serviço, causando um transtorno inusitado.

     Este fato ocorreu em novembro do ano passado e até agora não teve desfecho, fazendo com que tenha ficado diminuído o espaço útil do Instituto, causando prejuízos aos usuários, além de danos patrimoniais, pois já aconteceram três furtos de equipamentos e a implosão espontânea de uma porta de vidro em razão do fechamento do recinto e agora se agravando com a chegada o inverno com a penetração de água pelas janelas sem vidro e infiltração nas paredes sem reparo.

       Nosso propósito era ter tudo pronto em dezembro de 2013, mas não foi possível. Agora as comemorações dos 112 anos e também não temos condições de realizar a solenidade na nossa Casa da Memória, em face de ainda persistir o embargo. Também está suspenso o trabalho do inventário do acervo.
     
       Contudo, decidimos enfrentar a realidade e vamos comemorar a efeméride em outro local, contando com a compreensão do Pároco da Matriz de Nossa Senhora da Apresentação que nos cedeu o prédio do Centro Pastoral Dom Heitor de Araújo Sales, na mesma rua da Conceição, nº 615, quase em frente ao nosso vetusto prédio.
   
      É bem possível que esse denunciante incógnito não tenha noção do quanto a sua atitude à sorrelfa tenha causado em prejuízo para a Secular Instituição de Cultura.

       Estamos à mercê dos porões da burocracia na expectativa de uma graça de que possamos retomar o sonho de uma gestão profícua e revolucionária para os pesquisadores e visitantes do velho Instituto.

     Ainda não perdemos a esperança e continuamos firmes no expediente diário, fazendo o que é possível fazer, sob o comando firme do Presidente Valério Mesquita, mesmo sem qualquer retribuição financeira, somente pelo amor à cultura e preservação da documentação histórica da terra potiguar.

         PRESTIGIEM A NOSSA FESTA!

  

AFINAL, QUEM CUIDARÁ DE MIM!


Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes - Secretário Geral do IHGRN.

Sou um ancião de 112 anos
E vivo em constantes dificuldades
Velado por algumas entidades
Que não compensam os tantos abandonos.

Todos me querem e proclamam o meu valor
Mas não ofertam o socorro que preciso
Neste caminho fico a mercê do improviso
Dos que me amam e conduzem o meu andor.

Ação profunda eu anseio seja notória
Para salvar o meu corpo de riqueza
Que meditem com a necessária profundeza
O destino desta Casa da Memória.

Chegam a dizer que cheguei ao fim da linha
Não tenho forças para continuar nova jornada
Mas não aceito essa fraqueza proclamada
E, como Fênix, farei da luta a vida minha.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Morre Dosinho, um dos principais carnavalescos do RN


Ele estava internado há quase 30 dias no hospital Promater, com quadro de infecção generalizada.

Gerlane Lima, 13 de março de 2014
·          
Morreu na manhã de hoje (13), Claudomiro Batista de Oliveira – Dosinho, um dos principais carnavalescos do Rio Grande do Norte.

Dosinho estava internado há quase 30 dias no hospital Promater. Ele estava em coma, com quadro de infecção generalizada. A família ainda não definiu o horário, nem local do velório.

Claudionor Batista de Oliveira nasceu na cidade de Campo Grande no Rio grande do Norte. Iniciou sua carreira fazendo composições para campanhas publicitárias e políticas. Foi assistente de orquestra da Rádio Nacional no Rio de Janeiro. Trabalhou na Gravadora Copacabana como agente e na Mocambo como representante. Em Natal, nos anos 60, produziu e apresentou um programa na Rádio Trairy, aos domingos, denominado Fábrica de Melodias, onde tocava os últimos sucessos da gravadora Mocambo, que ele recebia com exclusividade.

Começou a compor nos anos 40, mas suas primeiras composições gravadas, datam de 1952: o samba choro "Há sinceridade nisso" e o baião "Se tocá eu danço" feitos em parceria com Manezinho Araújo e Carvalhinho e gravados por César de Alencar. No mesmo ano e com a mesma dupla fez o baião "Jica-jica" gravado em dueto por Cesar de Alencar e Heleninha Costa. Por essa época  compôs a música de carnaval "Marta Rocha" em homenagem a então miss Brasil, que visitava a cidade de Natal - essa música permaneceu inédita.

Em 1962  suas composições falavam da uma paixão maior do povo natalense - o Futebol. Compôs "O mais querido" - hino do ABC Futebol Clube sucesso até hoje entre a galera do "frasqueirão". Compôs ainda o hino do Alecrim Futebol Clube e um segundo Hino do América Futebol Clube de Natal, já que o primeiro era o mesmo do América Futebol Clube do Rio de Janeiro.
Ainda esse ano, Gilberto Fernandes gravou o samba-canção "Maltrapilha" e os Cancioneiros o samba "Sofredor". Em seguida foi a vez do lançamento do LP "Primeiro Ensaio", com o qual obteve grande sucesso e  elogios de Câmara Cascudo.

Entre seus LPs destaca-se "Carnaval de norte a sul" com 12 composições em parceria com Waldir Minone, interpretadas por Claudionor Germano. Albertinho Fortuna, Expedito Baracho, que cantou solo e como integrante do conjunto Os Cancioneiros e Carminha Mascarenhas.

Dosinho é considerado um dos grandes nomes do Carnaval ao lado de Capiba e Nelson Ferreira. Depois de atuar no Rio de Janeiro e no Recife, voltou pra Natal onde permaneceu até hoje.
________________________
FONTE: Portal nominuto.com


============================================



Dozinho
Claudomiro Batista de Oliveira
http://www.dicionariompb.com.br/images/icone/nascimento_verbete.gif 24/12/1927 Augusto Severo, RN 
morte: 13/3/2014
Dados Artísticos
Embora ficasse conhecido como compositor de frevos, sua carreira teve início com composições para campanhas publicitárias como também políticas. Compôs também sambas-enredo. Foi assistente de orquestra da Rádio Nacional no Rio de Janeiro.

Trabalhou na Gravadora Copacabana como agente e na Mocambo como representante. Começou a compor na década de 1940. Em 1952, teve suas primeiras composições gravadas, o samba-choro "Há sinceridade nisso?", e o baião "Se tocá eu danço", feitos em parceria com Manezinho Araújo e Carvalhinho e gravados por César de Alencar, dois de seus maiores sucessos. No mesmo ano e com a mesma dupla fez o baião "Jica-jica", gravado em dueto por César de Alencar e Heleninha Costa. Por essa época compôs a música de carnaval "Marta Rocha", em homenagem à então miss Brasil, que visitava a cidade de Natal e que permaneceu inédita.

Em 1955, Os Cancioneiros gravaram, de sua parceria com Genival Macedo, o baião "Menino de pobre". No mesmo, ano Déa Soares gravou o samba "Peço a Deus", parceria com Sebastião Rosendo. Em 1956, o Trio Puraci gravou dele e Hilário Marcelino a marcha "Vou de reboque" e Expedito Baracho o samba-canção "Beco da maldição". Em 1957, Os Cancioneiros gravaram os frevo-canções "Tempero de pobre" e "Fantasia de capim", que também figuram entre seus maiores sucessos. Em 1959, Gilberto Fernandes gravou o samba-canção "Trapo", parceria com Zito Limeira, e o samba "Só depende de você". Em 1962, Gilberto Fernandes gravou o samba-canção "Maltrapilha" e Os Cancioneiros o samba "Sofredor". Nesse mesmo ano, obteve grande êxito no lançamento do LP "Primeiro ensaio", que recebeu as seguintes palavras elogiosas do historiador Câmara Cascudo: "Dosinho tem a linguagem musical.

Diz todas as suas emoções na linha melódica, doce, clara, fácil, com uma naturalidade de fonte. E uma grandeza espontânea de predestinado". Ainda no mesmo ano compôs "O mais querido", hino do ABC Futebol Clube, popular clube de futebol de Natal. Compôs ainda o hino do Alecrim Futebol Clube e um segundo hino do América Futebol Clube de Natal. Em 1963, Roberto Bozzam gravou o bolero "Se alguém me perguntar" e o frevo-canção "Só presta quente". Em 1964, Meves Gomes gravou o frevo-canção "Eu quero mais..." e José Alves "Me deixa em paz".

Entre seus LPs destaca-se "Carnaval de Norte a sul", com 12 composições em parceria com Waldir Minone, interpretadas por Claudionor Germano, Albertinho Fortuna, Expedito Baracho, que cantou solo e como integrinte do conjunto Os Cancioneiros e Carminha Mascarenhas. Em 1965 lançou o compacto simples "A vez do morro" e "Ponta negra", como parte da campanha Pró-Frente de trabalho João XXIII. No mesmo ano Gilberto Ferandes gravou "Baião". Teve músicas gravadas, entre outros, por Claudionor Germano, Blecaute, Expedito Baracho, Trio Guarany com Orquestra Tamandaré e Paulo Marquez. É um considerado um dos grandes do carnaval ao lado de nomes como Capiba e Nelson Ferreira. Depois de atuar no Rio de Janeiro e no Recife, retornou para a cidade de Natal.

Fonte



SAUDADE DE DOSINHO


Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes
Conheci Dosinho em 1950, quando fazia parte da SAE – Sociedade Artística Estudantil e acompanhava as caravanas artísticas com vários companheiros da vida musical – Haroldo e Hianto de Almeida, os meninos que viriam a formar o Trio Irakitan, Paulo e Pedro Dieb e outros, capitaneados por Francisco Sales, então funcionário Civil da Base Aérea de Natal e empresário artístico.
Naquela época eu atuava na radiofonia potiguar, mais precisamente na Rádio Poti de Natal, em seus programas de auditório de fim de semana.
Para aperfeiçoar a minha arte eu recebi permissão para ensaiar com a banda de música da Aeronáutica, para onde me deslocava em ônibus da Base no início da manhã, tendo o privilégio de encontrar na paisagem do trajeto a névoa circundando algumas dunas do caminho (pista de Parnamirim). Ficava naquela unidade militar até o final do expediente, pois o meu arranjador era um sargento, cujo nome já não lembro e Dosinho atuava na referida banda, na condição de soldado da unidade.
Sabendo das minhas aptidões nos aproximamos e ele levou-me ao seu alojamento e me entregou uma música para eu colocar entre outras do meu repertório – era uma bela canção, que pretendia gravar, denominada Ponta Negra.
Sua letra assim dizia: “Ponta Negra, praia linda e bem tristonha. Quem dorme contigo sonha, vendo os encantos que tens. Tuas ondas, portadoras de saudade, saudade de quem tem amizade de um alguém muito além. Os teus coqueiros que crescem bastante querendo o céu alcançar, mas os teus frutos que descem constante, querendo ficar com o mar. Mas se não fosse a tristeza que em Ponta Negra tem, a filha da natureza a todos seria um bem.”
Nunca cheguei a gravá-la, mas ainda espero fazê-lo antes da viagem final. Contudo fez parte do meu repertório durante todo o período em que atuei no rádio – 1950 a 1955.
Nossos encontros eram espaçados, mas sempre fomos bons amigos.      Na Academia Macaibense de Letras indiquei o seu nome para receber um título juntamente com Ademilde Fonseca (ainda viva) e, posteriormente apoiei a sua escolha para uma cadeira na Academia. Ele não chegou a tomar posse e agora só nos resta torná-lo Patrono.
Tive a alegria de ser professor e depois colega do seu filho na UFRN, a quem transmito as minhas condolências.
Velho Amigo, você deixa uma lacuna e uma imensa saudade por tudo o que você foi e fez pelo nosso Estado. Fique em Paz com Deus na Eternidade.    

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

GENEALOGIA


  Ormuz Simonetti - Edmundo Eugênio - Poeta cubano Felix Contreras e Horácio Paiva


                                          Poema dedicado a Ormuz Simonetti


Dos Oliveiras                   
sefarditas ibéricos
trago o sangue judaico
mas sou cristão
- nem novo nem velho –
por convicção.

Das margens do São Francisco
vejo as terras mais próximas
que lhes deu o sonho:
o planalto da Borborema
e o rio Espinharas
que bebe a seca dos sertões.

Dos Paivas                                    
que antes foram Baião
vem-me o sopro da poesia        
de João Soares de Paiva
o trovador primevo
que herdou do rio o seu nome.

Portanto posso dizer
que a dialética das águas
sempre me acompanhou
e que nem sempre sou o mesmo
embora meu destino
seja o mar.



                                   (Horácio Paiva, na ribeira do rio Pium)

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

LIQUIDAÇÃO, PROMOÇÃO OU LEI DO GERSON?



A palavra “liquidação” está sendo exaustivamente utilizada de maneira ardilosa, por boa parte dos comerciantes da nossa cidade, como também em outros estados da federação, principalmente, por aqueles estabelecimentos que comercializam produtos e peças de vestiário do sexo feminino. São as mulheres, as principais vítimas desse embuste, já que facilmente são arrebatadas por essas palavrinhas mágicas.

Algumas pessoas, no afã do consumismo, muitas vezes chegam a compram mercadorias só pelo fato de serem anunciadas “em liquidação”, mesmo sem a devida necessidade de uso, apenas, pelo fato de serem oferecidas por um suposto preço baixo.

Por sua vez, alguns comerciantes inescrupulosos, adotam vários tipos de armadilhas disfarçadas em “promoção/liquidação”, senão vejamos: Liquidam-se produtos por um preço, ditos baixos, quando na realidade eles realmente não custaram o que está sendo informado. Os descontos anunciados chegam a incríveis 70% do valor do preço cobrado originalmente. Como na maioria das vezes as margens de lucro dessa atividade, para os que pagam seus impostos devidos, giram em torno de 20%, percebe-se que algo de muito estranho acontece nesses anúncios. Outros majoram os preços de alguns produtos e 30/60 dias depois, retornam com o mesmo preço de antes, anunciando a tal “promoção/liquidação”. Para não se falar, ainda, daqueles que reservam alguns itens do seu estoque, de preferência artigos já fora de moda ou com pequenos defeitos, e os anunciam com grande estardalhaço e em local bem visível do seu estabelecimento a palavra mágica: LIQUIDAÇÃO. Chega-se ao cúmulo de se inaugurar uma loja já com a vitrine exibindo faixas e cartazes com a famigerada palavra, como se fosse possível, liquidar (leia-se vender por preço mais baixo), aquilo que ainda não foi vendido.

Nos Estados Unidos utiliza-se o Black Fridey – o dia das grandes “liquidações”, promovidas por alguns magazines que acontece em toda última sexta-feira do mês de novembro, no dia seguinte ao festejado Dia de Ação de Graças. As pessoas ficam na porta dos grandes magazines que mais parecem as nossas conhecidas filas nos hospitais públicos, em busca de atendimento, infelizmente fato comum em todas as cidades brasileiras. Alguns desses magazines, em colaboração e, principalmente, em respeito aos consumidores, abrem suas portas para atendê-los a partir das 4 ou 5 horas da manhã. Outros, com o mesmo propósito, permanecem abertos desde o dia anterior, o que ocorre na Inglaterra, como também em diversos países da Europa.

Acontece que nesses países a coisa é levada a sério, pois, caso contrário, as autoridades responsáveis certamente tomariam enérgicas providências contra os maus comerciantes, jamais permitindo que os consumidores fossem ludibriados e expostos a desfaçatez dos espertalhões.
    
   Já em nossa aldeia tupiniquim, as ditas “liquidações” para alguns comerciantes, funcionam tal qual a famosa “Lei do Gerson”, que tem como principal finalidade, apenas levar vantagem, atraindo os incautos consumidores para suas dependências comerciais. Os nossos órgãos fiscalizadores, ao que tudo indica fazem vistas grossas a essas campanhas, e, talvez, nunca tenham adentrado nesses estabelecimentos, com a finalidade de verificar se realmente as mercadorias ali expostas e ditas em “promoção/liquidação”, tiveram efetivamente, seus preços reduzidos, e se as reduções são compatíveis com o que está sendo anunciado.
        Enquanto que no sul e sudeste do país, onde se localizam os nossos maiores centros comerciais, produtores e consumidores, especificamente no eixo Rio/São Paulo, as liquidações ocorridas por ocasião nas mudanças das estações inverno e verão, as coleções, desenhadas exclusivamente para cada uma delas, são oferecias a preços diferenciados sempre que ocorrem tais mudanças. Entretanto, há consumidores mais espertos principalmente nas classes média e também os remediados - média-baixa -, que adquirem peças de vestuário oferecidas fora de estação, naturalmente, a preços módicos, e as guardam para serem usadas no próximo ano com a chegada do inverno ou verão, conforme o artigo adquirido.
         A sofreguidão de algumas pessoas para querer levar vantagem em tudo, à vezes se transformam em prejuízos irreversíveis. O mais recente foi com o  telexFREE, uma pirâmide financeira que beneficiou uns poucos e prejudicou irremediavelmente uma quantidade enorme de incautos  investidores que acreditaram ser possível enriquecer em pouquíssimo tempo, sentados confortavelmente em suas residências, na frente de um computador. Apostaram nessa quimera e perderam. Ouvi relato de pessoas que venderam tudo que possuíam inclusive suas casas, passando a morar de aluguel, seus automóveis, enfim, tudo que pudesse rapidamente se transformar em dinheiro vivo, para colocar nesse rendimento milagroso na esperança de dobrar ou mesmo triplicar seus investimentos em pouquíssimo tempo.
       
       O anseio em aplicar à conhecida “Lei do Gerson” tem produzido situações vexatórias e até de certo modo, jocosas. Soube de um pitoresco caso em que uma senhora, aparentemente de classe média alta, que se dirigiu a uma delegacia de policia para prestar queixa por ter sido enganada com o famoso conto do vigário na compra de um bilhete premiado. Ao final do seu relato e do alto de sua indignação, exige do delegado providências imediatas no sentido de prender o meliante. O agente depois de ouvir pacientemente o relato da queixosa, lhe diz em tom admoestador: “quem deveria ser presa era justamente a senhora, por tentar enganar um estelionatário que se passava por indefeso tabaréu”... Sem argumentos e com a vergonha estampada na cara, a madame cabisbaixa deixa a delegacia amargando o prejuízo pela sua esperteza.

        
         Portanto, fica aqui um recado aos espertalhões: quem muito atira pedras para cima, uma poderá lhe cair na cabeça. Pensem nisso. Um bom fim-de-semana para todos.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

CARTAS DE COTOVELO 2014 (6)



            Estou desconfiando que já vivi demais, pois todos os livros de reminiscências que tenho lido nos últimos tempos, me encontro na história ou na paisagem.
            A coincidência mais recente ocorreu com a pequena obra ‘Confraria de Floriano’, que recebi de presente de um dos seus integrantes, o amigo e escritor Ormuz Barbalho Simonetti.
            O livro apresenta registros emocionais e emocionados de alguns dos meninos protagonistas dos acontecimentos marcantes dos anos 60 e 70, numa velha bodega na esquina das Ruas Princesa Isabel e Apodi nº 160, de propriedade de Floriano (Jordão de Andrade), de tradicional família macaibense, onde foi fundada a Confraria de adolescentes, compartilhando com o Mercadinho de Pedro David, no outro lado da rua.
            As narrativas evocam os anos dourados em Natal, um verdadeiro ‘tempo dos pardais no verde dos quintais’, onde o medo se chamou ‘jamais’.
            Não participei dessa Confraria, mas de outra que se reunia na Rua Ceará Mirim, no Baldo, mas a bodega era também eventual pouso de nossa turma quando se dirigia para a diversão nos mesmos lugares rememorados dos cinemas Rex, Rio Grande e Nordeste, com algumas incursões no Poti e certamente nos filmes de faroeste e seriados(Legião do Zorro, O Homem Fioguete, Flaxh Gordon, Tarzan, Rock Lane, Roy Rogers, Gene Autry, Cavaleiro Negro) dos cinemas São Luiz e São Pedro, estes no Alecrim, tendo por transporte o velho ‘bonde’, de saudosa memória. Ainda tenho guardada uma substancial coleção de revistas em quadrinhos daquele tempo, iniciada desde 1948 em Macaíba e adquiri praticamente todas as séries em cópias reproduzidas em DVD,s.
            Lembro-me bem que comprávamos cigarros, que eram acesos em uma lamparina permanente acesa, escondida em um pequeno caixote de madeira, com um orifício na parte superior e lá éramos abastecidos com uma guaraná ou, às vezes, algo mais ‘substancioso’ para nossas folias.
            Recordo dos polis fabricados em casa, dos lanches no ‘Dia e Noite, Espaguetilândia, Caldo de Cana Orós, dos porres de lança perfume, da cuba libre, da vodka com laranjada, do cuscuz da Mata, naqueles taboleiros de metal com duas tampas e da correria dos vendedores para atrair clientes, do verdureiro trazendo os seus produtos nos ombros (caçoás), do pão vendido em cestos por Seu Pedro do pão, no lombo de animais, a velha da carimã, pirulito, cocada, rolete de cana, cavaco chinês(está de volta), dos velhos carnavais das ‘bagunças’ e dos bailes na Assen, Aéro, América e ABC. Não conheci o ‘Coice de Mula’, mas lembro dos ‘Tora da linha’.
            As peladas tinham o mesmo ardor, em quintais diferentes no Barro Vermelho ou na própria rua Ceará Mirim, como igualmente a escolha das nossas musas.
            Porém aquela vida pacífica e alegre era comum, algumas vezes perigosa, nos banhos proibidos do poço do dentão ou dos jogos nas lojas de bilhar da Ribeira, com portas fechadas por conta do juizado de menores.
            É claro que havia alguma variação nas preferências, mas a atmosfera era a mesma. Até as alcunhas ou apelidos se pareciam – Zezé, Cacá, Gordo, Magro, China, Bob, Xuba, Lula, Baiá, Bel, Baíto, os Pelados, Dôta, Beto, Gasolina, Gás óleo, Chico. Tivemos as nossas perdas pranteadas, mas nenhuma em decorrência das torturas de um regime de força. Quando muito tivemos vizinhos que responderam processos nos idos de 1964, como Renê, Juarez, Romeiro.
            Posso até ter notado aquela molecada em suas reuniões, mas lhes dei atenção, pois já estava num patamar de idade, pelo menos, em dez anos à frente, onde as diversões eram mais variadas ‘e o buraco era mais embaixo’.   
            Recordar é viver, diz um velho ditado; recordar é sofrer, as sombras do passado; de sonho que viveu em nossos corações ou de um amor que morreu deixando uma cruel paixão. Crer num sonho de ilusão, ver na imaginação ... Basta, a garganta já está embargada!

Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes


sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

REMINISCÊNCIAS DA RUA PRINCESA ISABEL – A SAGA DE FLORIANO “EL BODEGUERO”. ÚLTIMA PARTE.


Em uma noite do mês junho de 1972, despedi-me da turma da Princesa Isabel, dos meus amigos do Atheneu, da minha cidade de Natal, e rumei para São Paulo onde iria assumir no Banco do Brasil, o que seria o meu primeiro emprego.

Pouco me recordo daquela última semana passada junto com essa turma. A expectativa de viver e trabalhar em outra cidade, não me deixava pensar em mais nada. O foco era a viagem. O desconhecido me assustava, ao tempo que também me atraia. Como seria morar sozinho? O que me esperava naquela cidade grande? A verdade é que eu pouco conhecia além das fronteiras de minha cidade, já que meu vôo fora de Natal tinha apenas  conseguido alcançar as cidades de João Pessoa, com os pic-nic do professor Humberto do Atheneu, que de tanto fazer esse tipo de viajem, terminou recebendo o apelido de “Humberto Pic-nic” e a cidade do Recife, onde fui assistir o casamento de um primo.

Hoje escrevendo essas crônicas, vagas lembranças fragmentadas daquela época, chegam-me à memória como fleches daqueles últimos dias que antecederam a minha viagem a São Paulo. Recordo que saímos pelos bares da vida, tomamos umas cervejas e, como de costume, tudo terminou em serenatas.

Ao retornar nos anos seguintes, o tempo era curto para dividi-lo entre os familiares e os velhos amigos. E como sequência natural das coisas, cada um foi tomando o seu rumo pela vida. Uns mudaram-se para outros estados, outros para ruas mais afastadas e lá formaram novas turmas. O ensino superior, outra fase importante na vida dos jovens, obrigatoriamente abriria espaço para a convivência com novos amigos que estudariam e se divertiriam juntos.
      
      Quando deixei Natal em 1972, a turma de frequentadores da “Bodega de Floriano” já estava se dissipando. Faço aqui uma retrospectiva dos que me chegam à memória e as profissões que abraçaram pela vida: Jairo (engenheiro); Adauto (advogado e escritor); Levi (artista plástico); Jaime Ninho (economista); Adilson Gurgel (advogado); Hamilton Gurgel (bancário); Chiquinho (serviços de telecomunicação); Leonardo Naná (engenheiro); Rominho (comerciante); Leo Leite (matemático); Gilson Leite (bancário); Beto Coronado (psicólogo e professor); Zé Ivo (odontólogo); Jorge Chopp (médico); João Bosco (professor universitário); Cacá (pintor), Paulinho (médico); Alberto (engenheiro); Carlos Castim (advogado) e Thales (engenheiro), todos morando atualmente em Natal.
Barroca, Carlinhos, Mario Maromba e Sérgio China faleceram. Josemar (odontólogo) mora em (Brasília; Zezé (bancário) mora em Caruaru-Pe; Maninho mora em Maceió; Túlio e Calabé moram em Recife.

Quanto a essas reuniões, tudo começou quando no final da década de 80, por ocasião das festividades natalinas, Beto e Jairo se encontraram e, pela primeira vez, trataram do assunto. Comentaram sobre a possibilidade de reunir alguns componentes da turma, para uma confraternização na época natalina. Dez anos depois, em 1999, meia dúzia dos amigos daquela época reuniu-se no hotel Barreira Rocha para um almoço de reencontro. Aquele almoço seria o pontapé inicial para a sucessão ininterruptas dessas reuniões, que no próximo sábado completam 15 anos.

Nesse dia faremos uma homenagem especial ao nosso patrono Floriano, proprietário da bodega, que deu nome a nossa confraria, onde essa e outras turmas no passado se reuniam diariamente para conversar, fazer amigos e beber na fonte do conhecimento de um dos bodegueiros mais festejados e admirados de nossa cidade.

Viva Floriano “El Bodegero”!