sábado, 17 de agosto de 2013

HISTÓRIA DA MAGISTRATURA DO MUNICÍPIO DO ACARI-RN



A sorte, em algumas oportunidades, beneficia aqueles que cultivam o gosto pelos fatos históricos e os costumes do nosso povo. E isso foi exatamente o que ocorreu em relação a minha pessoa. Revolvendo os meus desarrumados alfarrábios encontrei no meio deles, um artigo publicado no Jornal A REPÚBLICA, edição de 10 de setembro de 1936, pelo então Juiz de Direito Dr. Meiroz Grilo, cujo texto foi-me presenteado pelo seu dileto filho Inácio Grilo, na oportunidade em que fazíamos pesquisa para a publicação do livro GENEALOGIA DOS TRONCOS FAMILIARES DE GOIANINHA-RN, publicado no ano de 2008.
Por se tratar de fatos importantes ligados à instalação e funcionamento da atual comarca do Acari, deste Estado, ouso reproduzir um trabalho do Dr. Joaquim Manoel de Meiroz Grilo, para o pleno conhecimento de todos os seus conterrâneos.
“O povo do Acari, vivendo sob a proteção de Nossa Senhora da Guia, desde a formação nucelar de sua existência, já tinha a sua capela nos meados do século dezoito e adquiriu os foros de freguesia por lei provincial de 1835, ano em que foi confirmada a criação de seu município, instituído pelo Conselho Provincial desde 1833.
Do ponto de vista de organização judiciária fazia parte da velha Comarca do Seridó, que compreendia toda a região e tinha a sede na Vila do Príncipe, que é hoje a cidade de Caicó. 
Da antiga comarca do Seridó, desmembrou-se a do Jardim, em 1873, e desta a do Acarí, no ano de 1882 (1).

Nesse tempo, parece que a administração pública da Província do Rio Grande do Norte se preocupou um pouco com a distribuição da justiça, pois, no mesmo ano, foram criadas as comarcas de Macaíba, Goianinha, Acari, Santana do Matos e Touros, a única que dentre todas, não chegou a ser provida, sendo extinta logo depois. Na organização republicana do Estado foi mantida a Comarca do Acari, por Lei n° 12, de 09 de setembro de 1892, e assim, viveu, até que o rompimento político dos dirigentes do Seridó, com a situação dominante, determinou a sua suspensão em 1894, conforme a Lei n° 43, de 10 de setembro desse ano.
Em 1889, a Lei 114, de 8 de agosto designou para a sede da circunscrição jurídica a Vila do Acari, sete dias depois promovida a cidade pelo Poder Legislativo do Estado.
Foi a primeira restauração da Comarca do Acari, que já então reivindicava os seus direitos de unidade judiciária autônoma.
Com tais prerrogativas se manteve, até que um “Governo inconsciente, ignorante da causa pública” decretou a sua supressão em 15 de junho de 1893, subordinando-a, como distrito judiciário, à comarca de Currais Novos e, depois, à de Jardim do Seridó.
A nossa Assembléia Constituinte, ao se transformar em Assembleia Legislativa Ordinária, de acordo com a Constituição Federal, teve como preocupação primeira a gloriosa comarca sertaneja e o fez com a Lei n° 1, sancionada pelo Excelentíssimo Sr. Dr. Governador do Estado, em 30 de março do corrente ano.
A sua reinstalação teve lugar no dia 21 de abril findo, com grande pompa e intensas manifestações de regozijo público.
Se bem que fosse comarca independente, desde 1882, o Acari esteve até 1890 sob a judicatura do Dr. Manoel José Fernandes, juiz de direito da Comarca do Jardim, que foi uma espécie de patriarca da Justiça do Seridó, exercendo por mais de vinte anos o seu múnus judiciário, sucessivamente e, às vezes, cumulativamente, nas comarcas de Caicó, Jardim e Acari.

É verdade que, antes dele e anteriormente à Comarca, estiveram no Acarí, como juízes de órfãos, outros magistrados, que deixaram traços indeléveis de sua passagem pelo sertão primitivo e adusto daqueles tempos.
Chega a ser tocante a peregrinação do Dr. Francisco Aprigio de Vasconcelos Brandão, de fazenda em fazenda, sob o sol ardente do estio, amparando e regularizando a situação dos menores deixados em abandono pelos pais que morreram de inanição ou emigraram na grande seca de 1887.
Há outras figuras veneradas da justiça que viveram na tradição do lugar e são os juízes de órfãos doutores Jose Rufino Pessoa de Melo, José Inácio Fernandes Barros, Manoel Rodrigues da Cunha Machado Beltrão, José Ferreira  Muniz, Caetano Guimarães, o Dr. Falcão, o Dr. Fragoso, etc.

Em 1890, porém, é que o Acari se integra na sua autonomia judiciária com a recepção de seu Juiz de Direito Dr. José Pedro de Almeida Pernambuco, que é o primeiro magistrado que vem fixar residência na cidade de Acari, sede da comarca de igual nome (2).
Com a sua retirada exerce novamente o juizado da comarca o Dr. Manoel José Fernandes,  até a primeira supressão em 1894, quando o ilustre magistrado passou a juiz da comarca de Jardim de que o Acari se tornou distrito judiciário.
A 1° de setembro de 1898, inaugurou-se a nova comarca restaurada, festivamente, com um filho do sertão como juiz de direito do lugar.
É o Dr. Juvenal Lamartine de Faria que exerceu a judicatura durante o período de sete anos, assinando termos de audiência ainda em 1905, nas vésperas de ser eleito para a nossa representação federal, de onde somente se afastou com o fim de vir ocupar o governo do Estado e daí a ser levado ao seu exílio na Europa e ao discreto retraimento em que vive.
Sucederam-lhe no juizado do Acari os doutores Augusto Carlos de Vasconcelos Monteiro, Vicente de Pádua Veras, Celso Dantas Sales, Silvino Bezerra Neto, João Francisco Dantas Sales, Eurico Soares Montenegro e Joaquim Manoel de Meiroz Grilo, que fora afastado com a suspensão de 1893, e, agora torna a seu posto como titular de um direito adquirido.
Acari, 5 de maio de 1936
MEIROZ GRILO
(1)                        A lei n° 844, de 26 de junho de 1882, criou a Comarca de Acari, em sua sede própria (Câmara Cascudo, Rev. Potiguar ano II, n° XI – Rio)1937.
(2)                        A Comarca foi instalada solenemente a 17 de fevereiro de 1890, sendo promotor José Carlos Pereira de Brito e juiz municipal o bacharel José Ferreira Muniz (Câmara Cascudo – Ver. Potiguar – Rio)”.                  

sábado, 3 de agosto de 2013

DE VOLTA AO PASSADO VII – ANTIGOS BLOCOS CARNAVALESCOS – Parte VII – A TRAGÉDIA DO BALDO


Os antigos blocos carnavalescos propiciaram a nossa cidade décadas de alegrias, não obstante a ocorrência de fatos que resultaram em profunda tristeza. Pelo menos dois acidentes com vitimas fatais marcaram de maneira trágica a história dos antigos blocos carnavalescos.

Um delas aconteceu na confluência das Ruas Jundiaí com a Avenida Hermes da Fonseca, onde uma garota com apenas 15 anos de idade, no vigor de sua juventude, teve sua vida bruscamente e brutalmente interrompida por um veículo desgovernado, quando caminhava com outros foliões ao lado da alegoria de seu bloco.

Outro acidente, de grande proporção, marcou para sempre a história dessas agremiações, e que de certa forma, contribuiu para por fim a tradição carnavalesca da Cidade de Natal.

Na madrugada de 25 de fevereiro de 1984, precisamente as 0h:50 minutos, o bloco Puxa Saco esteve no centro da maior tragédia acontecida durante o período carnavalesco em nossa cidade, inclusive com repercussão na imprensa internacional, dada a violência do fato e o número de mortos e feridos que produziu. Ficou conhecida como a “Tragédia do Baldo”, e ceifou 19 vidas, feriu gravemente 12 pessoas, e produziu ferimentos leves em dezenas de outros indivíduos.

Aluizio Farias Batista

Tudo começou quando o motorista de transporte coletivo da empresa Guanabara, Aluizio Farias Batista que fazia a linha Alecrim/Rocas, por volta das 20 horas, recebeu ordens para dirigir-se à Av. Interventor Mario Câmara - Avenida Seis -, próximo ao Mercado Público, pois iria transportar algumas agremiações carnavalescas, num total de 2 viagens, sendo uma para o bairro das Quintas e outra para a Cidade da Esperança. Ao final da segunda viagem recebeu nova solicitação para fazer mais uma com destino ao bairro das Rocas, transportando outra escola de samba. Reclamou do funcionário que coordenava a saída dos ônibus, ponderando que o combinado seriam apenas duas viagens, mesmo assim, concordou em fazer mais essa viagem.   

Partiu do bairro do Alecrim com o ônibus completamente lotado. Naquela ocasião transportava componentes da escola de samba “Malandros do Samba” que como já foi dito, dirigiam-se ao bairro das Rocas. Em dado momento, teve início uma discussão entre o motorista e alguns de seus componentes, que eufóricos, faziam algazarra dentro do ônibus. Devido ao tumulto, os passageiros talvez por brincadeira, começaram a acionar insistentemente a campainha do ônibus o que teria provocado à ira do motorista, e este passou a dirigir o veículo em desabalada carreira, desrespeitando, inclusive, todos os semáforos existentes em seu trajeto.

                                         Ônibus após o acidente

Relataram alguns ocupantes do ônibus, que diante das reclamações dos passageiros quanto à velocidade desenvolvida pelo veículo, o motorista teria dito: “se tiver que morrer, morre todo mundo”. Dai em diante, continuou em alta velocidade pela Rua Coronel Estevão e próximo do início da subida do Baldo, ao fazer uma curva em alta velocidade, o veículo bate a traseira em um fusca que estava estacionado de placa DN 9799-RN. A batida mudou a trajetória do ônibus que foi em direção ao bloco, que naquele momento iniciava a subida da Avenida Rio Brando.

Segundo me contou Ricardo Miranda, testemunha ocular da tragédia que naquela ocasião se encontrava em frente à casa de João Motta, na Avenida Rio Branco: “o veículo passou pelo meio do bloco atingindo pessoas num trecho de 86 metros, desde o início da subida da Avenida Rio Branco até o local que eu estava. Quando o ônibus parou, me aproximei na tentativa de ajudar alguém e me deparei com uma cena dantesca. Nunca consegui esquecer. Corpos despedaçados, misturavam-se a pessoas feridas que gritavam por socorro presos em baixo do coletivo.

Fusca envolvido no acidente

Os primeiro a serem atingidos foram os músicos que estavam na retaguarda. Em seguida, os componentes da agremiação e também vários foliões que naquela ocasião acompanhavam o bloco e até se misturavam a eles, pois não havia entre os componentes e os outros foliões nenhum tipo de isolamento”.
O Puxa-Saco era um bloco sem alegoria. Músicos que faziam parte da “Banda Galha”, muito conhecida em nossa capital, formavam a orquestra do bloco. Tocavam frevos e machinhas carnavalescas quando aconteceu a tragédia. O conhecido trombonista Lelé, irmão do saudoso Efrain, foi um dos músicos que perdeu a vida nesse acidente.

Quando o ônibus parou, diversos populares acorreram ao local, na tentativa de ajudar os feridos. Foi quando perceberam que o veículo começou a se movimentar de ré, pois não havia ninguém no seu comando. O motorista aproveitou a confusão para evadir-se do local. Na pressa, abandonou o veículo sem acionar o sistema de freios. A tragédia que já era enorme ameaçava tornar-se ainda maior. Nessa ocasião, vários populares se puseram na traseira do veículo na tentativa de impedir seu retorno e também ajudar a retirar alguns corpos e feridos que estavam sob o mesmo. Foi quando apareceu um desses heróis anônimos, enviado por Deus nessas ocasiões extremas.

Antonio Luiz de Araújo Guerra - Toinho Batata, que anteriormente tinha tentado segurar o motorista fujão, sobe no coletivo e consegue acionar o freio e em seguida engata uma macha, evitando assim um possível aumento do número de vítimas.  

Processos - 2 volumes

No dia seguinte à tragédia o Dr. Maurílio Pinto coordenador geral da Polícia Civil, determinou ao delegado Pedro Avelino Neto que investigasse o caso.
Em depoimento ao delegado, o motorista contou que após o acidente passou em casa, trocou de roupa e seguiu para Parnamirim, cidade que faz parte da grande Natal, refugiando-se na residência de um primo. Sobre o acidente contou uma versão totalmente diferente àquela relatada pelos passageiros do ônibus, e naturalmente se eximindo de qualquer culpa. Como não foi produzido o flagrante, após prestar depoimento Aluisio Farias Batista foi liberado pela polícia e desapareceu. Até hoje não se tem nenhuma notícia de seu paradeiro.

Em abril de 2009, 25 anos depois da tragédia o motorista Aluizio Farias Batista que foi denunciado pelo promotor José Maria Alves, foi julgado a revelia. O processo de nr. 001.000.723-0, com 02 volumes e 447 páginas, guarda vários depoimentos de testemunhas e também de pessoas que sobreviveram ao acidente.

O caso “Tragédia do Baldo”, foi apresentado no dia 8 de dezembro de 2005, no programa Linha Direta da Rede Globo de Televisão.

Prestamos nesta matéria uma homenagem a memória das pessoas que perderam suas preciosas vidas naquele lamentável acidente: Abimael Florêncio Bernardo, Acelúsio Borges Gomes, Astor dos Santos Dantas, Benedito Alves da Silva, Dinarte de Medeiros Mariz Neto, Esdras César da Silva, Francisco Alves da Silva, Jaecy Cabral de Oliveira, Jethe Nunes de Oliveira, José dos Santos Xavier, José Félix de Lima, José Luiz da Silva, Luiz Inácio da Silva, Milton Servita de Brito, Murilo Alberto Viana da Silva, Rizomar Correia dos Santos, Simone Banhos Teixeira, Walace Martins Gomes e Wellington Teófanes de Assis. Que Deus os guarde em Bom Lugar.                  

segunda-feira, 8 de julho de 2013

ANTIGOS BLOCOS CARNAVALESCOS – Parte VI - VIVA O REI TATU


Foi no início dos anos 60 a época em que eram realizados os famosos “assaltos” na casa de Tatu, ou melhor, Mister Tátus, como Jorge Moura um dos integrantes da velha guarda do Lord’s gostava de reverenciá-lo, quando o visitava para combinar o dia do “assalto”, tratamento pomposo que o deixava extremamente envaidecido.

Tatu era uma pessoa muito conhecida no populoso bairro do Alecrim, principalmente na Rua Ary Parreiras, onde residia. Nunca eu soube do seu verdadeiro nome, pois todos só o chamavam pelo cognome. Entretanto, lembro-me bem de sua figura singular: moreno, baixo, gordo, olhos amendoados - daí seu apelido – e sempre risonho o que deixava os seus miúdos olhos praticamente fechados. Gostava de ostentava em torno de seu diminuto pescoço, uma grossa corrente de ouro que pendia por cima de sua farta barriga. Comerciante bem sucedido no ramo de “empréstimos a particulares”, modalidade atualmente muito utilizada por diversas casas bancárias e assemelhadas, que nos dias de hoje recebe o faustoso nome de factoring.

 Sua área de atuação era no bairro do Alecrim e tinha como seu principal reduto o entorno da Vila Naval. A marujada e os militares de menor patente constituíam os seus melhores fregueses, não obstante haver em sua organizada “carteira de clientes”, também alguns membros do oficialato. Não se sabe como, corria a boca pequena, que os juros advindos dos empréstimos concedidos aos militares, já vinham devidamente descontados em seus soldos, o que fazia suas operações financeiras com os militares, altamente seguras.   

Com essa bem sucedida atividade, o inesquecível Tatu ganhou fama e fortuna, motivo porque os “assaltos” em sua residência, sempre estiveram entre os melhores. Em todos os carnavais, invariavelmente, alguns privilegiados blocos de elite, que raramente se deslocavam até o distante bairro do Alecrim, desfrutavam desse privilégio. Recebia também em sua casa, com o mesmo espírito altaneiro e democrático, alguns blocos do próprio bairro compostos por troças, tribos de índios e até mesmo blocos de papangus, desde que devidamente organizados.

Quando o bloco surgia na Rua Ary Parreiras, lá estava Tatu de braços para o alto ostentando orgulhoso um copo de uísque na mão; sabia-se, porém, na maioria das vezes contendo apenas gelo e água. Em frente de sua casa e já rodeados de amigos e curiosos, Tatu recebia com desvelo quase paternal e largo sorriso no rosto bochechudo, os foliões que o saudavam com o grito de guerra: viva o rei Tatu!

Litros de Uisque Old Eight, Druriys, Vat 69, e Passeport do legitimo, pois, ainda não funcionava a famosa “fábrica no bairro de Igapó”, cervejas Brahama e Antártica - as únicas existentes na cidade -, além do rum Merino e aguardente Pitú, eram franqueados sem limites, tanto aos foliões, como aos amigos do anfitrião, que nessas ocasiões lotavam sua residência.

O horário do “assalto” era escolhido propositalmente próximo à hora do almoço, o que garantia aos foliões no final da tarde a participação no “corso” bem alimentados e com disposição para os bailes noturnos que aconteciam nas sedes sociais do América F.C. e no Aero Clube de Natal, com algumas escapadas para a ASSEN – Associação de Sargentos e Subtenentes de Natal. O tira-gosto à base de sarapatel, buchada de bode, panelada, feijão verde e assemelhados, eram servidos tanto aos foliões como também as convidados.

O assédio dos blocos à casa de Tatu era tanto, que não raro, por ocasião do “assalto”, percebíamos nas proximidades, outros blocos esperando sua vez de participar do deleitoso convívio residencial do alegre e bondoso Mister Tátus.

Entretanto, como tudo que é bom dura pouco, seu reinado começou a desmoronar após a revolução de 1964, quando foi perseguido pelos militares que consideraram ilegal sua “atividade empresarial.”. Uma das razões alegadas é que sua factoring cobrava extorsivos juros de até 10% a.m. Fico imaginando o que diriam esses revolucionários militares, se em seus mais tresloucados devaneios pudessem imaginar, que décadas depois, bancos e algumas operadoras de Cartões de Crédito chegaram a cobrar aos seus indefesos usuários, até 25% de juros a.m., e pasmem, tudo rigorosamente dentro da lei.

Aproveitando-se dessa inesperada e confortável situação, vários de seus fieis e cativos clientes, recusaram-se a liquidar suas dívidas o que tempos depois terminou por provocar, inevitavelmente a falência de sua atividade. Desaparecendo para sempre dos antigos carnavais, uma das figuras mais emblemáticas no patrocínio de “assaltos”, aos blocos carnavalescos de nossa Cidade.


sábado, 29 de junho de 2013

DE VOLTA AO PASSADO VII – ANTIGOS BLOCOS CARNAVALESCOS – Parte V

             Em 1968 o Lord’s saiu na avenida com a alegoria patrocinada pelo Posto da Tamarineira, como podemos ver na foto conseguida com Baíto, que inclusive participou do bloco naquele ano. Nessa foto histórica podemos ainda identificar outros componentes: Thales, Bel, Franklin, Ormuz, Jairo Bode, Alfredo, os irmãos Dido (mascote) e Maninho Cambraia, Flavio, Nelson Freire, as irmães Eloisa, Rejane e Simone Lordão, Gelza, as irmães Tereza e Telma Cortez. 

            Em 1970, já com uma turma mais nova, fui presidente do Lord’s por apenas um carnaval. Que trabalheira! Quando quis me arrepender, já era tarde. Enfrentei o desafio com a ajuda de alguns abnegados que comigo formavam a diretoria. Entre eles estava Leonardo, hoje contador com escritório na Av. Prudente de Morais. Seus pais eram proprietários da SOCIC, loja de eletrodomésticos que ficava na esquina da Rua Princesa Isabel com a Avenida Rio Branco, representante exclusiva das enormes geladeiras Prosdócimo. Como tinha filial em Recife, a propaganda se referia a “SOCIC DE LÁ E A SOCIC DE CÁ”. Nesse ano, por falta de recursos, a alegoria foi feita com madeira compensada que vinha nas embalagens das geladeiras e a pintura, como sempre, pelas habilidosas mãos do artista plástico Levi Bulhões. A Kombi da loja foi de grande valia em nossas viagens pelo interior do Estado, à cata de trator e caçamba para o bloco. Nesse ano conseguimos o equipamento com Chico Seráfico em uma de suas propriedades em São José de Mipibu/RN, ajudado pelo conhecimento pessoal de Leonardo. Seu avô materno, Francisco Targino Pessoa, proprietário rural em São José de Campestre, era fornecedor de algodão para NÓBREGA & DANTAS, usina de beneficiamento que pertencia a Chico Seráfico.

                        Segunda fase do bloco Lord's - 1971

           Apesar de tudo guardo na bruma das minhas reminiscências boas recordações daqueles tempos idos e vividos. Uma delas foi reavivada após um telefonema que dei para Lauro Bubú, em busca de informações daquela época. Lembramos de um fato, que se tivesse acontecido nos dias de hoje, certamente ficaria conhecido como “a revolta do Dentão”. No sábado de carnaval, Lauro tomou um porre homérico e no domingo não teve condições de sair com o bloco. Como a alegoria era guardada em sua casa, na rua Mipibú nr. 355, logo apareceu a solução para o problema: Luiz Dentão – falecido prematuramente aos 48 anos de idade - apresentou-se para substituí-lo naquele dia. Nada mais justo, pois se tratava de seu irmão. Como conhecia a todos, pois as reuniões aconteciam em sua casa, vestiu a fantasia do dia e rapidamente integrou-se a turma. Foi o folião de maior destaque. Participou de todos os “assaltos”, do corso na Av. Deodoro, da matinê na sede social do América Futebol Clube, localizada na Av. Rodrigues Alves e prosseguiu por toda a madrugada, entregue de corpo e alma a folia de Momo.

            No dia seguinte, com Lauro já totalmente recuperado do porre, o Lord’s saiu para a avenida com um componente a mais: era Luiz Dentão que não se conformando em ficar de fora, estava disposto a levar sua reivindicação às últimas consequências, e para isso contava com o apoio de todos os componentes, impressionados com sua foliônica atuação. Para acalmar os ânimos logo foi encontrada uma solução apaziguadora. Ficou acertado que ele brincaria o resto dos dias utilizando sempre a fantasia do dia anterior. 
  Alguns componentes identificado: Túlio, Thales, Levi, Ormuz, Beto, China, Naná,                  Alfredo, Verinha, Fátima.

      Nas nossas reuniões na casa de Lauro, as mais acaloradas era para discutir o preço da “jóia” - valor pago por cada um dos componentes que se destinava ao custeio da agremiação: confecção da alegoria, combustível para o trator, pagamento do tratorista, contratação da orquestra e também o alvará para circular nas ruas e principalmente no “corso” onde carros e blocos eram fiscalizados. O alvará, colado no parabrisa dos carros, era obrigatório para participarem do “corso”, sob pena de multa e apreensão do veículo.

        Outra boa discussão era com relação aos “assaltos”. Uma das respostas que mais me irritava era quando perguntávamos aos componentes se já haviam conseguido algum “assalto” - obrigação de cada um de nós, já que precisávamos de pelo menos três por dia, para que o bloco não ficasse somente passeando pelas ruas - e vinha a resposta que detestava ouvir: tô batalhando!  Esses “batalhadores” geralmente nunca conseguiam nada. Até que um dia chegamos a cogitar que a turma dos “batalhadores” deveria se reunir e patrocinar um ou dois assaltos. Foi um Deus nos acuda!!! Mexemos num vespeiro. E permaneceu tudo do jeito que estava: os batalhadores continuaram batalhando...  


sábado, 22 de junho de 2013

DE VOLTA AO PASSADO VII – ANTIGOS BLOCOS CARNAVALESCOS – Parte IV


A partir de 1966 entrei para o Lord’s, levado por meus irmãos mais velhos Arnaldo e Marcelo Simonetti, de saudosas memórias, porém sua fundação deu-se no ano de 1962. Na época existia nos blocos, a figura do “mascote” que se constituía no  componente bem mais novo que os demais, que foi o meu caso. O busto do Tio Patinhas com cartola e bengala simbolizava a agremiação. O emblema era afixado no bolso da frente e na parte de trás da blusa. O presidente era Haroldo Pacheco, filho de “Seu Pacheco”, figura conhecida em nossa cidade. Começou sua trajetória de comerciante bem sucedido com uma pequena fábrica de pipocas, na Avenida Deodoro defronte ao CIC – Colégio da Imaculada Conceição, local que também residia. Tempos depois construiu e administrou, por vários anos, o Posto da Tamarineira localizado na Rua Apodi, ao lado do colégio Marista. Posteriormente passou a administração para seus filhos Haroldo e Amaro. O velho “Pacheco”, de temperamento irrequieto, logo encontra outra atividade no ramo da hotelaria. Construiu o Motel Tirol, no cruzamento da Avenida Hermes da Fonseca com a Rua Alexandrino de Alencar. Após alguns anos de funcionamento, resolveu alterar o nome do estabelecimento para HOTEL TIROL. Os MOTEIS, muito utilizado nos EUA para pequenos pousos, passou a ter em nosso país, e principalmente no nordeste, outro significado, substituindo com modernidade e sofisticação, às antigas “casas de recursos”. Até os dias de hoje os MOTEIS ficaram estigmatizados como locais para encontros amorosos.


          Foto histórica do Lord's - 1968 - Acervo Baíto.

 O bloco se reunia na antiga Palhoça, - bar e restaurante localizado na Avenida Deodoro, muito famoso na década de 60, que pertencia ao velho Damasceno. Faziam parte do Lord’s na sua primeira fase, os seguintes foliões: Jorge Moura, atleta e treinador de voleibol de várias gerações em nosso Estado; João Marinho, fiscal de rendas; meus irmãos Arnaldo e Marcelo Simonetti; Bel, um dos grandes atletas de futsal do nosso Estado, que juntamente com seu imão Baito, Artuzinho, Dodoca, Eunélio Silva, Edval Germano – goleiro -, Toinho Barbosa e Joca (João Batista Barbosa), chegaram a disputar o campeonato interclubes (Taça Brasil), na nossa Capital, em 1970, representando o América F.C. Sagraram-se vice-campeões disputando o título com o Palmeiras de São Paulo, do lendário Serginho, considerado na época, o Pelé do futsal. No ano seguinte, essa mesma formação representou o Rio Grande do Norte no campeonato Brasileiro realizado na capital paulista.

Faziam parte ainda do Lord’s Eunélio Silva – acima citado- atualmente membro do CREA, filho do saudoso Eugênio Silva, juiz de futebol da década de 50/60. Lembramos inclusive das figuras João Cádimo e Geovane de Freitas, nessa época também ganharam destaque como juizes de futebol; Duílio Barbosa, que pertenceu à Justiça Eleitoral, genro do inesquecível fotógrafo José Seabra, que tinha seu estúdio fotográfico - Estúdio Seabra - na Av. Deodoro nr. 608, onde também residia; João Barbosa; Jairo Lins, mais conhecido como Jairo Bode, freqüentador assíduo do Bar Azulão. Jairo profissionalizou-se como jogador de futebol e teve posição de destaque como atletas do ABC F. C., junto com meu irmão Arnaldinho que jogava no juvenil do mesmo clube; Esdras Aquino, funcionário do BANDERN irmão de Eudes Aquino; Paulo Herôncio, primava por uma cabeleira sempre bem penteada adubada com generosas dedadas de brilhantina Glostora; Douglas, também funcionário do BANDERN; Franklin, funcionário do Colégio São Luiz do rigoroso Padre Eimar. A estudantada traquina gostava de cantarolar, na ausência do austero diretor, que também era Capelão do Exército, a famosa modinha: Padre Eimar foi à casinha

Prosseguimos com outros integrantes do Lord’s: Paulo Unca, que residia na Rua Potengi, próximo ao Atheneu, onde atualmente funciona a ADENE, antiga SUDENE; Washington Barbalho, funcionário do BANDERN; Maninho Barbosa, o popular Cambraia, funcionário da Caixa Econômica Federal, irmão de Toinho Barbosa atleta de futsal. Moravam nessa época na Praça Deodoro por trás do Estádio de Futebol Juvenal Lamartine local que outrora se situava uma vila de sargentos PM;  Lailton Bastos, morador da Av. Deodoro que tinha grande semelhança com “O Amigo da Onça”, de quem ganhou gratuitamente o apelido. Seu pai era proprietário de um local especializado na venda de carnes e queijos na Rua Ulisses Caldas, aonde depois veio a funcionar “O Galo Vermelho”. Sua família mudou-se para o Rio de Janeiro no ocaso dos anos 60 e dela nunca mais se teve notícias. David Simonetti, que se acidentou no primeiro dia de carnaval do ano de 1967, primeiro e único ano que participou. Escorregou quando dançava ao lodo do trator que puxava a alegoria e teve sua perna comprimida pela roda traseira. Como eu caminhava ao seu lado, consegui num golpe de sorte, arrastá-lo pela camisa, evitando assim que sua perna fosse esmagada pela roda do trator.

Não poderia esquecer, também, de Rui Galego – farmacêutico -; Nino, que trabalhou um tempo com Chico Miséria na Butique Hombre, localizada na Avenida Deodoro 622, endereço que morei até meus 18 anos de idade; Oberúdison, falecido prematuramente; Eduardo Caldas, filho do Procurador do Estado Pedro Rodrigues Caldas, por vários anos diretor do DETRAN, Ronaldo Borges, proprietário do Versális e outros.

(continuaremos com o bloco Lord's na próxima semana)

domingo, 16 de junho de 2013

AGRADEÇO A TODOS OS AMIGOS E LEITORES QUE ME PERMITIRAM ATINGIR A MARCA DE 100.000 (cem mil) VISITAS  AO   BLOG. 

Importante dizer que são visitas conquistadas pelas matérias publicadas, portanto frequentadores que ao se tornarem assíduos, recomendaram o blog aos amigos, pois aqui encontraram  matérias que lhe despertam interesse.  


    
Foram 655 postagens e 287 comentários  acessados em mais de 10 países. 
    

quinta-feira, 13 de junho de 2013

DE VOLTA AO PASSADO VII – ANTIGOS BLOCOS CARNAVALESCOS – Parte III


“Hoje eu lembro com saudade
 o tempo que passou...”

Participei nos anos 60 de dois blocos carnavalescos: Penetras e Lord’s. Os Penetras foi fundado no distante ano de 1964, na Rua Princesa Isabel, pela turma que diariamente se reunia em frente à casa do engenheiro Roberto Freire, que empresta seu nome a uma das principais avenidas de nossa cidade. Recordo-me de alguns de seus componentes: Eudes de Freitas Aquino, médico nefrologista que alcançou projeção profissional no sul do país, tendo inclusive em 2009 assumido a presidência nacional da UNIMED; Paulinho Freire, filho de Roberto Freire, Amancinho, filho do conhecido agrimensor Amâncio Leite Cavalcanti da copiadora ALEICA; os irmãos Júlinho e Heráclio, filhos de Wilson Ramalho, renomado médico pediatra que cuidou de crianças de várias gerações em nossa capital nas décadas de 50 e 60; o saudoso Everaldo carinhosamente chamado de Veca; Ferreirinha - o pai dele era proprietário de um antigo posto de gasolina que se situava ao lado do cemitério do Alecrim. Ferreirnha teve morte trágica. Após uma discussão sem maior importância, foi assassinado no interior da antiga Sorveteria Oásis, vizinho ao Cine Nordeste. Marinardo Dantas, José Bezerra Marinho, Newman Figueiredo, médico e filho do conhecido professor de matemática Josino Macedo. Eudes Aquino, em suas constantes brincadeiras com Newman, costumava dizer com voz impostada como quem transmitia uma importante notícia: “A biblioteca do Professor Josino, vale milhões! ...”

A ala feminina era composta por: Vilma, que morava na mesma rua próximo à casa de Paulinho, Ana Lúcia, na época namorada e posteriormente esposa de Veca, as irmães gaúchas Soraia e Nadja namoradas de Ferrerinha e Julinho Vilar, respectivamente, Gracinha, filha do poeta e compositor Oscar Homem de Siqueira Sobrinho, e outras que no momento me fogem à memória, pois lá se vão quase 50 anos de saudosas lembranças e o “Dr. Alzheimer” já começa a se fazer presente.

Os Penetras tinham uma característica bastante inusitada que o deferia dos demais blocos da época. A alegoria era montada e desmontada todos os dias. O motivo é que o bloco saía no caminhão da Cerâmica Potengy, de propriedade do saudoso Roberto Freire. Como o caminhão só poderia ser liberado após as entregas matinais, o “kit alegoria” era então montado entre 12 e 13 horas, e desmontado por volta das 20 horas, após o famoso “corso” da Avenida Deodoro, quando a alegoria era estacionada na Rua Princesa Isabel para executar a operação desmonte.

Imaginem a trabalheira no dia seguinte para localizar e repregar nos locais corretos, as peças retiradas na noite anterior, já que o desmonte era feito por alguns abnegados e embriagados componentes, que heroicamente se voluntariavam para o serviço. Fui algumas vezes um desses voluntários para a penosa operação do desmonte, como também na montagem do quebra-cabeça. No dia seguinte, tudo se repetia. Somente no domingo, como não havia entregas, estávamos livres do sacrifício.  

Tínhamos inclusive, um hino, que fora composto pelo compositor Oscar Siqueira, na época residente em frente à casa de Roberto Freire.
Penetras, no carnaval, vai dar o que fazer,
Essa turma infernal faz a vida acontecer.
Nós penetramos, no mundo da folia, já esquentamos, com tanta alegria.
Agora gritos de alerta: penetras, penetras, penetras.

Após receber a letra do hino e cantarolar com alguns componentes, Paulo Freire modificou o 5° e o 6° versos, que também passou a ser cantado da seguinte forma: “Nos penetramos na casa do amigo, já esquentamos com wiske e abrigo...”

Ao que me recordo, o bloco saiu nos anos de 1964 e 1965. Não lembro quem foi ou foram seus presidentes. Entretanto, lembro-me com saudade daquele tempo, quando sem sombra de dúvidas, vivi momentos felizes de minha adolescência. Entristeço-me em saber que nossos filhos e netos não tiveram a sorte de terem nascido numa época tão benfazeja de uma cidade menina que desabrochava de sua inocência quase interiorana, para dias tão difíceis como os que atualmente vivenciamos.


terça-feira, 11 de junho de 2013

MINHA HOMENAGEM A CLAVER FERREIRA GRILLO -

                Ormuz Simonetti e o casal Claver e Ilze na rua residencia em João Pessoa

No último dia 30 de abril de 2013, faleceu em João Pessoa onde residia, com a idade de 99 anos e 313 dias, o meu amigo e primo CLAVER FERREIRA GRILLO. 
Nascido em 21 de junho de 1913, na cidade de Bananeiras-PB, era neto de ESTEVÃO JOSÉ DA ROCHA, natural de Pedra Lavrada-PB e falecido  em Bananeiras-PB em 30.03.1874, casado com Maria Magdalena das Dores Farias da Rocha, o legítimo “BARÃO DE ARARUNA”.
O título nobiliárquico de Barão foi concedido por Decreto de 17 de maio de 1871, pela Princesa Isabel.

Claver Grillo era filho de Lindolfo Américo Ferreira Grilo (17.07.1863/10.07.1955) e Francisca Ramalho Ferreira Grillo (2.03.1871/2.05.1938). Por sua vez, Lindolfo era filho de GUILHERMINA FERREIRA DA ROCHA GRILLO nascida em Bananeiras-PB e FRANCISCO DE PAULA FERREIRA GRILLO, nascido em Goianinha-RN.

GUILHERMINA FERREIRA DA ROCHA GRILLO era a sétima filha do Barão de Araruna, de uma prole de 11 filhos sendo 8 homens e 3 mulheres.

                             Lindolfo Ferreira Grillo

Claver era casado com Maria Ilze Bezerra Grillo e o casal teve 10 filhos.

No próximo dia 20 quinta-feira, a Câmara Municipal de Bananeiras-PB, prestará homenagem-póstuma ao ex-vereador CLAVER FERREIRA GRILLO, onde exerceu cinco legislaturas no período de 1947/l967 portanto, 20 anos dedicados à sua terra e sua gente.


sexta-feira, 24 de maio de 2013

quinta-feira, 23 de maio de 2013

DE VOLTA AO PASSADO VII – ANTIGOS BLOCOS CARNAVALESCOS – Parte II


         Os blocos ditos “de elite” a princípio desfilavam em caminhões. As carrocerias eram estilizadas com desenhos de motivos carnavalescos onde pierrôs, colombinas e arlequins, personagens símbolos dos carnavais, sempre eram retratados. Confetes, serpentinas e lanças perfumes, davam um tom de alegria, às figuras retratadas por todos os espaços das alegorias.   
Com maior destaque e em local bem visível vinha o nome da agremiação. Para animar os foliões, contratavam uma pequena orquestra, ao contrário dos blocos dos anos 50, onde a maioria dos instrumentos musicais eram tocados pelos próprios componentes.
         Fazia parte desses carnavais os famosos “assaltos”, que se constituíam em visitas que os blocos faziam nas residências, geralmente de familiares ou de amigos dos componentes, previamente acertada com os donos das casas selecionadas. Nos “assaltos” os foliões eram recebidos com muita bebida e salgadinhos. Lembro-me particularmente de um desses salgadinhos. Composto por uma azeitona, um rodela de salsicha e um cubo de queijo, tudo enfiado em um palito, era servido em grandes bandejas ou espetado em uma melancia ou jerimum envolto em papel alumínio. Era conhecido pelo pitoresco nome de “sacanagem”. 
A orquestra tocava pelo menos duas horas, com intervalo para descanso. Nessas ocasiões os promotores do “assalto” convidavam amigos e parentes para fazerem parte da festa. Quando a alegoria parava em frente à residência que ia ser visitada, logo a frente da casa se enchia de curiosos que acorriam ao local para também, mesmo que do lado de fora, participarem da festa.
                                        
               Daquela época recordo ainda do bloco Bacurinhas. Arnoudzinho, amigo e colega de madrugadoras caminhadas na Avenida Rodrigues Alves, que fez parte do bloco por vários anos, me ajudou no garimpo de alguns de seus componentes. Foram fundadores: Dozinho compositor do hino, deputado Márcio Marinho e Décio Holanda, de saudosas memórias, os irmãos Euzébio (galego) e Manoel Maia, Ronaldo e Márcio Brilhante Fernandes, Marconi Lima (filho do deputado estadual João Aureliano de Lima) e Alcindo (dentista). Outros componentes que participaram do bloco no decorrer dos anos: os irmãos Daniel, Gilberto e Antônio Lira, Manoel e Henrique Gaspar, Jussier e Roberto Trindade Santos, João (Galinha) e Manoel (Mano Frango), Dantas, Edmundo e Fred Aires (figurinista de destaque entre as socialites da época, Bentinho (mago Bento) Manoel Otoni (Baba), ex-prefeito de Goianinha  e seu irmão Alfredinho Otoni de Lima, Manoel, Clementino (Biliu) e Luiz Martins da Silva, Antônio (Tota), contador conhecido nas décadas de 70/80, Nilton, João, Dantas, Zélio, Peninha, mais dois irmãos cujos nomes não recorda, sendo um deles, oftalmologista com consultório próximo da Maternidade Januario Cicco, João Maria Galiza, Alcindo, Gley Fernandes Gurjão e outros.

         Posteriormente, o caminhão foi substituído por carroças puxadas por trator, mais fácil de se conseguir nas fazendas da região, e com a vantagem de ser mais baixa que a carroceria do caminhão, facilitando assim o embarque e desembarque tanto na ocasião dos “assaltos”, como quando desfilavam no “corso” na Avenida Deodoro. Outra grande vantagem foi que as quedas, embora raras, quando ocorriam, não resultavam em maiores danos, ao contrário das ocorridas de cima das altas carrocerias dos caminhões.   
  
         Nesse período, as cidades de Ceará-Mirim e Goianinha eram as mais visitadas pelos presidentes dos blocos, pois sendo área canavieira, a facilidade para conseguir os tratores e carroças, era bem maior. A antiga Usina São Francisco, atualmente Companhia Açucareira Vale do Ceará-Mirim, na época de propriedade do saudoso Roberto Varela, sempre autorizava o empréstimo desses equipamentos para os blocos. Outros tratores e carroças também se conseguiam em fazendas de familiares dos próprios componentes ou de amigos. 
         A orquestra, considerada o coração do bloco, tinha lugar reservado na frente da alegoria. Geralmente era composta por seis a oito músicos, assim distribuídos: Um sax baixo, um sax tenor, dois trombones, um de vara e outro de pistão, um surdo, um tarol e uma caixa. Lembro-me de um soldado da polícia militar de cognome Marimbondo, apelido que ganhou por ter a pele do rosto avermelhada, era disputado pela maioria dos blocos, pois além de ser responsável pela orquestra que formava com componentes da banda de música da policia militar, era exímio trompetista. Sempre que o bloco iniciava seu desfile pelas ruas e avenidas da cidade ou quando à noite entrava no “corso” na Av. Deodoro, lá estava Marimbondo caminhando na frente do bloco. Com ares de Pavarotti, andar cadenciado, bochechas vermelhas e inchadas prestes a estourar, apertava a boquilha do clarim de encontro aos seus lábios, e arrancava do instrumento as mais belas notas musicais, na introdução da marchinha Zé Pereira, anunciando a entrada do bloco no “corso”, a chegada ou saída das casas “assaltadas”.
                  Esses blocos se multiplicaram e em cada bairro ou turma de colégio surgia uma dessas agremiações. Cito alguns que me chegam à lembrança: Escandalli, Penetras, Lord’s, Deuses, Apache, Plebe, Jardim de Infância, Kings, Lunik, Jardineiros, Colônia Pinel, Saca-Rolha, Ressaka e outros que me fogem da memória.
        










domingo, 21 de abril de 2013

VIDA DE GENEALOGISTA



Sou um genealogista – mas acalmem-se, pois não é contagioso. No fundo, a gente queria que fosse, mas não é. Um genealogista é um sujeito que resolve desenterrar toda a história familiar para descobrir quem eram e o que faziam os seus antepassados mais remotos. Um doido, portanto. Para conseguir isso, ele mexe em todos os papéis velhos da família – aqueles que você acha que não valem nada, mas que ele dará um grito de satisfação quando encontrar. Fará perguntas insistentes a cada membro da família.

Quer saber os mínimos detalhes de coisas que você com certeza não se lembra. É capaz de passar horas metido em um cartório, casa paroquial ou arquivo histórico remexendo livros velhos, amarelados e cheio de fungos. Isso porque ele PRECISA esclarecer algum mistério na história da sua família e assim descobrir quem foram realmente as pessoas que o antecederam.

Esta é uma imagem digna de nota: o genealogista, em uma sala silenciosa, absolutamente concentrado em sua pesquisa. Eis que de repente ele vislumbra um registro e pensa: “Será possível?”. Excitado, confere de novo. Sim, ele achou exatamente aquilo que procurava. É nesse momento que todos os genealogistas têm vontade de gritar a plenos pulmões “ACHEI, ACHEI! EUREKA!” – muitos se contém, mas é exatamente isso o que ele murmuram para si mesmos. E se alguém estiver perto e quiser saber o que o sujeito descobriu, provavelmente vai se decepcionar ao ver que foi apenas um registro de casamento super antigo que deu a ele o nome de quatro novos octavós ou coisa do tipo.

Aos poucos, o genealogista vai montando a sua árvore genealógica. Descobre antepassados que ninguém da sua família fazia a menor ideia que tivesse. No começo, ele conta as suas descobertas com entusiasmo. Alguns parentes demonstram certo interesse – e em seguida esquecem absolutamente tudo o que o genealogista disse.

Para uma pessoa normal, qualquer coisa acontecida há cem anos foi praticamente na pré-história. E então o genealogista despeja em cima dela informações de 1800, 1700, 1600… É quando vem a famosa frase, que todo genealogista um dia ouve: “Você vai acabar chegando no Adão!”.
Com o tempo, o genealogista percebe que sua paixão é solitária. Não há registro de um casal de genealogistas, por exemplo. E seria até temário pensar em algo assim, pois eles certamente se esqueceriam de viver. Em geral, o genealogista não encontra no dia a dia quem lhe compreenda. Há parentes distantes que acham estranho esse interesse pelo passado da família e insinuam que o genealogista está de olho em alguma herança. Felizmente há a internet, e nela o genealogista encontra outros genealogistas, e eles se juntam em grupos de cooperação mútua, mais ou menos como os alcoólicos. Nessa troca de informações, conseguem verdadeiros prodígios, e se não chegam mesmo até o Adão não é por falta de esforço.

Os nossos Sherlocks ainda precisam lidar com garranchos, registros omissos ou contraditórios entre si, além de dificuldades no acesso a documentos. Parafraseando Einstein: perto do que foi o passado, aquilo que o genealogista consegue descobrir é algo de tosco e primitivo – mas é também aquilo que temos de mais precioso sobre ele.